Cartas ao JG. Na dor, vá para a margem (Parte 2). A Disparada da Despedida (Autor Ricardo de Faria Barros)

Sabe filho, uma coisa que tenho aprendido é a ler os sinais do que a vida que me falar, nem sempre de forma tão clara.
É preciso ir juntando uma peça ali, outra acolá, é preciso estar sintonizado na frequência dos sentimentos e pensamentos mais nobres e perceber a fala da vida, sobre determinada situação que enfrenta.
A condição para essa escuta é desacelerar o ritmo, permitindo-se navegar lentamente, beirando a margem, para que a dor do momento, o luto, ou uma forte decepção não lhe turve as vistas, e faça com que você se perca de si mesmo.

Na margem, ficamos com a percepção seletiva aguçada, para nos ler, nos autoconhecer melhor, mapear o que nos ocorre e juntar evidências para tomar decisões.

Ontem foi um dia assim. Tudo começou quando dirigia para me despedir de Duquesa, e no caminho conversei com o veterinário. E ele me disse que Duquesa não poderia ser sacrificada, na manhã de ontem, pois que tua mãe decidira enterrá-la no jardim. Confesso-lhe que fiquei puto de raiva, uma vez que a minha decisão - após muito estudo e sofrimento, eu já tomara. E era para que o próprio veterinário desse fim a ao corpo dela. Então, para esclarecer melhor a situação, eu liguei para tua mãe que confirmou a informação dizendo que o jardineiro Jackson iria hoje (18.11.2017), abrir uma cova no jardim. (Evidência 1)

Então, retornei o telefonema para o veterinário, reprogramando o procedimento para a esta amanhã.
Continuei dirigindo para tua casa, com o firme propósito de me despedir da Duquesa. E o trânsito estava infernal, naquela sexta de tempestade aqui no DF, e eu levei 90 minutos de Sobradinho e até próximo à São Sebastião, onde mora.
No trajeto, tua mãe ligou dizendo que pessoas amigas do trabalho dela falaram que já existe tratamento par essa doença. Eu disse-lhe que conhecia e que o preço era exorbitante, e que não recuperaria as lesões que ela já sofrera, nos rins e fígado. (Evidência 2)

Cheguei na tua casa e marquei o lugar da cova, perto do meu pé de umbu. Desci ao pomar e passe um bom tempo acariciando Duquesa, num processo de despedida bem doloroso, mas necessário para fechamento de ciclos. Em determinado momento me distraí, ao ver o quão bonito está a Lichia, carregada de frutos, e ao olhar para o gramado novamente, só vejo o Balu, o nosso velho e gordo labrador.
Chamo por Duquesa e nada dela. Subo a escada externa, em direção ao pavimento superior, e ela também não está a garagem. Ergo a vista e a vejo na garagem da casa da frente, e de lá ela balança o rabo para mim. Chamo-lhe e ela vem correndo, toda alegre, como quem sabe que fez uma peraltice. Ralho com ela e ela volta para o pomar e canil, descendo as escadas qual foguete. Duquesa nunc fez isso. O portão fica sempre aberto. Subir para a plataforma superior é algo impensável para ela que foi condicionada a ficar sempre no pomar. Ela nunca fez aquilo. (Evidência 3). Era como se ela dissesse para mim: “ei, eu estou bem, olha como corro, sei fazer até a disparada da despedida”.

Saio de tua casa, com a cabeça a mil, visto que aquela cena fora muito forte para mim. E sigo para meu lugar predileto de esfriamento de cabeça, qualquer um dos parques do DF. Opto pelo Parque Nacional de Brasília, chamado de água mineral. Ao começar a caminhar pelas suas trilhas, olho para o céu, e um coração de amor se faz presente, olhando das nuvens para mim. (Evidência 4).

À tardinha, voltando para casa após pegá-lo na escola, Mariana, amiga de papai e filha de Ari e Sylvia, meus compadres, manda uma das tantas mensagens de apoio que papai recebeu, após publicar tua Carta, de ontem. Aí eu gravo um áudio para ela, relatando como foi a despedida, inclusive a fugida para rua da Duquesa, ao que ela me responde assim: “Poderia ser triste a história, mas o amor como você fala dela é lindo! Foi a disparada da despedida. Que ela continue feliz e lindona...” Ela usou o verbo no presente, percebe? (Evidência 5)

À noite, meu filho diz que um grupo de criadores e veterinários, ao saberem de minha história, aceitaram tratar de Duquesa e adotá-la. (Evidência 6).

Aí, entro em sites relacionados ao tema e descubro que há 3 anos chegou no Brasil o único medicamento que elimina a doença do animal, chamado de Milteforan. Descubro também que o cão infectado não transmite pela saliva, pelos ou pele, ou em mordidas, lambidas ou contato físico essa doença, o que livrará você de pegá-la (Evidência 7). Continuo a fuçar em sites de criadores, ONGS de proteção aos animais, e até em clínicas veterinárias, e vejo que a opção da eutanásia é uma questão de saúde pública, não pela doença em si, mas pelo alto custo do tratamento. Coisa que afasta a população mais pobre dessa opção, o que é uma pena. O tratamento custa algo em torno de R$ 5.000,00 considerando as duas aplicações do remédio, as colheitas e rações especiais.

Após essas sete evidências sinto que a vida está me falando algo. Saio da margem, volto ao leito do rio, e decido tratar a Duquesa. Bancar o custo e não carregar a culpa de não ter tentado. Quem ama admira, cuida e protege. E eu a amo.
Abro a janela do apartamento e sinto vindo em minha direção uma aromatizada brisa Aracati que me diz: “não temas voltar ao curso do rio de teu viver, eu segurarei em tuas mãos, pode sair de minha margem e voltar a navegar: corajoso e em paz.”.

Um sentimento bom invade meu ser. Envio mensagem para o veterinário cancelando o procedimento da eutanásia de Duquesa. Entro no Mercado Livre atrás de remédio mais barato, e sinto que estou fazendo a coisa certa, mesmo abrindo mão de uma quantia razoável, que poderia a outas coisas ser destinada. Tem nada não, o que gastarei é muito mais barato do que o peso em minha consciência.

O que quero te ensinar com isso? Na margem, quando estiver vivendo processo de luto, ou de angústia, pelo que te ocorre, aprenda a ler os sinais da vida.
No deserto da navegação pela margem de eu viver, aprenda a ser compreender melhor, a se conhecer, a interpretar os pequenos toques, e nada diretos, que a vida via te dando. Pois, você precisará tomar decisões, até para voltar a navegar pelo leito do rio de teu viver. Pois que ninguém é feliz andando só pela margem da vida. Por melhor que seja a tua margem, como as minhas são, elas não poderão devolver o sentido da vida a ti. Só você poderá fazer isso, pagando o preço pelas suas escolhas e decisões.

E estando pronto para voar novamente, abrindo as asas de si mesmo, despindo-se de todo medo, culpa e sentimentos ruins que em ti foram se fixando.

Ao retornar para o curso do rio de teu viver, veja que ao teu lado voa uma borboleta azul, aquela mesma que quando tu estava na margem insistia em lhe dizer que o que o amanhã será melhor, e que aquilo que vivia também passaria. Agradeça a ela. E aprenda com ela. 

Borboletas azuis quando estão pousadas nos troncos, não são azuis. Elas são marrons, da cor dos troncos. Fazem isso para sobreviver, criando um mimetismo com o ambiente. O tronco é a margem delas. Mas, quando saem para polinizar esperanças, abrindo as suas asas, um azul cintilante irrompe de seu interior, clareando os mais nublados dos dias teus. Quem tem uma na vida, tem bênção e graça, e em abundância.

E, geralmente elas são nossas margens. Aprenda a valorizar e a ser grato a quem de ti cuidou quando esteve sofrendo. E, um dia retribua, e cem por um. Devolvendo aos outros, quando for margem para eles, em dobro, o que a vida lhe deu, em forma de proteção, amor e respeito. “Tudo que tu quiser tentar é o mais importante. Amanhã o sol vai brilhar.” Mensagem de minha margem, que serve para tu, e em todos os momentos nos quais decidirá retornar ao centro do leito do rio de teu viver, voltando a ser o próprio protagonista de tua jornada.

Aprenda a ler os sinais do que a vida está querendo lhe falar. Algumas vezes, até gritando-lhe para que tome consciência e mude algo que está lhe fazendo infeliz.

---------------------------
JG = João Gabriel, meu quarto filho, hoje com 8 anos.

Cartas ao JG. Na dor, vá para a margem! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Sabe filho, quando você estiver passando por um processo difícil, vá para as margens do rio de tua vida.

Eu aprendi isso com os comandantes das embarcações que chegam, ou partem, de Iquitos que é  considerada a capital da Amazônia Peruana.

Iquitos é a maior cidade do mundo, com seus quase 500.000 habitantes, que não se pode chegar nela por terra: só por ar e água.

Então, o Rio Amazônia vira a BR principal para chegar à Iquitos, que fica à sua margem.  Dependendo de onde os barcos saem, eles subirão o Amazonas, ou descerão.

E, o maior cuidado dos marinheiros é não bater em troncos flutuantes, ou errar o caminho, entrando nos enormes afluentes de Nanay e Itaya, que desaguam no Amazonas.

A viagem leva em média 8 dias, tempo suficiente para se pensar muito na vida.

Pois bem, quando as condições do clima pioram, com chuvas torrenciais e neblina, dificultando a navegação, pela pouca visibilidade à frente, os comandantes tomam uma drástica decisão.

Eles reduzem ao máximo a potência, e dirigem suas embarcações para bem próximo das margens do Amazonas, e seguem mirando nela, que funcionará como uma guia.

Quando você tiver sofrendo muito, passando por um aperreio grande, vá para as margens de tua vida.

Diminua a potência, e siga sua jornada, apoiando-se na na margem.

Hoje eu fui para a margem. Tomei a decisão de sacrificar Duquesa, que contrariou Leishmaniose. A orientação sanitária é para sacrificar, pois o mosquito pode picar nela e infectar humanos.

Duquesa é minha amiga, aquela que me muita companhia no Recanto do Guerreiro. Eu estou sentindo muito.  E fui para a margem.

Na margem eu me fortaleço, para encarar a realidade de não mais acariciá-la, quando ia te pegar.

Na minha margem existe a espiritualidade, existe um amor de cuidado e admiração, existe meus filhos, irmãos e pais, ou seja, minha família.

Na minha margem, existem amigos fieis.  Daqueles que falamos a mesma coisa, como disco repetido, e eles ouvem como se fosse a primeira vez.

Na margem eu acolho minha dor, compreendo-me no sofrer e não me apresso para voltar ao centro do rio de minha vida.

Na dor, procure suas margens. Eu posso ser uma delas, conte comigo.

Ser margem é exercitar o dom de acolher o outro. De apenas abraçá-lo e deixá-lo aninhar-se no seu peito.

Ser margem é não parar de acreditar que aquele barco, da pessoa amada que em ti se conectou, logo voltará a navegar, e em melhores condições, assim que o mau tempo passar.

Ser margem é não apressar o rio. É ter paciência com o lento desabrochar para a vida, novamente, da pessoa amada. Estando 100% presente, mas evitando fazer a travessia por ele, pois não funcionará.

Ser margem é reduzir a ansiedade de ver a pessoa amada melhor, pois isso só a fará sentir-se pior ainda.

Ser margem é semear esperanças que dias melhores virão, e que "isso também passará". E para isso não precisa dizer nada àquele que em tua margem procurar uma guia, seja apenas amor. E o amor nem sempre pede palavras. 

Filho meu, quando tudo estiver difícil à sua frente. Quando as coisas estiverem sem um horizonte, cobertas pela neblina ou temporal, vá para a margem.

Ali, reduza a potência de seus motores existenciais, mas não ancore. Siga devagarinho, em direção à Iquitos.

Devagarinho, um dia de cada vez, sem querer apressar a libertação da dor e luto.
E se aceitando, não tão mais disposto como antes do temporal existencial que fechou caminhos em teu viver.

E chore!  Não banque o forte. O luto precisa de angústia. E a angústia precisa de tempo de maturação.

Cuidado para não se perder, entrando nos afluentes do Amazônia. Quando estamos tristes e vivendo processo de luto é bom não tomar decisões precipitadas, nem procurar falsas ajudas. Esses atalhos só farão você se perder de si mesmo, e será mais difícil retornar ao curso do rio de tua vida.

Na dor, cuidado com os falsos oráculos, as receitas mágicas, as coisas que aparentemente te farão esquecê-la, mas que ao passar o efeito delas, a dor virá mais forte ainda.

Portanto, não anestesie tua dor.  E, cresça na dor. É filho meu, a dor nos aquebranta, nos faz mais humildes, humanos, mais gente.  Ninguém supera um momento de dor, sofrimento ou luto, saindo da mesma forma.

Quando essa pessoa volta a leito do rio, de seu viver, está bem mais forte. Quem já sofreu e superou sabe do que falo.

Serei tua margem, mas tu terá muitas outras. Talvez uma namorada do tipo brisa aracati, ou a rara borboleta azul, para te dar forças. Caso tua margem não seja pessoa amada, ainda assim tu poderá botar os joelhos no chão e pedir a paz, Ele não te faltará!

Agora, papai vai se recolher um pouco, pois estou sentindo a falta da Duquesa, sempre tão alegre e amiga. Papai foi para a margem, desliguei os motores e desço para Iquitos devagarinho. Sem drogas de qualquer espécie, nem outras fugas de minha dor. Que é só minha, e de mais ninguém, e que preciso passar por ela.

E passarei, pois que no amanhã dias melhores virão

---------------------------
JG = João Gabriel, meu quarto filho, hoje com 8 anos.

Obs: Na foto Duquesa, uma Golden Retriever fazendo o que amava, tomar banho de mangueira.

A Arte de Fazer Vinha D´alhos na Vida (autor Ricardo de Faria Barros)

Arrumei a casa ontem, após tua saída.  Nela, tinha restos teus espalhados por toda parte, e com eles me deliciei, propagando os bons momentos que juntos vivemos.

No sofá, o cobertor que te aninhara permanecia do jeito que tu deixou. Quase te vejo nele.

Numa das fotos que tiramos, percebo tua expressão faceira, de surpresa e humor. Acho que estava querendo falar algo, sobre o prato que juntos cozinhamos, como que a pedir para ir comê-lo no sofá da sala de TV, algo para ti mais proibido do que namorar com prima.

Durante nossa experiência gastronômica, ensinei-lhe a fazer isca de peixe. E tu ficou surpreso com o vinho que botei no peixe para marinar.

Falei que o vinho fixa e realça o sabor, e que sempre foi usado na culinária, desde a idade medieval, no que se chama de vinha de alhos.

Teus olhinhos brilhavam de curiosidade, e tu me ajudou a deitar o vinho sobre o peixe, sentido-se um máster chefinho.

Sabe filho meu, hoje tu tem 8 anos, e não sei quando lerá essa carta.  Nela, preste atenção a duas palavras: fixar e realçar.

Aquele peixe não teria nem a metade do sabor que ficou, e fez tu comer tudinho, sem o vinho. O vinho pegou o sabor da cebola, do alho, do tomate, da salsa, pimenta e sal e fixou nos poros do peixe. Depois disso, ele catalisou uma reação química realçando o sabor desses temperos, e dando ela próprio, com sua acidez, um sabor mais que especial ao peixe.

Só deixe se fixarem coisa boas em teu coração. Elas vão realçar o sabor da tua vida.

Exstem dez bons tipos de vinho, para as vinhas de alho de nosso viver, são eles: gratidão, solidariedade, esperança, perdão, doação, bondade, otimismo, paz, amor e a coragem, de se reinventar após momentos difíceis.

Cada um dos vinhos acima, isolado ou atuando em conjunto, fixará e realçará o sabor de teu viver.

Acredite em teu pai.  Não adianta querer saborear aquela Moqueca Capixaba da tua vida, se teu coração for cheio de mágoas e rancor. Não sentirá o gosto dela.

Não adianta querer degustar aquela costela de tambaqui, com o coração cheio de ingratidão e desesperança. Ela vai descer entalado.

Teu pai é colecionador de pessoas comuns, com atitudes incomuns diante da vida. Se eu pudesse definir o que as caracterizam, eu diria que são duas coisas.

A primeira, elas não querem ser as melhores da humanidade, mas as melhores para a humanidade.

A segunda, elas não perdem tempo cultivando emoções ruins, criando-as como bichinhos de estimação, em seus corações e mentes.

As melhores experiências da vida, os maiores amores, as viagens inesquecíveis, ou situações no mundo do trabalho dignas de louvor, sem a vinha de alhos feita com algum dos dez vinhos, acima descritos, expressos naqueles comportamentos ou atitudes (paz, amor, perdão, esperança...,) não se fixarão nas memórias afetivas, e não terão o seu sabor realçado e melhor valorizado por quem as viverá.

Tenha muito cuidado com isso.  Já convivi com um monte de gente que vive experiências maravilhosas, contudo as degusta como quem come coisa ruim. Desaprenderam a sentir, com as emoções e pensamento positivo, o valor do que tem, fazem, recebem ou testemunham nos outros.

São promovidas e não se alegram mais. Acham que mereciam e pronto.  Lutam para entrar numa empresa, estudando anos a fio, e não mais renovam o tesão por ela. Envelhecem-na dentro deles.
Têm filhos maravilhosos, como você, Tiago, Priscila e Rodrigo, mas por estarem com o coração tão cheio e pesado de coisas ruins, não mais acolhem a presença deles, de forma inteira, não ansiosa, agitada ou cheia de outras preocupações.

E o sabor da vida não se fixa ou se realça em nada de bom que eles vivem. 

Pois, falta-lhes algum dos dez vinhos. Talvez um pouco mais de perdão. Para outros, paz. E em determinado momento, pode faltar-lhes a coragem de se reinventar, após os baques inevitáveis que levaram da vida.

Por isso, aprenda a guardar esses vinhos. Nunca vi alguém infeliz com eles na adega do coração.

O Gerânio da Mamãe (Por Ricardo de Faria Barros)

Tomando um delicioso cappuccino, curtindo o friozinho do DF, mito esperado em sua chegada neste ano, contemplo nuvens brincantes no horizonte.

Deito a vista sobre a estante e me delicio com os brotos de uma tenra muda de gerânio que vêm nascendo.

Sempre fui apaixonado pelo mistério do germinar, da casca que se abre em brotos. De brotos que desafiam espaços impossíveis de ser. E, mesmo assim, tornam-se.

Não é um gerânio qualquer. É de pingente e vermelho, comprado seguindo recomendações expressas de minha mãe, numa saga hilária.

Vê-lo nascendo lembra minha mãe e seu amor pelas flores e plantas. 

Quando chego perto da sacada, e acompanho broto a broto sua evolução, é como se ela estivesse ali comigo, torcendo, apoiando, me amando.

As coisas só são coisas até serem tocadas pelo toque do amor. Como na mitologia quando Midas 
fazia ouro com seu toque, o amor nos torna mais que preciosos, nos torna eternos. 

Nesse momento, após serem abraçadas pelo amor, as coisas deixam de ser coisas. E esse filhote de gerânio não é mais um gerânio, é o Gerânio. Os substantivos viram nomes próprios, adquirem personalidade.  Aquele Gerânio, plantando de um pequeno galho caído no chão, quando eu preparava sua mãe, para levá-la até a minha, é presença de mamãe na minha varanda.  Minha mãe é aquela que além de me amar, reza por mim. Então, é amor em dobro. 

Não sei com vocês, mas comigo têm umas coisas que deixaram de ser coisas. O cobertor que o João Gabriel gosta de ver filmes, todo empacotado nele, não é mais um cobertor, é o Cobertor do JG.

Se eu soubesse dessa natureza das coisas, de tornarem-se evocação de pessoas e bons momentos, eu teria guardado mais algumas delas, em baús do pirata. 

Mas, quando somos jovens, achamos que isso de bom que vivemos vai se repetir e que nada precisa ser guardado, para com aquilo fazer comportas emocionais, tal qual fazemos com as frutas da estação, inclusive as jabuticabas. Para serem degustadas noutros momentos, quando a vida ficar menos agitada, ou quando a preocupação se avizinhar.

Somos seres simbólicos, de mistérios, místicas e cheios de subjetividades. Creio que é isso o que nos torna humanos.

Lady vem fazer faxina na quarta, ela pode esbarrar em qualquer um de meus vasos de plantas, e até quebrá-los, eu vou substituí-los numa boa, sem estresse, faz parte. 

Mas, mas se for o do Gerânio da mamãe eu irei sentir muito. Logo procurarei nos sacos de lixo, para ver se acho o lixo aqui de casa, e salvarei a tenra muda. 

Essa parte "Demiens", do "Homo Sapiens", é o que torna transcendental o viver.  Afinal, de perto ninguém é normal, como disse Caetano. 

Quem de vocês reviraria um lixo atrás de um galho de gerânio?

Quem de vocês compraria uma radiola usada, só para ao olhar para ela se lembrar de onde veio e o quanto cresceu, quando em 1985 - com quase 21 anos, recebi o  meu primeiro salário como adulto sério e grávido? E, hoje, há exatos 32 anos, fucei no Mercado Livre até achá-la, mesmo com um pequeno defeito no descanso do braço, segundo vendedor, e sem as caixas de som, mas funcionando. (Oremos. rsrs)  É bom olhar para nossa história e saber o que passamos, de onde viemos, e o quanto já crescemos e sobrevivemos, e estamos mais fortes e preciosos do que éramos. 

Não é mágico viver?  Não é bacana percebermos o quanto das pessoas entram nas coisas de nosso viver, dando a elas um novo significado?  E o quanto carregamos conosco, e deixamos nelas, do nosso perfume de existir?  Aliás, se há uma conserva emocional poderosa são os aromas.

Aromas afetivos que nos fazem rememorar o amor. Que renova e refresca nossa esperança, tal qual o orvalho das manhãs faz com os tenros brotinhos, saídos de cascas e galhos, dando-lhes mais uma oportunidade de despertarem o  seu melhor potencial.

Casas que não são lar e quartos de hotel nem sempre possuem isso. Não há aromas de referência e a história das coisas é frugal. Não há o cheiro de gente nelas.

Gente cheira. As pessoas são aromatizadas. Eu sei que tu está sorrindo, imaginando que algumas fedem, de ruins que são. Engano seu.  Elas apenas pisaram em cocô de pato, e carregam esse cheiro. Mas, não é delas. Foram coisas fedorentas que nelas foram se afixando. Se tirar essas coisas delas, elas voltam a cheirar.

Somos almas perfumadas. Todos nós. E, mesmo que alguns de nós tenham se transformado em coisas, em algum momento de sua história de vida, quando são tocados pelo toque do amor, tornam-se Nome Próprio, deixam de ser pessoas-substantivos. 

Até nós, coisificados que ficamos, não resistimos ao toque do outro em nosso ser, quando ele é de amor, e nova criatura nos tornamos. 

Nossa muda de gerânio interior, tão comum às demais, e sem graça alguma, quando nela se deposita o amor, deixa de ser uma muda, e passa a ser a muda. Transforma-se de objeto em sujeito, de substantivo em nome próprio.

Levanto-me e vou avaliar meu Gerânio. Agora são cinco folhas e três novos brotos. Antes era apenas um galhinho, sem folha e brotos. 

Quanto progresso!  Um desavisado que chega e olha para meu Gerânio, não vê nada de especial. Eu, que conheço sua história, sei de seu progresso pela vida, e o quanto significa para mim.

Assim é conosco. Para saber de nossos avanços têm que nos conhecer, e nos amar.
Muito de nós, visto de longe, somos apenas uma pequena muda de uma plantinha, sem flor e formosura alguma. Mas, se conhecermos a história dela, veremos o quão longe já chegou e o quão significativo é cada broto que dela nasce.  

Somos eternos demais para nos acostumarmos com o ruim e o pequeno, até de nós mesmos. 

Quantas pessoas pegaram o galhinho de nossa vida, que estava jogado lá no chão, desprezado, sofrendo e esquecido,  e com cuidado o plantaram no jardim de seus corações? Que vingaram em  rosas laranjas cheias de bênçãos e de beleza. 

Agora deu fome e vou comer uma feijoada, que também não é uma feijoada.  É a Feijoada, aquela que evoca em mim a renovação de meu espírito de luta, tal qual a brisa aracati faz nos sertanejos do Vale do Jaguaribe-CE, ou borboletas azuis fazem para caminhantes exaustos em trilhas do Cerrado.

Sim, quando o Gerânio der suas flores vermelhas, e em pencas, lá pelos idos de 2018, será mais mais uma razão para celebrar a graça de viver. E, nesse dia, você está convidado(a) para juntar-se à mesa e comigo celebrar à vida. Temos que aprender a festar a vida, e nas suas pequenas coisas, que ao serem objeto de nossa gratidão deixam também de ser coisas, tornam-se marcos. 

E, deixar marcos nos outros é muito melhor do que deixar marcas. Então, aguardem o marco das flores do Gerânio da mamãe. 

Quem procura acha. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Cheguei de exame periódico, feito no Hospital do Coração de Brasília, tomei coragem e fui avaliar os estragos da chuva na minha vinilcoteca, que fica na estante da sala.

A estante foi bem afetada por um temporal que por aqui caiu, ontem à tarde, pois as janelas estavam abertas e eu estava fora de casa. Nela, ficam meus vinis, livros de gastronomia e álbuns de fotos. Ontem, avaliei os estragos nas fotos. E, para minha grata surpresa, elas não foram atingidas.

Para mim, um verdadeiro milagre pela disposição dos álbuns e pelo volume de água que entrou.

Hoje, comecei retirando um dos lotes de discos, uns 50, dos 1.000 que possuo.
E, como diz a canção:  "meu mundo caiu". Eles foram atingidos em suas capas, e estavam molhados ainda, denunciando a chuva em suas faces.  Ficarão com as extremidades das enrugadas, danificando a composição artística das mesmas. Eu até botei para secar, contudo não serão mais as mesmas.

Os livros também escaparam ilesos, que bom.

Quando uma ponta de tristeza quis irromper meu coração, eu lembrei-me da senhorinha que fez exame comigo, hoje bem cedo, e da forma com a qual lidou com uma pane de seu carro, quando estacionava no hospital.  Deixa eu contar pra vocês.

Bem cedo saí para fazer exame de Cintilografia, marcado para 7hrs. Cheguei no local pelas 6h30min. Logo após, uma outra cliente chega. Percebo que é bem idosa, cabelinhos branquinhos, e de longe ela me vê e me saúda com um sonoro bom dia. E eu abri um sorrisão para ela.

Nossos atendimentos estavam marcados para 7hrs, e ela também iria fazer a Cinti.

Aí, chegou outro cliente para o mesmo exame, e da porta já esbravejou com a maquina de senha que ainda estava desligada. Ao que a senhorinha disse-lhe: "não se preocupe, o Sr. é o terceiro da fila".
O cliente sentou à minha direita, e ela estava à esquerda. E ele continuou resmungando sobre o horário dos atendentes (x) o horário do atendimento.

A senhorinha mudou de assunto, cotando que o carro dela "morreu" ao estacionar, e que deve ter "afogado". E que foi salva pelos rapazes que "guardam carro", que lhe ajudaram empurrando o carro por mais um metro, até ele entrar complementamente na vaga.

Ela falava com uma mansidão e paz, daquelas de ninar criança no colo. Nenhum atitude de desgosto, de maldição de raiva ou ranzince. Pelo contrário, ela disse estar muito grata aos rapazes que ajudaram-na, e que se o carro não pegasse, na sua saída, ela chamaria o seguro.

Às 7hrs,  as atendentes chegam e nos chamam. Eu fico na estação de atendimento do meio, e os outros clientes nas do meu lado.

A senhorinha, ao começar a ser atendida, deseja á jovem um excelente dia de trabalho. O outro cliente, bem agitado e nervoso, pergunta à moça: "Vem cá, qual é o seu horário mesmo?"

Eu baixo a cabeça de envergonhado.

Para que essa pressa, se vamos passar quatro horas nas salas de exame? O que são uns minutos a mais ou menos?  Pensei com meus botões.

Depois de atendidos, seguimos para a sala de pinçamento da veia. O enfermeiro nos dá mais formulários para preenchermos, e ele solta mais um rabujo: "Cadê a minha prancheta?" 

O enfermeiro se desculpa e diz que são dois preenchimentos por vez, no caso o meu e o da senhorinha, e que logo dará a prancheta para ele.

O enfermeiro pede então que caminhemos pelos corredores por 30 minutos, "para circular" a medicação.  Aí começamos a andar. Ela, uma gracinha: toda falante vai contando de como era Brasília quando aqui chegou em 1966. E que ama essa cidade. Que foi atleta de vôlei e gosta de fazer caminhadas. Para se manter jovem nos seus 83 anos. Como não amar uma pessoa assim?

Ele, nos acompanha reclamando do curto espaço da "pista", ou de uma cadeira que alguém deixou no circuito, diminuindo-a mais ainda. Ou de apenas um tomógrafo está funcionando pela manhã, o que atrasará mais ainda o atendimento. Como ele foi caçar essa informação, pensei?

Nós, damos de ombro, e seguimos falando de coisas boas, e até brincamos dizendo que estamos caminhando na praia, e que só falta a cerveja. O enfermeiro que nos atendeu ouve-nos, e entra na brincadeira, convidando-nos para ver a decoração da sala do ergométrico. Ele abre a porta e nos diz, aí está a praia de vocês. Tratava-se de uma parede pintada com uma bela praia. E todos caímos na gargalhada.

Após a caminhada, é hora de comer algo gorduroso para melhorar as imagens: água, pão, queijo e iogurte. Imaginem quem reclamou do lanche?  Acertou...

O cliente cismou com a água mineral com gás. 

A senhorinha sorri, deliciando-se com o lanchinho. E dizia,  "se eu soubesse que tinha direito a lanche tinha feito esse exame mais nova". cacacaca

O que os diferencia?

Ela, extraí elementos da realidade para ser mais feliz.

Ele, extraí elementos da realidade para ser mais triste.

Cultivar o bem-estar emocional positivo nos pensamentos é uma escolha.

Volto o olhar para a vinilcoteca. E faço uma intervenção em meus pensamentos negativos, quanto ao que me sucedeu.

Digo para mim mesmo: pelo menos salvaram-se as fotos, essas sim, únicas em meu viver.  Eu trocaria todos os meus 1.000 vinis por um álbum, com 500 fotos, das mais de 5.000 que tenho impressas, de um tempo que não havia máquina digital, caso ele tivesse sido estragado pelas águas. 

Muitas coisas em nosso viver podem ser assim, quando as perdemos. Poderemos até ficar tristes por um momento, frustrados e etecetera e tal. Mas, se olharmos por outra perspectiva, se olharmos para o que ainda temos, para o que nos sobrou, e não para o que nos falta, encontraremos forças para superar o luto da perda, de qualquer perda.

E, no meu caso, sobraram os livros e a fotos. E está excelente. É lucro, diante do que ocorreu na sala com aquela chuvarada.

Quem passa o dia procurando razoes para ser infeliz, acha. Nosso cérebro entende que é esse nosso modelo mental, de pesquisa dos dados da realidade ou dos outros, e se encarregará de apresentar cenas e atitudes, desse teor de emoção negativa, e vindas de bandeja e aos montes.  Como o cliente fazia com tudo que via, num excesso de crítica pessimista da realidade. 

Assim como o Google faz quando você pesquisa qualquer coisa, por alguns dias, passando a enviar para você um monte de coisas relacionado àquela pesquisa, até no seu  Gmail e Facebook,  Ele saca o que tua percepção seletiva está atrás, e te oferece mil possibilidades de encontrar o que precisa.

Nosso sistema de emoções e pensamentos é igualzinho, ou melhor, é muito, muito, muito mais potente que o Google.  Nosso cérebro saca o tipo de energia que estamos cultivando dentro dele, e faz com que ela encontre pontos de conexão, na realidade ou no outro, para se abastecer dela.

Ter consciência sobre o que estamos pensando, e do impacto desse pensamento em nossos comportamentos e emoções, e até nos relacionamentos com os outros, já é um primeiro passo para deter o rio dos pensamentos negativos - substituindo-lhes por outros, bem mais expansores e edificadores da consciência, e das possibilidades de ação. "Se não pegar o carro, eu chamo o seguro..." Que sabedoria!

Bem me quer, e eu te quero. (Por Ricardo de Faria Barros)

Era dia do Halloween, no condomínio. As ruas estavam repletas de fadinhas, monstrinhos e pessoinhas que mais pareciam saídas de filmes de terror.  As família entraram na brincadeira e as casas estavam com seus jardins decorados, e à caráter com muitas abóboras assombradas, teias de aranha, facões, caveiras e bruxas.
E a criançada se divertia, já sabendo pela decoração externa as casas que poderiam parar, pois ali tinha coisa boa para comer. E, então gritavam, quase se esgoelando: "doces ou travessuras?". E aí era uma felicidade só.  De uma delas, saiu um pai babão, todo enfaixado - tal qual um múmia, e com sangue escorrendo pela cabeça, artificial é claro, e as crianças correram com medo dele. E tudo era festa naquela tarde de sábado. Eu e o JG formamos um grupo de coleta e saímos também à caça de doces. Resolvemos visitar a varanda da Catarina, que pela decoração prometia. Ali, nos juntamos ao grupo deles, e agora éramos 6: Eu, JG, Sônia, Catarina, Pergentino e a pequena Lis.  Um reforço considerável na missão de amealhar doces.  

A Lis estava chorosa, e o JG estava com resto de sono do dia anterior, e reclamando que não tinha fantasia de monstrinho. O que foi logo sanado pela Catarina, que improvisou um turbante de cérebro, uma capa e uma maquiagem de cortes. Pronto, havemos monstro!

A Lis não queria caminhar. Seus dois anos e três meses pedia braço. E, em algumas casas, ela empacava e não queria ir pegar os docinhos.  Catarina falou que iria chegar um amiguinho dela, do jardim da infância, de um ano e onze meses e que ela melhoraria de humor.  Mães entendem os filhos. Sabem tudo deles. 

Seguimos pelas ruas, ali e acolá parando para consolar Lis, que estava naqueles dias. Se tivesse TPM, aos dois anos de idade, diria que ela estava enfezada por ela.

Mas, eis que o Vítor e seus pais chegam e juntam-se ao nossos grupo.

Lis abre um sorrisão, dá a mão ao Vítor e torna-se outra pessoa - nova criatura é!

Agora ela corre na frente, para pegar os doces, sempre puxando o Vítor pelas maozinhas. Agora ela faz pose para as fotos, junto aos jardins decorados. Agora ela balbucia palavras que só os pais entendem. Esforço-me para compreendê-la, e com a alma, entendo o que ela diz, que está feliz com a chegada do Vítor.

Ela não tomou chá, não tomou calmante, não tomou uns cocorotes pedagógicos, não tomou carão, não tomou nem mamadeira para mudar radicalmente de humor.

Apenas acolheu o Vítor em seu coração.  Imaginar que a soma das tenras idades deles não dá nem cinco anos. 

Numa esquina, miro no casal e flagro o olhar deles, um para o outro. Um olhar que sorri, que abraça, que cuida e admira. É olhar de amor, e dos bons.  Lógico, entendam-me por favor, falo de um amor maior que sexualidade, maior do que aquilo a que costumeiramente associamos quando falamos do enlace entre pessoas graúdas. 

Numa casa, a proprietária pede para tirar uma foto do casalzinho, ele vestindo com uma capa do Drácula, e ela de chifrezinhos rosa.

Até JG comenta o milagre da mudança de humor e disposição da Lis. É isso que o amor faz em nossa vida, nos torna lendários. 

Melhora nossa disposição, ânimo, nos motiva a fazer coisas impensáveis, como roubar docinhos de crianças para levar à pessoa amada que ficou em casa.

Em que esquina ficou aquela Lis chateada, birrenta, chorosa e cheia de manha, que só queria braço?

Acho que no fundo todos nós, quando estamos naqueles dias da pá virada, precisamos de um Vítor adentrando nosso viver. Vítor pode ser um amigo, um familiar, uma pessoa que quando a nós se chega traz consigo o sol das manhãs vindouras, traz a paz de um entardecer, traz a segurança de  adormecer no calor de corpos que se completam. Vítor faz Lis sorrir, precisamos de quem nos faça sorrir. 

E como se expressou o amor de Lis para com o Vítor?  Primeiro pela mudança radical do estado de ânimo e de energia quando em sua presença.  Depois, pelo cuidado com ele, mais novo 4 meses que ela. Ao não largar sua mãozinha, e até diminuir o ritmo de suas correrias, para que ele a acompanhasse. Depois, pelo admirar. Lis admira Vítor, pude comprovar em vários olhares languidos que a vi fazendo,  admirando sua fantasia. Por último, no se doar. Lis pegava os docinhos, mas sempre tinha um para o Vítor. Ela partilhava os seus próprios docinhos com ele, sem egoismo, num gesto de pura entrega e doação. Daqueles que enchemos os olhos de lágrimas ao vê-los. 

Sim, meus amigos e amigas, o amor muda nossa própria essência, que sempre esteve ali, mas que precisa dessa força para se expressar no seu melhor, para despertar e crescer, desenvolvendo potenciais que nem a pessoa, antes de amar, sabia que tinha.   Bem me quer e eu te quero e a vida se descortina numa explosão de aromas, texturas, cores e sabores, e viramos imortais, eternos demais para sermos menos.

Volto pra casa com o coração cheio de paz e alegria, influenciado pelo que testemunhei. Esse é o melhor dos efeitos colaterais do amor, ele irradia vida para todos que perto deles estão. No rádio toca um Roberto, abro o vidro do carro e deixo sentir a brisa aracati de final de tarde, miro à frente e vejo uma mor, ele contagia. Volto sentindo a presença da brisa aracati em meu viver, de uma borboleta azul guiando meus destinos e de uma canção de Roberto que teima em aquecer corações.  

Você já parou para pensar que tu presença pode mudar uma vida, um dia, um instante, tornando-o mágico, único, místico e transcendental?    

Você já parou para valorizar, mais ainda, aquele que quando perto de ti chega muda a força de teu viver, e te faz produzir serotoninas, endorfinas, dopaminas e oxitocinas, o quarteto fantástico do bem-estar?

Como diz a canção do Jonh Denver, Perhaps Love, talvez o amor seja isso mesmo: uma pessoa que possa nos levar para casa. Lis e Vítor, e todos que amam uma pessoa, ou uma causa, se encontram nesse poema, e sabem mesmo o que é mudar de humor ao verem o amado, seja ele pessoa ou uma causa que militem, um propósito de vida. Vejam que belo:

"Talvez o amor seja como um lugar de descanso, um abrigo da tempestade. le existe para te dar conforto, ele está lá para te manter aquecido

E nas horas de turbulência, quando mais você está sozinho
A lembrança de um amor te levará para casa

Talvez o amor seja como uma janela, talvez uma porta aberta
Ele te convida a chegar mais perto, ele quer te mostrar mais
E mesmo que você se perca, e não saiba o que fazer
A lembrança de um amor fará você superar tudo

Oh, o amor para alguns é como uma nuvem, para outros, tão forte quanto o aço
Para alguns um modo de vida, para outros uma forma de sentir
E alguns dizem que o amor é se agarrar, e outros dizem que é deixar ir
E alguns dizem que o amor é tudo, outros dizem que não sabem

Talvez o amor seja como o oceano, cheio de conflitos, cheio de dor
Como uma lareira quando faz frio lá fora, como o trovão quando chove
E se eu vivesse para sempre, e todos os meus sonhos fossem realizados
Minhas lembranças de amor seriam de você

E alguns dizem que o amor é se agarrar
E outros dizem que é deixar ir
E alguns dizem que o amor é tudo
E outros dizem que não sabem

Talvez o amor seja como o oceano, cheio de conflitos, cheio de mudança
Como uma lareira quando faz frio lá fora, como o trovão quando chove
E se eu vivesse para sempre, e todos os meus sonhos fossem realizados
Minhas lembranças de amor seriam de você.

Em tempo: Depois dos doces Lis e Vítor brincaram até tarde da noite. Talvez o amor também isso,  ter com quem brincar.

Não eram camarões, eram bênçãos! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era sábado de feira livre no Mercado Central de Campina Grande-PB, e adentrei nela pela rua das flores. Eram flores de todos os tipos, formatos e para as mais diversas ocasiões. Procurei as de cor laranja. Minhas prediletas. E não me pergunte o porquê. Amo flores laranjas. De todos os tipos. O tom laranja me acalma. Entrar na feira por aquela rua rejuvenesce a alma e restaura esperanças. E ao atravessá-lo, mesmo que não se compre nenhuma delas, não tem como a alma não seguir caminho sem sair dali mais perfumada.
E, almas perfumadas são presentes de Deus em nossa vida. São como quem avista uma borboleta azul, ou recebe nas faces a brisa Aracati, que sopram sobre o Vale do Jaguaribe-CE.
Segui caminho e parei nas lojas de mangai. Cheias de "pra que isso?" nordestinos. Verdadeiras têm de tudo. De cangaia, cabresto, amolador, pote, fumo de corda, lampião, enfeites, bolsas, enxada, arataca, alpercata e boneca de sisal, que se olhar de uma vez, como diz o poeta Jessier Quirino, dá até uma doidiça.
Saindo de lá, carregado de mimos para pessoas amadas, segui para a ala dos pescados e frutos do mar. Um deleite só de ver e sentir o aroma, por ali passar.
Tem peixe fresco, peixe salgado, caranguejo, tem bacalhau popular, sardinha, têm tranças de piabas, fazendo cortinas nos balcões, uma belezura, e os montinhos de camarão de todos os tamanhos, para caldo, pizza e moqueca. E tem a gritaria dos vendedores, que anunciam: "olha o peixe fresco!" Feira livre sem gritaria num é feira, é supermercado. Extasiado, parei numa banca para fazer as fotos dessa crônica, de montinhos de camarão, salgados e secos, devidamente perfilados. Notei que enquanto eu tirava as fotos, o senhor que atendi me fitava com surpresa. Orgulhosos com os seus camarõeszinhos que posavam para a foto.
Ele se aproximou e perguntou-me se eu queria levar algo. Disse-lhe que estava de passagem, logo viajaria para Brasília e que vim matar as saudades do Mercado. Aí, ele me disse que aqueles montinhos de camarão tinham história. Meus olhos brilharam, amo acolher histórias.
Ele se apresentou, me chamo França. Qual é sua graça? Me chamo Ricardo.
França contou-me que na década de 70 ganhava muito dinheiro com confecções.
Era caixeiro viajante e fazia todo o interior da Paraíba, levando peças de roupa de importante estabelecimento: Tecidos Cardoso, acho que era esse nome. Aí, após 20 anos de muita labuta, e de segunda à sexta fora de casa e percorrendo estradas de barro, comendo e dormindo mal, ele acordou num sábado muito cansado e querendo largar daquela vida. E, para desparecer, veio com o filho de oito anos no Mercado Central.
Aí, enquanto ele comprava peixe numa banca, seu filho soltou-se de sua mão e foi “curiar” noutra banca, assombrado que estava com os motinhos de camarão ali expostos, sobre o balcão. E, do alto de seus 8 anos e santa inocência, pegou alguns para comer, como se fossem pipocas. Aí, o dono da peixaria, na qual o menino "amealhara" um pouco de camarão gritou com ele e o ameaçou com um porrete. Sr. França, ouvindo a gritaria, virou-se e viu que era com seu filho. E saiu em seu socorro. Pagou o que o filho pegou, pediu desculpas, comprou ainda mais um pouco, de camarões secos e salgados. E ainda ouviu do dono que o filho dele agiu como meninos de rua, sem educação.
Ele olhou para o filho e disse: vãos para casa andando, e comendo camarão. “Tu come um, eu como outro. Eu preciso pensar, e andar faz bem".

E seguiram os dois por uns 6 km, até o bairro do Catolé, onde França morava. Chegando em casa, França disse assim a mulher: "Hoje nosso filho se sentiu numa arapuca e teve medo, pegar indevidamente uns camarões de banca de feira. Assim como ele se sentiu, eu estou me sentindo no meu trabalho, em relação à minha família, que não vi crescer por tanto que me ausentei. Eu não aguento mais essa vida mulher, longe dos meus, e por vinte anos, e vou pedir as contas". Aí, ele de fato pediu as contas e com o.... [Chegou um cliente, e o França ficou irritado de ter que parar a história. Fiz sinal para ele que tinha todo o tempo do mundo. Ele atendeu rapidamente o cliente.] E com o dinheiro da indenização e suas economias, disse a mulher que iria vender camarão na feira. 

Então, passou a procurar um box vazio, para comprar ou alugar, e por muitos sábados à frente. Sempre indo com seu filho de 8 anos. Um dia, meses depois, ele achou um à venda, e bem pequenininho, ao lado do vendedor que foi rude com seu filho.
Ele comprou o box, e no outro sábado madrugou no fornecedor de camarão. Comprou todo o estoque que ele tinha trazido. Naquele sábado, só França tinha camarão seco.
Logo pegou um saco deles, e os retalhou em montinhos sobre o balcão. Como os da foto.

E, alguns meninos de rua passavam pelo balcão dele e "roubavam" um pouco de camarão. Ele via, e fingia que não via, e sorria pelo canto dos olhos, sem nada fazer.
Aí, umas seis horas depois, já no final de feira, o concorrente do lado, que não o reconheceu, disse que daquele jeito ele iria quebrar. Pois a molecada e os pedintes estavam comendo tudo que era dele. E que o negócio dele iria falir.
França, então olhou para o concorrente e soltou em voz bem alta um: “Amém!”
O concorrente disse: - como tu diz amém?
França respondeu-lhe: "Se o que disse for de Deus, amém, ele dará em dobro." Se o que disse foi do Diabo, nada como um amém para afugentar uma praga.".
E então, França passou a trabalhar no seu pequeno box de feira, do nascer ao pôr do sol, e muito! E, passou a fazer promoções, orçava os produtos num preço justo, sem usura, e nunca negou um “choro” no peso, e pra mais.

Dois anos depois, comprou o box da esquerda, em 10 prestações e deu ao seu filho de 18 anos pra cuidar,a gora com peixe salgado também. E, sempre deixava nos dois boxs os montinhos de camarão, sem olhar muito para eles, que era para pessoas que queriam "roubar".
França me disse, que eles têm fome, e que sabia o que era fome. Disse ainda que aqueles montinhos de camarões eram um pequeno pedaço do lucro que tinha tido, ou seja, já estavam pagos.
E que era sua forma de agradecer a Deus. Um tempo depois, seu filho tinha agora 13 anos, e chegou no seus boxs, após circular pela feira, dizendo-lhe: : "Pai, por onde eu passo na feira, os meninos de rua me reconhecem e dizem: "Ele é o filho do Sr. Bonzinho""

E o França ficou todo orgulhoso. Um belo dia o vendedor do lado, o que jogou-lhe uma praga, e era tido como rabugento e infeliz, o abordou com proposta de venda do box dele. França juntou todas as economias e comprou. “Raspei o tacho”, comprei o box de meu principal concorrente e dei de presente ao meu filho, agora que fazia 5 anos para ele cuidar, inovando com a venda de peixe fresco, pela primeira vez: tilápia, curimatã, traíra e cioba. E foi um sucesso. E, nos 3 boxes de feira dele, nunca faltou um montinho de camarão, disposto estrategicamente de bobeira, para matar a fome de quem precisa.
Então, contei-lhe que já sabia que eles eram especiais, pois que me sorriram na foto. Aí foi ele quem sorriu, um sorriso de quem faz a coisa certa e deixa seu legado no mundo.

Então, todo orgulhoso, chamou-me para aferir com ele o estoque, freezer a freezer. Senti-me como se adentrasse na tesouraria do Banco do Brasil. Ele mostrava os pintados, jaús, pirarucus que vinham de longe, e que só ele tinha, como se fossem seus tesouros.

Eu, bem emocionado, sabia que o amor tesouro não estava naqueles freezers, mas no coração daquele 
tão simples feirante de feira livre.
Que achou seu jeito de fazer a diferença nesse mundo, tornando-o melhor do que encontrou.
Todos temos esses montinhos de camarão para doar, de nossa própria vida, e que não nos farão falta.
Pode ser tanto em bens materiais, como no valor do nosso trabalho e serviço para os clientes, como em capital emocional que doamos aos outros, na forma de escuta, abraços, apoio e de um ombro amigo.
Seguindo para João Pessoa, percebi que a foto que fiz com ele não prestou, talvez por gordura de peixe na lente.
Mas, o aroma daquela alma perfumada invadiu meu ser, e se galvanizou nas meninas dos olhos de minha alma.
Obrigado França por existir!
Sim, antes que me esqueça:
França, eu também roubei alguns camarões, e estavam uma delícia, mesmo tendo sujado a lente com o que deles ficou em minhas mãos, não resisti, carne é fraca e tem fome de poesia.
Depois te pago França! Fica com Deus, aliás, Deus já está contigo.

Cartas ao JG - Declare seu Amor (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)

Sabe meu filho, desde que aos três anos tu começou a estudar no turno integral esta foi a primeira vez em que almoçamos juntos. Aproveitei a ocasião, para gravar uma declaração tua, para tua irmã, que hoje faz 30 anos. Já que não poderá estar conosco, mais tarde, num encontro às 21hrs que teremos, com ela, seus outros irmãos, meu genro e noras.

E foi um almoço especial.

Primeiro, pela corrida em disparada que tu deu, ao me avistar no teu colégio, resgatando-lhe de teu tradicional bandeijão.

Depois, pelas belas declarações que gravou para tua irmã: 

- Priscila, hoje eu vou comemorar com meu pai o teu aniversário, a gente vai comer fora. Um beijo, tchau!
- Priscila, eu te amo!

Filho, declarações de amor são muito importantes em tua vida. Não as tema. Publique-as, deixe que elas saiam de teu coração, sem medo de parecer bobo. Fale, se expresse, bote pra fora o que sente.

Diga ao outro o que pensa dele, sobre o amor que sente, antes que perca essa oportunidade, nas rodas vivas da vida que podem girar e depois ser tarde demais.

O amor pede palavras que eternizem os gestos. 

Se até Jesus sentiu essa necessidade, quando antevia sua crucificação iminente, ele declarou em alto e bom som aos seus discípulos:

Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.
João 15,15

Veja que declaração bacana de Jesus, ao afirmar que seus apóstolos tinham mudado de fase, indo para além de servos, agora amigos.

Você acha que Ele precisava fazer aquele gesto? Essa declaração?

Digo-lhe, precisava!

Ontem meus alunos compartilharam uma atividade que passei para eles. A atividade consistia em fazer uma Declaração de Gratidão a uma pessoa importante na vida deles, e não só escrevê-la, como proferi-la para a pessoa, via telefone, ou face a face.

E a aula foi estrondosa de depoimentos de amor . Que eles, ao darem, receberam.

"Esposa, eu te agradeço por ser essa mãe tão dedicada ao nosso bebê.".
"Filha, eu te agradeço por ter me tornado mãe, ao te parir"
"Amiga, eu te agradeço por ter aberto seu lar para que nele eu estudasse e fosse alguém na vida".
"Namorada, eu te agradeço por não ter desistido de mim".
"Irmão, eu te agradeço por ter sido meu pai e mãe."

A cada depoimento, a turma se emocionava, e com justa razão.

E, muitos disseram que embora aquilo já fizesse parte da vida deles, eles nunca tinham parado para escrever o que o outro para eles representava, por pensarem que o outro já sabia, e que ao assim fazê-lo, motivados pela tarefa, o outro e eles mesmos, foram agraciados com o dom do amor que se manifestava.

Sua irmã agora tem um áudio com tua declaração de amor. Algo que ela guardará para a vida.  Poderíamos apenas ter almoçado. Mesmo significativo, nosso primeiro almoço, poderia ter sido apenas um almoço, entre pai e filho. 

Mas, a partir de teus áudios, esse almoço marcou declarações tuas: simples, comoventes e verdadeiras, que tornaram os 30 anos da Pri muito mais felizes do que já estão sendo.

Pensamos que o outro já sabe o que sentimos por ele e não nos importamos em para ele atestar, deixar registrado, declarar.

Talvez por medo, de que isso venha a passar e a letra ficar escrita. Digo-lhe, besteira. 

Se expresse, sem temor. Declare seu amor sem querer com isso receber algo em troca. Apenas para atestar para a pessoa amada o quanto ela lhe é importante.

Não deixe ninguém que ama sem registros escritos, gravados, filmados, desenhados ou fotografados de teu amor por ela. E, não vale aqueles emojis do tipo carinha com amor, amor piscando, etc.

Tem que botar a cabeça pra funcionar e declarar o que o outro, aquele tu ama, representa para ti. Faça com tuas próprias palavras, não tema se tem erro de ortografia, ou se pode ser mal compreendido. Nem espere que ele faça para que tu retribua.
Amor não é comércio de afetos.

O mundo vai te ensinar o contrário do que te falo nessa carta. Vai te dizer que as pessoas são más, que não podemos confiar nelas, que não vale a pensa se dar no amor, pois vão nos ferir, que quem se expõe amando deixa o outro confortável, e ele desiste de nós, pois nos tem como garantido, e coisas do tipo. Tudo besteira!

Ame e dê vexame! Ame bobamente, intensamente e sem medo de ser tu mesmo e se expressar para a amada. Só não faça tatuagem com o nome dela, não recomendo. 

Mas, digo-lhe e repito, não perca nenhuma oportunidade, nem que seja num parágrafo, para dizer a quem ama o quanto essa pessoa é importante em teu viver, e o porque disso. E não falo apenas em teus relacionamentos afetivos. Falo em toda forma de amor que valha a pena, e que tu sinta o poder dela em tua vida. 

Eu declaro que fazia muto tempo que não tinha um almoço tão bacana como o que tivemos neste dia. E que, vê-lo correndo em minha direção, fez-me abrir meus braços num oceano azul de imensidão,  para nele te acolher e te amar.  Eu declaro que doravante sempre criarei oportunidades de,pelo menos, semanalmente almoçar contigo.  Te amo.

O amor não crê em impossíveis. (Autor Ricardo de Faria Barros)

No dia do poeta (20/10), recebi esse mimo poético da Cármem Lu:   

"Ricardo, eu te leio em prosa, 
Eu te leio em crônicas, 
Eu te leio falando das rosas.
Eu te leio falando das músicas.
Eu te leio, sobre pessoas, natureza, cultura o mundo.
E emociona. Sempre com algo profundo. 
E fala dos sentimentos, que causam até dor.
Mas, tudo se transforma, quando fala do amor."

Desde então, fiquei matutando sobre o amor. E me lembrei do Açude Velho de Campina Grande-PB. E você deve estar se perguntando, o que tem a ver um açude com o amor? Deixa eu te explicar, mas primeiro vou te contextualizar do açude.  

O Açude Velho foi construído em 1830, para represar as águas do Riacho das Piabas, e servir como fonte de abastecimento da cidade, o que de fato aconteceu e por uns bons cem anos. 

Tempos depois, outros reservatórios foram sendo acionados, com o crescimento da cidade, e o açude foi perdendo sua vocação, sendo colocado de lado na função de gerar vida. Passando então a ser vítima de todo tipo de esgotos clandestinos. E foi morrendo. 

Essa morte era anunciada e anual, sempre com enorme mortandade de peixes, sempre que as águas novas, vindas do período das cheias do Rio das Piabas (abril-junho) misturavam-se com as fétidas e poluídas águas do açude.

E, aquele lugar antes aprazível e de vida, a partir da década de 60 passou a ser visto como lugar de morte e ruim de morar e passear, pelo cheiro de peixe morto que dele exalava, por pelo menos seis meses.

E nos acostumamos aquilo. Àquele cheiro de peixe morto.  E dissemos para nós mesmos, as coisas são assim mesmo.  Esse açude morreu e deveria ser entupido, gritavam alguns.  

Outros, diziam que o culpado era o pobre do Rio das Piabas, pelo seu pequeno curso de água. 

Uns ainda diziam que era impossível tirar os esgotos dele, e que a obra seria muito cara e havia outros investimentos mais necessários.  Políticos brasileiros não gostam aprovar investimentos para  coisas que fiquem embaixo da terra.  

Nunca esqueci as vezes que desviávamos o roteiro, para não ter que passar pela sua margem e respirar aquele gás tóxico.

Na década de 90 começaram trabalhos de retirada dos esgotos, e mesmo assim a mortandade continuava. É que havia muita água podre dentro do açude, e mesmo barrando o fluxo do esgoto, sempre que as raras e poucas águas do Rio das Piabas entravam nele, os peixes morriam, com a diferença de PH que elas causavam. 

Então, passaram a culpar o Rio das Piabas, e suas águas novas, querendo agora matá-lo. quando não sabemos algo, nos defendemos atacando, e sobrou para o rio.

Esse debate acontecia todos os anos, durante a estação dos peixes mortos, até que um cidadão local  questionou essa acusação. Ele dizia, como as águas puras e limpas podem ser acusadas de tal fato?

"O problema não são elas.  O problema é que o açude não está se renovando. A posição em que fica o sangradouro está errada, pois 50% das águas do açude não conseguem acessá-lo, pela geografia do seu leito."  Então ele propôs que fosse feito um outro sangradouro, na jusante do açude, lá nos seus fundos e não no meio dele.

Todos disseram que ele era louco, visionário, que as coisas eram daquele jeito mesmo, e que não havia mais possibilidades, que restava se acostumar com seis meses de fedor, ou retirar os peixes mortos, para diminuir o efeito do gás.

Mas, ele era obstinado e conseguiu aprovar um projeto junto à Prefeitura, e as obras começaram, cavando um canal por debaixo debaixo de importantes avenidas, que sempre que as águas subissem por eles seriam esvaziadas. E, nunca mais morreram peixes, pois o açude se renovou, expulsando as águas impuras, pelo novo canal, e se abastecendo das águas boas que chegavam pelo Riacho das Piabas. 

O local foi urbanizado, com calcadinhas, a parques e grandes edifícios instalaram-se ás suas margens, oferecendo caras e belas opções de moradias para os citadinos. O local virou cartão postal e passou a ser disputado para álbuns de fotos, até de casamentos, por todos que pela cidade passam.

O Amor são as águas novas do Riacho das Piabas. Mas, o amor sozinho é só intenção. Amar é um verbo de ação, que pede comportamentos e atitudes, aqui expressos pelo cidadão que subverteu a ordem reinante, a da natureza das coisas, e desafiou o destino do impossível. 

Quem ama desafia o destino do impossível. E, quem é tocado pelo amor, renova suas águas fétidas, que o sufocavam e matavam um pouco a cada dia, tornando-se nova criatura. 

Mesmo carregando ainda impurezas, esgotos clandestinos, amoitados em porões da alma, eles não mais intoxicam o viver, pois que são periodicamente depurados, processados e jogados para fora, pela força do amor que sentem em seu viver.

Quem se sente amado torna-se açude fecundo, cheio de vida por todo lado, em tudo que toca. E,  quem expressa amor, possibilita que o fluxo da vida atinja sua missão, sua vocação de ser mais e melhor, a cada dia, ao receber suas águas puras e refrescantes.

Mamãe não descansou até que resolvesse o problema que minha calça causaria, caindo pela cintura, e eu ainda tendo que carregar uns pacotes nas mãos. Como faria para dar conta?  Mas, mães sabem expressar amor, não ficam apenas nas intenções. Para elas, não existe o não pode, assim como para aquele cidadão que não se conformou com as coisas como elas são. Mamãe me deixou no saguão do aeroporto de João Pessoa, com meu pai, e saiu em busca de algo pra aperta minhas calças. E achou um cinto feminino, vendido numa lojinha. E me deu. E funcionou, e foi um alívio caminhar pelo imenso aeroporto de Brasília, com 4 pacotes nas mãos, sem parar para erguer as caças. Sabem o nome disso? Amor.

O amor pede gestos para que suas águas fluam.  

E, quem recebe esses gestos de amor não se torna igual. É impossível. Pois é como se eles expulsassem velhas águas, dando espaço para águas renovadas e melhores.

O amor é fluxo, é um verbo de movimento.  Cármem me amou no seu delicado post. 

Amueda me amou ao editar as fotos do aniversário de minha filha e postá-las para mim. Ou, quando comenta com excitada amorosidade, sobre as sementinhas da Ânimo que estão germinando, apesar de tantas dificuldades. 

Deixar fluir o amor é renovar a esperança.  Não era o rio com águas novas que estavam matando o açude.  Era a falta de lugar para sair as velhas.  

Não é a falta de emoções positivas que matam a felicidade, e a falta de um lugar para escoar as negativas. E, esse escoar acontece toda a vez que recebemos ou damos amor. Eles funcionam como um depurador natural das toxinas emocional que vamos acumulando.

Dar ou receber amor ativa o fluxo de vida em nós, empurrando para longe as fétidas águas das mágoas, decepções e tristezas que teimamos em acumular.

Não se renova a vida falando da morte. Renova-se a vida, percebendo a força do amor sobre nós, e nos permitindo continuar esse fluxo, expressando amor, em gestos concretos, e não em meras intenções.

Expressando gestos de cuidado, de gratidão e de admiração pelo outro. Isso sim, renova nossas águas interiores, e, como por mística mágica, as de quem recebe mais ainda.


Somos Sertões (Autor Ricardo de Faria Barros)

O dia começou com a visita do amigo Ari. Ele chegava oriundo de propriedade rural, e trazia consigo um 1/4 de bode, carne de sol e costela de gado para nosso churrasco da noite. Esse é um costume tao legal de nossa gente, quando se junta para festar, de cada um levar uma coisinha pra festa. E, de coisinha em coisinha, faz-se um banquete. Mas, Ari exagerou, ele trouxe uma coisona.
Amigos são assim, excedem nossas expectativas e atendem muito mais do que pedimos em nossas necessidades.
Após o café da manhã, nos despedimos do Ari, e partimos apressadamente para adentrar o pior sertão do Brasil, com a hora ainda a nosso favor. Nosso alvo era chegar no badalado Lajedo de Pai Mateus, um conjunto de formação rochosa, esculpido sobre pedras planas, ou lajedos, que formam uma área de impressionante beleza. Esse ponto turístico fica na cidade de Cabaceiras-PB, cidade que menos chove no Brasil, situada na região do Semi-Árido chamada de Cariris Velhos.
No caminho, passamos pela minha primeira casa. Um lugar de muita esperança, que é sempre bom voltar às origens para vermos o que crescemos e como conseguimos superar tantas dificuldades do início da vida adulta. Eu entrei nela num sábado, dia 5 de janeiro de 1985, o dia em que saí de casa aos 20 anos. Quando entrei no carrossel do destino, grávido do Tiago, de 4 meses.
Demos a volta e entramos na Getúlio Vargas, para que eu relembrasse do colégio em que fiz parte do primário, o de Eneida Agra, hoje demolido. Como fui feliz naquela escola!
Após essas breves paradas, seguimos estrada adentro passando passamos por Queimada-PB, uma cidade que tem como seu portal um conjunto de montanhas rochosas que lhe dão um toque surreal, entre elas uma que intitulei de "Fole de Sanfona", e até imaginei Flávio José tocando nela um bom Luiz.

Era a primeira vez que adentrava nos Sertões, desde que cheguei na minha cidade. Antes, passeei na Zona da Mata e no Brejo, áreas bem úmidas. Agora, estávamos do outro lado da Cordilheira da Borborema. Do lado em as chuvas não chegam, pois são barradas antes.
A cena é de impressionante e trágica beleza. Mata de caatinga, jurema, algarobas, vegetação que de tão seca ficou da cor cinza. Quilômetros e mais quilômetros sem nenhuma expressão de vida, nenhuma. E muitas fazendas abandonadas, em mais de dez anos de seca inclemente.
Mas, o sertão tem seus mistérios, aromas, imensidões e tonalidades, para além do cinza de folhas causticadas pela seca.
Olhando bem para ele, encontram-se flores, árvores que teimam a morte e ainda estão verdes, um ou outro grito de esperança, expressos em pequenos poços que são escavados, metro a metro nos leitos de rios secos, à busca de águas nas profundezas de seu leito. O Sertão é a esperança que o amanhã será melhor e que isso também passa.
Assim como Euclides da Cunha disse, eu também acho que os Sertões não são uma região geográfica, os Sertões somos todos nós, humanidade. Somos essa contradição entre morte e vida. Entre cinza e verde. Entre flores e murchamentos Entre o aparente leito seco de um rio, e as fontes de água de que brotam de seu interior, caso os homens se permitam escavarem-se em si mesmos, na busca pelo auto-crescimento e iluminação interior
Abastecemos em Boqueirão, cidade que ficou conhecida por abrigar um imenso açude, de mesmo nome, que quando era tempos de chuvas, e ele sangrava, a população fazia a festa e a fartura era garantida. Cresci vendo imagens da sangria de Boqueirão, que foram ficando cada vez mais tênues e espaçadas.
Chamou a atenção a qualidade das estradas da Paraíba. O trecho de Boqueirão até Cabaceiras, por exemplo, apesar de curvas sinuosas, é de um asfalto espetacular de bem feito. Todas estradas deveriam ser assim, não é? O problema é que contratam um tipo de asfalto, para um tipo de peso que a estrada foi dimensionada a suportar, e trocam esse asfalto por um que receba menos peso, e bem mais barato, e a diferença é embolsada. Uma pena, mas esse é um dos golpes mais comuns ao Estado Brasileiro. Aprendi isso nos meus três anos de Engenharia Civil.

Voltemos ao passeio, ando vomitando para assuntos de política.

À medida em que entrávamos, Cariris Velhos adentro, a vegetação da Caatinga era mais prevalente. Cactos e mais cactos, alguns bem altos. O sol judiava conosco, e o ar-condicionado do carro de papai sofria para dar conta. De longe, avistamos a placa de Cabaceiras, e ainda era 10hr, ufa!.
A placa anunciava que estávamos entrando na "Roliúde" Nordestina. Cidade na qual foi filmada muitos filmes com cenários dos Sertões, entre eles o Auto da Compadecida. E que tem na festa do Bode Rei uma de suas maiores atrações. Cidade fundada por um De Faria: o Domingos de Faria Castro. Nos sentimos em casa, era tudo parente. rsrs Aliás, no Nordeste para você se sentir em casa não precisa muito. Sente em qualquer mesa de bar e veja o que acontece com a mesa vizinha, que logo interage com a tua, e todo mundo vai sair daquela noite "irmão".

Passeamos pela simpática cidade. com suas ruas e calçadas limpinhas, limpinhas, e casa com fachadas bem cuidadas e pintadas. Um deleite para a vista. Entramos na igreja, fotografamos a praça do coreto, e visitamos o museu do cinema, uma iniciativa digna de louvor, que fortalece a autoestima local, mostrando aos filhos da terra as produções culturais que ali foram realizadas.
Então seguimos em direção ao Lajedo de Pai Mateus, por uma estrada de terra, comendo poeira, e adentrando pela Caatinga uns 10 quilômetros.
Mas, a paisagem que víamos pagava tudo. A sensação era que os Sertões nos engoliam, de tanta força de querer viver que eles possuem.
Ao adentrar na área de um hotel que funciona como o portal do Lajedo, fomos barrados na porteira. Um guarda, com cara de poucos amigos, disse-nos que o Lajedo estava fechado para visitas. E pelos próximos 6 meses.
Que a Globo "comprou os direitos de sua área" para preparar alguma de suas atrações. Como assim?
Quer dizer que quando vão procurar financiamento para aquela área com base no patrimônio turístico do Lajedo o vendem como de acesso público, como patrimônio da humanidade. Mas, quando o vil metal chega na frente, esquecem os projetos de turismo, que franqueiam o acesso ao cidadão comum, e fecham a área?
Pode isso Arnaldo? Que esculhambação é essa entre o público e o privado, herdada desde as Caravelas, no que se chamava de Patrimonialismo. Uma tremenda falta de ética coma coisa pública que a confunde com a privada, e faz-se do Estado uma Casa Grande - e para poucos, deixando a Senzala para os muitos, o povo brasileiro.
De nada adiantou meu protesto silencioso. Descobrimos que o Lajedo é particular aos interesses dos proprietários, e público, quando atende as esses mesmos interesses. Sendo de um ou de outro, por quem oferta a melhor proposta, e que o turista que volte por onde veio, comendo o pó da areia, agora levantada do rastro que deixara.

Pensamos o que fazer, já que o objetivo fora frustrado, e nos lembramos de ir visitar o Açude de Boqueirão, que tinha saído de sua quase morte, ao receber as milagrosas águas do São Francisco.
E foi um programão. Ficamos num restaurante erguido sobre o balde do açude. Dele, de nossa mesa, víamos aquela imensidão de água, as do Velho Chico, que agora fazia uma transfusão de vida para nada menos do que 500.000 pessoas que estavam sofrendo um severo racionamento de água, por 4 dias na semana, os habitantes de minha cidade, Campina Grande-PB. O apocalipse seria agora, em outubro, com o encerramento do bombeamento de água, caso não chegassem as águas da tranposição que entram por Monteiro-PB, e descem pelo leito do Rio Paraíba até ele.
Almoçar ali, comendo aquele peixe e pirão, e olhando para aquele milagre dos Homens, nos acalmou do Lajedo e deu um novo significado ao nosso passeio. Sim, é um programão, ir comer um peixe num dos dois restaurantes que margeiam, na esquerda e na direita a represa (balde) do açude.
Isso também o sertão nos ensina, a nos recuperarmos rapidamente da dor, luto e da decepção, às primeiras chuvas que caem em nossas almas, nascendo em nossa vida babujas (primeira e mais tenra relva após a seca) de esperanças. Somos assim, um povo forte, por sobrevivente que é!
No caminho de volta, papai fala em voz alta, para, para, para, dá meia volta.
Brequei e atendi o pedido, ele queria parar num pequeno estabelecimento comercial, daqueles de beira de estrada, por ter reconhecido um amigo de uns 30 anos atrás.
E não era que era ele mesmo. Que encontro gostoso de testemunhar. Ele era o dono da pequena bodega na qual papai às vezes tomava uma cerveja, voltando todo coberto do pó da estrada, após mais uma missão de educação profissional cumprida. Vou bacana vê-los conversando como velhos amigos, e sobre os tempos antigos em que tudo era tão difícil para ambos.
Chegamos em casa e fomos preparar a laje do quintal para receber meus amigos. A noite seria de celebração pelos meus 5.3 e pelos 6.5 de Ari.
São amigos que construí ao longo de minha carreira no Banco do Brasil, trabalhando e aprendendo muito ao lado deles. Nosso filhos se criaram juntos, nos programas que fazíamos nos feriados prologados unindo quatro famílias: A minha, a de Catão, a de Gouveia e a de Ari. E fui ficando tão apegado a eles que os sinto como parte de minha família, e me sinto também padrinho dos filhos deles, padrinho de amor, daquele tipo que não necessita de papel passado para atestar.

Nós temos nossas histórias repetidas, que sempre que nos encontramos as repetimos mais uma vez, e sempre damos boas gargalhadas com elas, como se fosse a primeira vez que as contássemos.
Uma espécie de doidice. E, naquela noite não foi diferente. Num determinado momento, Catão disse que eu voltei a sorrir. E eu falei pra ele: "amigo, quem não sorri sendo levantado todas as manhãs pelo sopro da brica aracati, e que no anoitecer divide um pôr do sol com o amanhã, e quando anoitece é contemplado pelo toque cheio de ternura e amor de uma borboleta azul, dizendo-lhe: "persevere, a vida é o fruto das escolhas que fazemos, após batemos a poeira com aquilo que ela fez conosco?"

Todos emudeceram, e caíram na gargalhada, Gouveia soltou um: "Num entendi nada, repete".
Eu emendei, escutem a canção de Charles Chaplin, de nome Smile, ela explica melhor, eu já bebi mais de uma lata e nem me lembro das abestagens que eu disse. rsrs
Celina, Guia, mamãe e papai não sabiam onde colocavam tanta alegria e quitutes que prepararam: era fava, arrumadinho, ovos de codorna, era o dos meninos: costela de bode na brasa, carne de sol, queijo,castanha, amendoim, porco e assemelhados, tudo chegando com fartura.
Mamãe e papai fizeram surpresa, compraram um bolo para nós e lá fomos apagar as velinhas.
Quem tem amigos têm bênçãos. Eles são parte constituinte de uma vida plena, para os quais deveremos sempre guardar as melhores palavras e gestos de gratidão e de amor.

Um dia frio e uma boa rota para passear. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Acordei no domingo, na casa de meus pais, mais cansado que sozinho. Mas, era cansaço dos bons, tinha feito uma maratona na madrugada do dia anterior, para acomodar os gerânios que trouxe para mamãe, em duas caixas de papelão. Esses gerânios serão um dos temas das próximas crônicas.

Da cozinha, vinha sons e aromas da Celina preparando o café que madruga lá em casa, são barulhos e cheiros que evocam vida, os da melhor qualidade. Entrei no banheiro e fiz a barba, pensando que ali, naquele WC, era meu antigo quarto, pequeninho e aconchegante. Eu dormia no segundo andar, e meu irmão no térreo do beliche. Quando fui tomar posse no BB em Poções-BA, e por lá passei um ano e meio, 1986-1988, meus pais demoliram a casa antiga e construíram uma nova. Quando finalmente voltei, tive um choque.

Onde estavam minhas memórias de infância e juventude?  

Não tinha restado nada da casa anterior. Acho que vamos guardando pedaços de casa dentro de nossa existência. Com paredes, cheiros, texturas, jardins, cores, recantos e esconderijos, somos casa, somos ethos. O sonho de meus pais, de nos dar um conforto maior, não realizou com nenhum de seus três filhos, pois todos migraram para outros estados e casaram-se. Contudo, realizou-se com meus três filhos, criados com muito amor por eles, e pelos uns bons dez anos. Sonhos são assim, muitos deles não são para gente, são para as pessoas que vem lá na frente, dobrando a esquina do amanhã.

Nos cafés dos domingos os padres são sempre bem-vindos. Eles celebram na igreja do Rosário, aos fundos de minha casa, e a mamãe sempre os acolhe para um café, após a primeira missa do domingo. Nesse dia foi o Pe. Isaías, uma simpatia de amorosidade, em forma de padre. Como dizemos por aqui, um “padre que consegue evangelizar os jovens”.

Após o suculento café da manhã, escutei a voz de Sebastião. Sebastião é um daqueles ícones do jardim da mamãe. Há pelo menos 20 anos ele faz o jardim lá de casa, e tem um jeito e paciência de Jó - com as plantas e mamãe. rsrs. Nunca vi Sebastião sério, chateado ou falando mal da vida. Ele sempre está sorrindo, transmitindo paz e gosta muito de se relacionar conosco.

Entramos no carro, fizemos a chamada dos passageiros do passeio e seguimos para conhecer a Rota do Frio, ou da Cachaça, como queiram, acessando-a por Alagoa Grande, e fazendo o que chamamos de Anel do Brejo. Brejo é uma região muito fértil, rica, chuvosa e com um ecossistema único no Brasil. No caminho, árvores enormes, muitas curvas, engenhos ainda em funcionamento, e cidades bem antigas, com mais de 200 anos.

Uma rota para enamorados de tanto charme que dela sai. Paramos em Alagoa Grande e conheci a sua lagoa, que emoldura e dá nome à cidade. De fato, é bem grande pra nós da PB, gente de pouca águas.

Papai ia narrando os lugares, em Alagoa Grande, que já tinha alugado para fornecer cursos técnicos do Senai, uma de suas atribuições como Diretor das Unidades Móveis do Senai, coisa que ele criou a partir de uma experiência que viu no México, em 1970. Nessa experiência, os cursos técnicos eram acomodados em grandes caminhões que migravam por aquele país. Quando ele chegou ao Brasil, junto com outros inovadores do Senai, montaram a estrutura de atendimento móvel, seja em lugares alugados, seja em enormes carretas.

Isso democratizou o acesso a eles, criando oportunidades de profissionalização para povos distantes dos grandes centros urbanos. Tenho muito orgulho de meu pai por ter possibilitado isso a tantas pessoas, viajando por mais de 35 anos pelos rincões da PB. Com água ou sem água, com asfalto ou sem asfalto, com luz, ou lampião, não importava, se tinha um galpão disponível, poderia ter educação profissional, nem que fosse à bateria. E ali, ele e seus instrutores, aportavam para oportunizar esperanças de pessoas se formarem em tornearia, mecânica de automóveis e bicicletas, marcenaria, eletricidade, calçados, hidráulica, panificação, entre outros cursos.

Em Alagoa Grande-PB, chamou a atenção o casario histórico e bem conservado, e seu Teatro Santa Ignez, de 1905, e muito conservado, em suas estruturas de madeira e nichos internos. Um espetáculo de teatro. No caminho para Areia-PB, subindo um dos conjuntos das Serras da Borborema, talvez a mais alta, paramos para fotografar uma bela árvore florida, de beira de estrada.

Perguntei-me quantos já não a olham mais com o nosso assombro. Vistas pelos olhos opacos da indiferença, fruto da rotina de todas as coisas, que vai nos cegando à beleza do cotidiano, aquela que está sempre à mão e por perto, e deixa de ser admirada e reconhecida, por “você me ter fácil demais”... como diz a canção.

Na sua copa florida de rosa, muitas abelhas, beija-flores, borboletas azuis e encantadas, e pássaros faziam a festa. Uma brisa aracati soprava suas pétalas, que caiam no chão como que formassem uma cortina de Deus.

Refeitos de tanta beleza, seguimos subindo a serra. O clima ia ficando frio, para nossos padrões, agora uns 18 graus. E o ar era tão gostoso de respirar, tal qual quem bebe em água de fonte limpa.

Paramos para almoçar no restaurante rural A Bagaceira, em homenagem ao José Lins do Rego, nascido na região.

Esse restaurante por si só já é uma poesia de lugar. A paz e charme estavam ali, e em cada recanto. Comida deliciosa, decoração rústica, preço justo, atendimento impecável, e muitas mudas de flores para mamãe, gentilmente doadas pelo proprietário. Além de uma varanda preguiçosa, com redes e cadeiras de balanço, convidando-nos ao contemplar.

Em Areia-PB ficamos impressionados com a quantidade de casas de arquitetura em ar-decor, rococó e barroco, todas belíssimas. Areia é a joia do brejo, cidade multicultural, cheia de vida, boa gastronomia, com mostra de cinema e teatro nos seus impagáveis festivais de inverno, e com excelentes e premiadas cachaças. Além de ser o berço do Campus de Agronomia, da UFPB, que sempre recebe um monte de estudantes, a cada semestre, o que lhe dar mais vida ainda. Cidade com praça, coreto e matriz, com gente conversando nas calçadas, sentados nas cadeiras, e muita história, a cada esquina.

Ali entrei pela primeira vez numa senzala, com 190 anos, e vi a que ponto a atrocidade humana chegou, no comércio de escravos. Uma pena que esse aspecto não é enfatizado na visita guiada, que reforça mais a conservação histórica e a beleza da casa, com seus telhados em eira, beira, tribeira e quadribeira, sinal de opulência e muita riqueza de quem ali morava, os Rufino. Para mim, eu estava entrando nos porões fétidos da humanidade. Eu podia até sentir as vozes e choro de escravos que ali ficavam amontoados, em oito quartos, verdadeiros cubículos de 3 metros quadrados, sem janelas, esperando que os comprassem, que os viam ao circularem livres por uma espécie de praça, para a qual todos os cubículos abriam sua portinhola.

Fomos nos refazer de tanta energia ruim, visitando o museu de Pedro Américo, cidadão ilustre de Areia, e pintor renomado. Quando nos faltar a esperança na humanidade, vendo do que somos capazes, nada melhor do que mergulhar nas artes para restaurar a crença nessa mesma humanidade, grávida de contradições de si mesma.

Voltamos para casa passando por mais cidades do Brejo, fechando o anel rodoviário que fizemos. No caminho, entramos em Remígio, onde trabalhei no BB e por cinco anos ali fui caixa, e muito feliz. E Esperança-PB, local que no seu hospital público fiz meus primeiros atendimentos como psicólogo, parte do projeto de extensão e integração Universidade e Comunidade. Guardo boas memórias daquele povo tão sofrido que pude atender, dos quais as mulheres mais idosas relatavam muito sofrimento por não terem notícias de parentes, filhos e até maridos, que migraram para SP em busca de melhores condições de vida. Chegamos em casa, pelas 16hrs, após um percurso tão bacana. Senti ao adentrar o jardim uma brisa aracati soprando sobre minhas faces. Notei que da jardineira pendia um cacho de um gerânio vermelho que trouxera, Nele uma borboleta fazia a festa, e era azul. E o dia terminou com chave de outro, agora brindando ao amor!

Crônicas Anteriores