Um Portal do Bem-Estar Chamado Paul. (Ricardo de Faria Barros)


Adalfran tem um cavalo que se chama Paul.  Paul mora de aluguel, num rancho na área rural de
Sobradinho-DF, a 8 km de onde Fran trabalha e mora.
O pangaré custa por mês 1/4 do salário de Adalfran, recebido como zelador do prédio.
Todos os domingos ele visita Paul e ambos passeiam pelos prados, montanhas e até pelas áreas urbanas de Sobradinho-DF.
Quando Adalfran monta no seu Paul, ele deixa de ser um zelador-histórico, daqueles que viram patrimônio imaterial dos prédios em que trabalham, no caso dele, desde 1999. Ele vira um garboso cavaleiro, e segue valente desafiando o carrossel do destino de seu viver.
Quando ele fala do Paul seus olhos faíscam de felicidade, e sua expressão é de ternura.
Um dia vou dar uma volta no Paul, ele já me chamou, e não vou perder essa chance. Embora não saiba cavalgar.

Adalfran não tem vida mole. Ele é o único zelador de um prédio com 4 torres, de três andares, e 48 apartamentos. Ele trabalha muito, e está sempre de bom humor, uma de suas marcas Ele sempre tem uns segundos de atenção para cumprimentar quem por ele passa.
Seja com um bom dia caloroso, ou com alguma pergunta sobre algo da vida dos "seus" moradores.
Logo depois ele volta à vassoura, ao rodo, mangueira e tudo mais que usa no seu trabalho de varrer, limpar, recolher lixo indevidamente colocado e molhar as plantas.

E ainda ajuda os moradores com dificuldade de locomoção a subirem com suas compras, ou harmoniza brigas dos mais intolerantes uns com os outros, por erros de estacionamento.
Sem falar que é uma mão na roda para guiar os visitantes perdidos, sem saberem qual a torre correta de seus amigos.

É meus amigos!, Adalfran é um daqueles profissionais que faz de seu trabalho serviço e que desaprendeu a resmungar e a passar o dia inteiro procurando razões para ser infeliz nele.
E isso torna-se perceptível na forma pela qual nos trata e na qualidade do trabalho que produz.
Adalfran é uma daquelas pessoas que ocupam o espaço com sua presença, e tornam melhor a vida de quem por elas passam.

Uma marca de sua presença é o assobio. Eu sei que ele está por perto pelo seu assobio. O assobio do Fran é uma de minhas companhias prediletas, quando tenho contrações literárias, em partos de textos, produzidos nos silêncios das manhãs, como este que escrevo.

Ontem, quando fui deixar o lixo lá fora, deparei-me com ele limpando a sela de Paul. Uma sela toda estilosa que trouxera da Paraíba. Ele a limpava com tanto esmero, quase em estado de Flow(*), que nem me viu chegando perto.
E eu pude contemplar a cena de longe, degustando-a em sua completude e boniteza. Depois, dirigi-me à ele devagarinho, curtindo mais um pouco aquele momento de profunda entrega.
Ele alisava os pelos da sela, e com olhos de lince procurava sujeiras entranhadas na parte debaixo da sela, aquela que faz contato com o Paul. Como que não querendo que nada o machucasse, além do fato de morar num estábulo. Disso ele entende, de estar  como que preso num estábulo na vida, sem maiores oportunidades para a ascensão social.  Mas, nunca o vi reclamar de sua saga. Fran não é de reclamar das ondas da vida, ele aprendeu a surfá-las, com o melhor que tem e como pode.

Sempre que quero me sentir melhor pergunto ao Adalfran sobre o Paul. Aí, quando ele começa a falar de seu cavalo eu, por osmose, recebo uma lufada de emoções positivas. E, quando saio de sua presença, sinto-me de mente arejada novamente.
Paul é terapêutico. rsrs
Paul significa para Adalfran um portal por onde ele acessa o desejo.  Por ali, ele atravessa a si mesmo e transforma-se em nova criatura, agora não mais refém do personagem que vive, a maior parte do tempo, em sua sina tão pobre e dura.

Precisamos de nossos Pauls. Precisamos de portais de esperança. Precisamos ter um cantinho de visitar nossos desejos, para que periodicamente renovemos e restauremos a coragem, ou ousadia, de existir.  
Imagino a felicidade dele quando vai se aproximando a hora de encerrar o expediente no sábado e poderá ir ver o Paul.
Imagino as vezes em que ele teve que renunciar a outros gastos, para não faltar o pagamento das despesas do Paul.
Imagino eles conversando sobre a vida e o viver, quando ambos tomam o vento da liberdade nas suas faces de apenados do destino.
Imagino a expressão deles, a troca de carinho, de afetos mil, ao terem que se despedir, no final de um domingo de muita amorosidade.

Quem já se despediu de quem gosta, ou tem saudade de amor distante, sabe do que falo.

Paul é um Portal de Vida para Adalfran.  E na vida, precisamos de portais do tipo Paul.
Precisamos de portais que nos remetam a algo para desejar, algo para amar, algo para esperar, algo para cuidar e algo para admirar.  Aqueles que nos projetam para além de nossas vidas severinas.
Daqueles, que ao nele ingressarmos, ficamos reluzentes, transformados e novas criaturas somos.
Escuto o Adalfran assobiando novamente. O assobio dele é um de meus portais.
Acho que ele solfeja o tema de Cinema Paradiso, ou será que agora sou eu quem entra em Flow ao evocar a amorosidade que essa canção me remete?
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(*) FLOW - O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, em seu livro sobre o Flow, o define como:  “um estado mental onde o corpo e a mente fluem em perfeita harmonia, é um estado de excelência caracterizado por alta motivação, alta concentração, alta energia e alto desempenho, por isso também chamado de experiência máxima ou experiência ótima. As experiências de FLOW muitas vezes são lembradas como os momentos mais felizes da vida da pessoa, os momentos onde ela se sentiu no seu melhor. Geralmente a pessoa entra no Estado de Fluxo (Flow) quando ela está fazendo aquilo que ela mais gosta de fazer. Pessoas entram em fluxo dançando, cantando, correndo, praticando esportes, desenhando, pintando, escrevendo, meditando e até trabalhando. Naquele momento, você não pensa em mais nada, não pensa nos problemas que ocorreram antes, nem no que terá de fazer depois, fica inteiramente focado no presente – no aqui e no agora.

Cartas ao JG - O Presente do Naruto (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)

Aguardava tua saída do colégio, ruminando pequenos aborrecimentos. Acabara de ter uma discussão feia com o porteiro do teu colégio. Não gosto de sentir que perdi o controle emocional. Te esperando, ainda com raiva de minha atitude e da dele, fui espiar teu sanduíche que compro nos dias que tem o Kumon, após as aulas. E ele veio errado. Mais ruminação negativa. No mundo digital, eu ainda processava algumas chateações acontecidas pela manhã, coisas da vida virtual. Então, era uma espera num clima de baixa umidade emocional. Quase sufocante. E, vez por outra, meu homem ruim me dizia para eu ir lá fora, dar uns murros no porteiro, e depois corresse. rsrs.

Até que você apareceu segurando o boneco Naruto que recentemente te dei de presente. Estava todo feliz, até perceber que perdeu a cabeça do Naruto.  Logo saímos à caça da cabeça e achamos a mesma largada no chão. Você ficou tão feliz, como se o Naruto voltasse á vida.

O teu melhor amigo e o pai dele, o Pedro, passaram por nós quando nos dirigíamos ao estacionamento.

Aí, tu me contou que hoje era aniversário dele. E com olhinhos tão doces me perguntou se poderia dar o Naruto de presente ao Pedro.

Eu disse que sim.

Você correu e o presenteou.  Pedro ficou sem palavas, acho que ele desejava muto aquele boneco, e te abraçou.  Eu e o pai dele, nos cumprimentamos efusivamente, celebrando a grandeza de teu gesto.

Aí entramos em nosso carro e nos dirigimos para o Kumon.  No caminho, disse-lhe que teu gesto foi muito bonito, mas que não pode dar todos os presentes que recebe, pois eles carregam uma carga afetiva, e aquele tinha sido eu quem te deu.

Vocês escutou com atenção e perguntou o que é a "quequeca" que o Pedro tem na cabeça.

Eu não entendi a pergunta e pedi que explicasse como eram os sintomas. Aí você me contou que ele sente um pino entrando na cabeça, tem dor e que na hora que cantaram parabéns para ele ele chorou, pois estava doendo muito.   Ahh, enxaqueca. O Pedro tem enxaqueca, disse-lhe. E você perguntou-me se passa, se cura, disse-lhe que sim. Aí fez cara de aliviado.

Falei que o Naruto ia ajudar o Pedro a desviar o foco da dor de cabeça, ao abraçar o amor que nele estava contido, pelo altruísmo do gesto. Expliquei com outas palavras o termo altruísmo, de dificil compreensao.

"JG, altruísmo é quando você doa seu lanche, ao saber que um amiguinho está sem tomar café da manhã, pois a mãe dele foi hospitalizada pela madrugada e o pai esqueceu de colocar a lancheira na mochila, pelo nervoso da situação."

"JG, altruísmo é doar o Naruto querido, presenteado pelo pai, a um amiguinho dele desejante, que sofre com uma dor de cabeça inclemente."

 Sabe filho, esse teu gesto deverá continuar presente em teu viver.  Não esqueça de doar teus Narutos a quem deles mais precisar.  São apenas coisas materiais, mas o amor que irá neles, pode transformar vidas, de quem os receberá, de quem os doará.

Outro dia fui palestrar num evento de reflexão para a aposentadoria.  Vi uns livros num pacote, e associei que seriam usados na próxima palestra, que era a de um amigo meu, o Gustavo Boog.

Olhei a capa do livro e o tema era: É urgente ser feliz. Lembrei-me que na minha palestra tem um slide que divulgo boas obras para a fase da vida da pós-carreira. Então, peguei o celular, fiz uma foto do livro, enviei para meu gmail, baixei no computador, e a inseri na minha apresentação. Tudo aos 30min do meu início, coisa que não se deve fazer, até para não se perder a cocnentração. Mandei os riscos às favas. Comecei a palestra e vi que o Boog chegara, e sentara nos fundos da sala. Veio prestigiar-me, e fiquei feliz.

No meio da palestra, mostrei o slide com os livros que sugeria, inclusive o dele. E fiz o reconhecimento ao seu trabalho a terceira idade e sobre a envelhescência.

Voltando para Brasília, vi que o livro que fotografei não era do Boog, era do Beto, o palestrante do outro dia, a foto dele era muito parecida no livro.

Altruísmo foi o Boog perceber meu erro e não intervir.  Altruísmo foi a intenção de divulgar a obra de um amigo, num mercado editorial tão carente de público consumidor.

Então, amado filho, continue assim. Hoje você emocionou-me profundamente. Até em não responder ao meu discreto puxão de orelha, de doar tudo que tem de valioso, ao colocar o contexto da doação, o Pedro estava com "quequeca".

Nessa sociedade, dita pós-moderna, cultivar espaços de doação generosa de si mesmo ao outro, a uma causa ou à própria transformação interior, em busca de uma maior iluminação, é vital para a sobrevivência da coletividade.

Precisamos aprender a doar nossos melhores e mais raros Narutos.  Doar tempo, doar afeto, doar encotnros, doar perdão, doar abraços, doar recomeços.

Por falar em recomeço, quarta vou pedir desculpas ao porteiro. Estávamos, os dois, de cabeça quente. E não é fácil a lida dele, naquela área de alta segurança. Um pedido de perdão, de forma sincera, pode ser também um gesto altruísta.

Sei que muitos te dirão para deixar de ser besta, bonzinho, afetuoso e solidário. Digo-lhe, não os escute.

Siga pelo bom caminho, mesmo se todos ao teu lado embrutecerem o coração, continue manso e atencioso para com a vida. Não se perca de seus melhores valores.

Ao conservá-los, pelos menos eles não terão conseguido te mudar.  

Ser + gente na vida não é uma questão de só dar o que se recebe.  É uma escolha incondicional.

Sem colocá-la como barganha, como comércio, por mais justo que pareça ser.

Na tua juventude e vida adulta, e até velhice, guarde esse menino que doou o seu melhor boneco, aquele da hora, para um amigo que sofria de dor de cabeça no dia do aniversario dele.

Não mate essa criança em você. Será ela que em ti fará rebrotar a vida, após aperreios pelos quais passará.

Pois, quando nos doamos ao outro, nossa vida não tem como permanecer igual ao que era antes do gesto, ela torna-se melhor e mais feliz!

E quem presencia estes gestos também fica feliz, por osmose, e acaba se vai nele toda a baixa umidade emocional, como se o amor do gesto que ele testemunhou, o preenchesse por osmose e inteiro, eliminando dele toda raiz de amargura e secura de seu coração,  dando-lhe paz e renovada esperança de ser.

Ps. São 18h06min de 18/09/2017, o porteiro Adalfran toca a campainha e condia-me para descer, até o térreo no apartamento dele, para tomar chá, de capim santo e cidreira, e ainda convida-me para de lá ir caminhar com ele.  "Pois somos sobreviventes e temos que nos cuidar". Diz, referindo-se às complicações cardíacas pelas quais passamos. São ou não são gestos altruístas?  Disse-lhe que amanhã caminho, pois hoje escrevo para ti.

Não se preocupe, Tiago teu irmão já comprou o outro boneco no Naruto, ele me disse ontem. É aquele de nome esquisito que tu nos pediu no último sábado. E, caso cena semelhante aconteça, pode doá-lo também, caso teu coração fale mais alto.

Ps. 2. Como demorei a descer, ainda parindo esse texto, ele subiu e trouxe uma garrafinha de chá, a foto documenta esse instante. Percebe filho meu? A força de um coração que se doa?  Ele sobe escadas, se preciso for, só para ver o bem estar de quem receberá dele, mais do que um chá, ou um Naruto, o gesto de amor.   Sim, o chá estava ótimo.

Sobre um cinto, um joinha e um calção de banho.

Era uma quarta atípica, bem diferente de tudo que vivera como palestrante, até então. Pela manhã, conduziria palestra no II Fórum Trilhas de Aprendizagem, à tarde Oficina, no mesmo Fórum. E, na boca da noite, embarcaria para Foz do Iguaçu para no outro dia às 10hrs ministrar palestra no evento da Itaipu, de reflexão para aposentadoria.

Ou seja, em menos de 24hrs viveria a experiência de atuar em três eventos pedagógicos, o que até então foi a primeira vez em em minha carreira.

Terminando o segundo deles, a Oficina, a ansiedade já estava a mil.  Despedi-me apressadamente de todos, e saí as 17hrs em direção ao aeroporto. Já de saída, erro o cainho e pego o pior acesso, que já tinha um trânsito pesado. Aqui em Brasília-DF não está fácil pra ninguém, e nem para ir a nenhum lugar.  Quando a fila travou de vez, na altura das imediações do Zoológico, aproveitei para checar o papel do check-in. Eu sou dos que imprimo meu check-in, faz parte de minhas esquisitices, temo algo ocorrer com o celular, e o pessoal não me deixar entrar no vôo.

Aí, vi que o meu embarque começaria, de fato, às 18h10. Eu tinha lido errado o papel. E já era 17h30.
Suei um balde de água, desejando que o carro tivesse hélices. Mas, logo a fila andou e consegui estacionar a tempo, uns 15 minutos antes. O que para meus padrões é um tremendo atraso.
E corri. Aí percebi que a calça estava folgada para correr. Numa mão, segurava o porta-terno e terno.
Na outra, segurava a calça. À tiracolo direito a pasta executiva, no esquerdo a câmera que balançava muito. A cena era dantesca de feia.  Ao passar no raio-x a moça cismou que eu estava apitando.

Pensei comigo, se for o cinto estou ferrado, agora é que a calça cai mesmo.

Mas, eram as fivelas do sapato. Entrei no Aeroporto de Brasília e fui brindado com o embarque no último portão do lado direito, uma légua de distancia. E tome correria, agora a calça caindo mais ainda, pois perdi peso do estacionamento até ali. rsrs

Na tela, vôo confirmado. Mas, o tempo vai passando e nada de nos chamarem. Foi bom para eu descansar, contudo confesso-lhes que já estava cansando novamente, agora de nervoso. De repente, o serviço de som chama os passageiros de meu vôo que fariam conexão em SP para Montevidéu. E, umas 12 pessoas se apresentaram, e dali saíram arrasadas. Perderam a conexão, não daria mais tempo. Agora no outro dia. Ao meu lado, uma gringa perguntou-me, num português precário, se o de Frankfurt estava ok.

Fui ajudá-la, lá no balcão, e disseram-me que até o momento sim. Mas, que dependeria do nosso vôo chegar no DF. Aproveitei e perguntei de minha conexão para Foz, às 22h45min em SP. A mocinha disse, "essa está tranquila".

Voltei para meu local, e nem tinha terminado de tranquilizar a gringa, com um gesto de joinha, quando chamaram ao balcão os passageiros para Frankfurt, o embarque deles ficaria para o dia seguinte. A gringa olhou pra mim sem entender nada, como é que "joinha" significa aquilo no Brasil? Ela deve ter pensado, ao me fustigar com o olhar. Eu tentei dizer que entre o meu acesso ao balcão, e o retorno com a boa notícia, as coisas mudaram. Mas, não consegui. Ela vai levar uma impressão que o "joinha" em Brasília é igual a "se ferrou"!

Uma hora e dez de atraso do embarque começaram a nos chamar. Eu vibrei, não perderia a palestra.
Esperamos uns 10min, no acesso remoto, o ônibus chegar. Quando chegou, todos ficaram aliviados. Mas, num era hora de aliviar-se. Acreditam que ficamos dentro do ônibus, no meio da pista, ao lado de uns aviões, por uns outros 20 minutos? O que estava acontecendo. A essa altura, eu que estava me segurando naquelas barras e em pé, não sabia se deixava a calça cair, se segurava a barra ou  se chorava.

Quando finalmente o ônibus andou, e ao adentrar no avião, o chefe da equipe de comissários pediu desculpas e falou que o vôo foi liberado por engano, pois que a tripulação que chegou com ele, vindo de outro estado, não tinha mais horas de voos permitidas, e tiveram que abandonar a aeronave.
Ou seja, no meio do caminho cancelaram o vôo. Mas, o desgaste seria tão grande que conseguiram acionar a única equipe de tripulação reserva disponível, por isso o ônibus ficou parado. Não havia tripulação dentro do avião para nos receber.

Sentado, finalmente e sem precisar mais segurar as calças, o serviço de auto-falante do avião vai chamando, pausadamente, e por onde alfabética, umas 6 pessoas.  Chegando perto da letra R, eu estava com muito medo, achando que agora seria minha vez de me retirarem do vôo, por não conseguir tempo hábil para conexão em SP. Mas, não  foi. Ufa. Eu ainda estava no jogo.

Pelas minhas contas eu tinha 15 minutos de atraso. Daria tempo.

Mas, nunca pensei que o Aeroporto de Guarulhos ficasse tão grande, após a reforma.  Desembarquei no Terminal 2,  e corri feito uma barata tonta para o Terminal 3. Umas duas léguas de distância e fazendo sucesso com as calças. Chegando nele, olhei pela TV e vi que o meu vôo ficava num outro portão, no Terminal 1. Agora seriam 4 léguas, e corri, corri!!!!
Cheguei com os bofes de fora, e eu era um dos últimos a embarcar. Sentei no avião e quando ele decolou, em direção a Foz, eu percebi que havia mais um buraco disponível no cinto. Um que eu fiz com uma faca, noutra ocasião. E que eu não aproveitei aquele buraco, para arrochar as calças, pelo excesso de ansiedade e correria.
Eu não parei para avaliar melhor a situação. Assumi que as calças caiam, e pronto. Não me permiti questionar a mim mesmo, se era por ter perdido peso, ou se era por não ter usado o buraco correto para afivelar o cinto. Posso até ter perdido peso, mas enquanto tiver um buraco no cinto, ainda dá para ajustar as calças.

Cheguei pelas 1h30 da madrugada e acordei cedinho, 6h30 e fui explorar o local. Aí vi uma cena linda. O sol nascendo por cima de uma palmeiras que emolduram um estonteante complexo de piscinas, conectadas entre si. Um local de se ficar meses, pensei. Perguntei a um hóspede que nela estava se a água era quentinha. Ele disse: "deliciosa".

Aí pensei comigo, é tudo que preciso, depois dessa intoxicação de cortisol e adrenalina que o estresse me causou.

Apressei o passo para o quarto, e lembrei-me que não tinha levado calção de banho. E perdi a oportunidade, dado que após a palestra voltaria imediatamente para o DF, no vôo das 14hrs.

Comentando com palestrante amigo, que já estava no local para sua palestra da tarde, ele me disse.
" É Ricardo, comigo ontem aconteceu a mesma coisa. Mas, como cheguei mais cedo, eu fui comprar um calção e passei a noite tomando banho nas piscinas e relaxando."

Essa crônica carrega três lições para a vida. A primeira é sobre nossas crenças limitantes e o seu poder sobre nosso comportamento.

A primeira delas é que um polegar para cima, "um joinha", pode ser fruto de uma avaliação de momento, que em minutos poderá alterar.  Então, não ache que o "joinha" que a vida está dando para você e para os que ama será eterno. Em algum lugar uma conexão para um vôo pode ser cancelada, e sua vida entrar numa roda viva. Então, na dúvida de quando o sinal de joinha mudará de posição, ame aos borbotões. Perdoe em igual intensidade. Nunca deixe a presença de alguém que ama sem um "eu te amo".  Se dedique aos seus, enquanto estão por aqui, e entre você e eles há uma conexão possível, no mundo dos que têm carne, além de alma. Quantas coisas não aproveitamo e não damos o devido valor, por acreditarmos que elas estão sempre ali, favoráveis, e nunca mudarão. E vamos olhando a vida com olhos de indiferença, sem mais nos jogar nela. Sem mais ousar mover o tempo da conexão ao nosso favor, alterando as rodas do destino, que só quem ama sabe como fazer.

A segunda delas, não menos perigosa, é se acomodar com o que nos limita, nos oprime, nos faz infelizes, sem olhar para aquilo de outras prumadas e perspectivas, sem colocar aquilo em referência. Eu acreditava que o problema da calça folgada era sem solução. E, a realidade assim se fez para mim. Em nenhum momento eu me permiti à possibilidade de avaliar o cinto, procurando ver se o problema não seria nele. E agi feito um maluco beleza, correndo com cuecas à mostra em movimentados aeroportos do Brasil.  A minha crença era limitante. Era uma crença de que se a calça está caindo, se o cinto está nela, é porque estou mais magro, ou a calça ficou frouxa. Adoramos fazer isso com os outros também. Colocamos eles dentro de nosso esquema mental. Sem perguntar a eles o que eles acham, o que fariam. Achamos que não precisa, pois nossa verdade é sagrada, e sabemos "como ele é".  Quantas pseudo-verdades vamos tecendo na colcha de nosso viver que mais parecem cordas, a nos sufocar, nos amarrar e prender a elas. Coisas que vamos dizendo de nos mesmos. "Ah, nunca mais vou amar ninguém.". Ah, não sei falar em público".  "Ah, se eu passar uns meses longe de meu namorado, ele arranjará outra e me esquecerá. A fila anda, eu até o entenderei".  "Ah, não dou certo em emprego algum...".  Essas crenças, e muitas desse estilo, são como a calça folgada. Elas inviabilizam outras alternativas de decisão, de pensamento, de comportamento e transformação. Elas tiram o foco de outras possibilidades, pois fazem de tudo para que a realidade diga-lhes que tem razão.  Será que nunca falará em público mesmo?  Será que não dá certo em emprego algum?  São pensamentos fechados em si mesmo. Para os quais não há movimento de superação. São quase que resignações emocionais, eivadas de conformismo.  

A terceira delas é que na bagagem da jornada de nossa vida precisamos levar calção de banho.
Pois, nunca saberemos quando após uma maratona estressante, teremos uma plácida e quentinha piscina nos chamando para seu interior. Calções de banho significam estarmos prontos para pegar as oportunidades quando elas atravessarem bem à nossa frente.  Para fazer com nosso  braço o destino, como fez o Gustavo Boog, ao ir compra seu calção. Reclamamos de sedentarismo, mas não caminhamos nada.   Reclamamos que o processo seletivo está exigindo muita coisa, mas não aproveitamos o tempo anterior a ele para nos capacitar, pegar experiência, e assumir atitudes como se no cargo já estivéssemos.Entendem? E ficamos reclamando que a vida não nos dá oportunidades, e coisa e tal. Sua mãe está doente, noutro estado, você tem tempo e  recursos para visitá-la, mas vai adiando, adiando, até um dia em que lhe faltar o calção de banho... Entendeu a metáfora? Na manhã que contemplei o amanhecer, e me vi sem roupa para piscina, abri a caixa de email e minha afilhada, a Catarina Catão, contou-me que fez um curso com a editora da revista Vida Simples, a Ana Holanda. Eu amo essa revista e tenho vários números delas. Me vejo em vários de seus textos. Catarina me incentivou a escrever para a editora, apresentando meu trabalho. Parem a leitura nessa parte. Até esse momento, eu não mexi um centímetro nas rodas do destino. Não comprei o calção de banho para aproveitar essa piscina. Mas, ao retornar pra Brasília, fiz um email para essa editora, apresentando meu trabalho. Pronto, agora eu tenho um calção de banho. Agora rodei as rodas do destino. Pode dar certo, não dar certo. Mas, dei prosseguimento à bênção. Lancei uma sementinha no infinito de meu viver. Veremos em que solo cairá. Quantas coisas conosco são assim. Perdemos a oportunidade de participar delas, por comodismo, omissão, indiferença, ou por achar que se repetirão. E a vida vai se empobrecendo, pois que em nosso jardim interior não há mais sementes, promessas de esperança, de um novo amanhecer em nossas vidas. Se eu não tivesse mandado o email, não teria lançado a semente, não teria comprado o calção de banho, entendem?  Têm milagres que pedem nossa ação concreta, para sermos co-autores da graça. Voltando ao exemplo da mãe doente. Se você planejar a ida e nada fazer. Não será semente. Mas, se adquirir as passagens, acaba de comprar um calção de banho, ou biquíni, habilitador dessa possibilidade. Acaba de rodar o carrossel do destino, entrando nele com coragem e determinação, deixando de ser expectador de seu viver. Ou de ficar apenas colecionando justificativas, para o não fazer. No lugar de oferecer respostas, para o que poderá a vir a ser.

Na vida, abra todos os seus sombreiros. (Por Ricardo de Faria Barros)


Cheguei para almoçar naquele estabelecimento num dia especialmente lindo no Distrito Federal, nesse período do ano, e já com 100 dias sem uma gota de chuva, o céu de Brasília fica de um azul de tirar o fôlego.
No estabelecimento tinha de tudo que gosto: buchada bobó de camarão, bacalhau e tilápia.
Sem pudor, juntei tudo num único prato e perguntei à moça se eu podia almoçar na área externa, para aproveitar o clima de domingo na praia.
Ela acenou positivamente com a cabeça.
O garçom logo me acorreu, abriu o sombreiro e pedi-lhe um chope, que estava delicioso.
A comida descia como luva, e eu dizia para mim mesmo, "um dia e descoberta desse restaurante muito bom."
Aí notei uma coisa, todos os sombreiros ficam fechados. O garçom só abre quando algum cliente opta pelo ar-livre, no lugar do claustrofóbico e incensado salão, com fumaça da churrasqueira.
Os carros que passam pela rua, por não verem os sombreiros abertos, até acham que o estabelecimento está fechado.
Pensei comigo, assim são com as oportunidades que aparecem na vida. Quantas delas pegaram nossos sombreiros fechados?
Por isso que na dúvida, recomendo, abra todos os seus sombreiros.
Pois eles atrairão coisas boas. As pessoas verão que há sombra em ti, e vão querer sentar próximo.
Nosso sombreiros são tudo aquilo que agrega valor pessoal ou profissional ao nosso ser.
São nossos talentos, dons, valores, e competências: atitudes, habilidades e conhecimentos.
Temos que deixá-los abertos para que possamos melhor aproveitar as oportunidades da vida.
Aquele estabelecimento está escondendo o seu melhor apelo, para um domingo de sol e quente, almoçar ao ar-livre, embaixo de um generoso sombreiro de praia.
Precisamos abrir nossos sombreiros para e aproveitar os ventos das mudanças.
Tem gente que não se dar valor. Não se conhece suficientemente bem para valorizar nela aquilo que a diferencia das multidões, ou seja, um aprazível sombreiro aberto.
Pessoas que na vida nunca foram muito elogiadas, reconhecidas e acabam por aprenderem também a não se darem o devido valor. E aí, fecham suas possibilidades de atrair coisas boas, pela visão pequena que passam a nutrir de si mesmas.
Outra, não se preparam para dar sombra. Estão sempre com os mecanismos de superação fechados em si mesmos. De tanto fechamento para si mesmo, em autodescobertas, para os outros, nos relacionamentos, e para com a realidade, na alienação, elas deixam de ser protagonistas de suas próprias histórias e vidas. Deixando-se largados e sem serventia, como uma sombreiro fechado, em dia de sol.
Descobrir os pontos fortes e cultivá-los mais ainda, descobrir as áreas de dificuldade e sobre elas operar, no sentido de superá-las, possibilita a abertura dos sombreiros existenciais, profissionais e até pessoais.
Nada mais triste do que um ser humano que não desenvolve seu potencial humano, e que nunca estará completamente desenvolvido.
Nada mais triste do que achar que já viveu e sabe tudo, que nada mais há para aventurar, descobrir e conhecer. Essas pessoas precisam retornar ao primeiro amor e ter a coragem de abrirem-se novamente às novas e maravilhosas experiências da vida e do viver.
Há muita gente precisando de nossa sombra. E, mesmo que ache que ela não é grande o suficiente, pergunte a quem volta da praia, para a calçada, e sem chinelos, se um pedaço minguado de sombra, em algum lugar daquelas areias tórridas não é um alívio?
Se e´!
Não deixe que fechem, ou você mesmo feche, seus sombreiros.
Nossos dons são para serem colocados em serviço, em doação, numa forma grata de retribuir.
E isso só fará nossa sombra aumentar, melhorando as nossas capacidades de aproveitar oportunidades futuras, já estando no presente capacitados para elas.
Pense nisso!

Balões e Palitos no Mundo do Trabalho e Vida Pessoal (Por Ricardo de Faria Barros)



O que será que acontece? Na foto, pessoas se movimentam em direção a balões avoantes, e com ameaçadores palitos de dentes e balões ao ar.

A principio você poderia achar que elas estão num jogo de caça ao balão, para furá-los.

Contido, convido-lhe a amplia a foto da moça que veste uma blusa verde.

Veja o ângulo que o palito toca no balão.

Ahh!  Alguma coisa diferente ali acontece, e não é quando "cruzo a Ypiranga com a Avenida São João,", como a  bela canção diz.

Algo de novo ocorre.

Ameaçadores palitos de dentes, com suas pontas afiadas, não estão sendo usados para destruir os balões, num jogo agressivo, uns com os outros.

Eles viraram "raquetes" de frescobol.

Na atividade que coordenei a tarefa era manter por dois minutos o maior número de balões do ar, sem poder tocá-los com qualquer parte do corpo, só podendo utilizar os pontiagudos palitos de dente.

E foi uma cena mágica o que ocorreu. As pessoas tinha o maior cuidado de encontrar o ângulo certo, do contato do palito com o balão, como a moça que veste verde na foto.

Se o ângulo fosse mais reto, a ponta do palito provocaria um dano no balão que lhe faria estourar.

O ângulo tinha que ser quase curvo, quase tangencial, para que de fato o palito servisse de raquete.

Uma coisa me chamou a atenção. Não era proibido quebrar as pontas dos palitos, reduzindo sua capacidade de furar, de agredir. E ninguém o fez.

Creio que essa dinâmica tem muito a nos ensinar tanto no mundo do trabalho, como na vida social.

Precisamos converter nossos ameaçadores palitos de dente em raquetes de frescobol, para fazer a vida fluir, para humanizar e amorizar os ambientes.

Investigue a fundo qualquer organização de trabalho, como se fosse um antropólogo laboral,  e verá o quanto de energia se perde com a disputa entre áreas, que não se veem ou se percebem como parceiras.

São setores que não passam a bola para o outro de forma redonda, e em muitas das vezes, utilizam-se de comportamentos e atitudes predatórios, nos quais todos perdem.

Os balões no mundo corporativo são os serviços e processos de trabalho entre as áreas.  Que precisam de empatia, diálogo, fluidez e sentido de urgência.

Contudo, nosso aprendizado desde a família, à escola e à sociedade vem sendo pautado noutra dimensão. Aquela que nos ensina que para vencer, um tem que perder. Que nos ensina a furar o balão do outro, no lugar de cooperarmos com o seu vôo.

"Como não é o nosso balão que está voando, para que mantê-lo no ar?"

Essa frase acima é muito comum no mundo do trabalho.  Existem duas maneiras de sabotar os balões que voam quando chegam perto de nosso raio de ação. A primeira delas é a indiferença. Não tocá-lo com nosso palito, para que continue voando. Simplesmente fingimos que não é conosco, que não é de nossa conta, e o balão cai.

A segunda, é afiar as presas, projetando-as sobre ele, perfurando-o, e tirando sua capacidade de voar.

Essa mesma analogia acontece nos relacionamentos interpessoais, em todos os espaços em que acontecem, até na vida a dois, amigos e família.

Quanta gente tem a maior tesão em furar o balão do outro, ou condená-lo ao pior tipo de ódio, a indiferença.  Não se alegra com quem se alegra, não ajuda quem precisa, não coopera para que a agressividade diminua, ou atua no sentido de cultivar uma maior humanização nos relacionamentos, com respeito e comunicação não-violenta entre eles. Ou seja, não baixa as armas na convivência com o outro, usando os palitos de dente para espetar e não como raquetes de frescobol, jogo comum nas praias cujo objetivo é arredondar a bola para o outro. .

Está sempre pronto a furá-lo. Por menor que seja o conflito, o estresse relacional, as armas se levantam e declaram a guerra.

Qual o custo da falta de simpatia, sinergia e sintonia entre áreas corporativas  e pessoas?

Essa experiência social, conduzida no âmbito de uma palestra num evento de desenvolvimento de lideranças, no Ministério do Meio Ambiente, pode ser uma metáfora da esperança de mudança.

Podemos reaprender a ser mais cooperativos, amistosos e generosos com o outro, em em nos relacionamentos entre setores - elos do mesmo ciclo produtivo.

Podemos converter nossos palitos pontiagudos em prosaicas raquetes de frescobol.  É só trabalhar o ângulo de aproximação entre pessoas que precisam se perceberem como iguais. Respeitando-se e buscando convergências, entre elas.

Nesse sentido, o autoconhecimento e o autodesenvolvimento são fundamentais, para a gênese de um novo paradigma relacional, não focado nas competições predatórias, restrições e limites da realidade; mas sim nas redes de colaborações virtuosas, nas possibilidades e alternativas de ação para transformação possível de uma determinada realidade.

No autoconhecimento,  proporcionado pela educação, atua-se na lança do palito. Tirando dela seu poder de morte, arredondando-a. Ou até, quebrando sua extremidade perigosa, e que não faz mais sentido. Como aquela agressividade de autodefesa apreendida, por exemplo.

No autodesenvolvimento, proporcionado pelas experiências de vida, atua-se na modelagem do ângulo relacional com o outro, ou os setores, ajustando-o com flexibilidade para mitigar os riscos de dano relacional.

Ansiosos e velozes palitos de dente, movimentando-se em direção aos belos e frágeis balões ao vento, nem sempre serão estruturalmente inimigos. Podem, desse encontro, produzirem algo impensado e novo, em parcerias inusitadas, quando um compreende o mundo do outro, ao manter o balão dele no ar, cumprindo a vocação a qual se destina ser.

Generosidade de Ser e de Servir (Por Ricardo de Faria Barros)

Pelas 15hr saí para visitar aquelas lojas de "Pra que isso?", eu estava atrás daquele treco que amola faca e de algo que servisse para guardar uns DVDs.
Chegando perto do local, escuto na esquina o som de música ao ar-livre.
Sou fascinado por música ao ar-livre, e de qualquer espécie. Alias, pelos artistas de rua eu nutro o maior apreço.
Dei meia volta, estacionei perto, esqueci completamente da agenda, e me posicionei próximo para me deliciar com aquele show. E o cara era dos bons, depois soube que ele é o cantor de um importante restaurante de Brasília, o Coco Bambu.
Ele cantava uma música do Nando Reis, sucesso do momento, chamada: Só Posso Dizer
"Cada um de nós tem o seu próprio jeito de ser
Mas tudo que foi feito
Só fizemos juntos
Porque você ouviu a minha, e eu, a sua voz
Tudo que dissemos sempre teve efeito mas sobra
Um ou outro aspecto
E o inverso do direito é a busca do desejo sem culpa."
E a galera que estava no Bar Central, em Sobradinho-DF, cantava com ele, num bonito coral de boteco.
Tomei coragem, superei minha timidez de primeiras abordagens, e peguei um banco de balcão.
O proprietário logo veio me servir de uma geladinha e perguntei-lhe se toda terça tinha música ali.
Ele me disse que não.
Que a razão era o aniversário do churrasqueiro do estabelecimento, o Índio. E que os amigos deles, inclusive músicos que gostam dele, vieram prestigiar.
Tinha umas 40 pessoas, em mesas espalhadas pela calçada, e notei que os músicos alternavam-se nas canjas para o aniversariante.
Aí, ele passou ao meu lado e eu aproveitei para cumprimentar-lhe.
Ele olhou para mim, sorriu, e disse: "Não vale só me dar um abraço, tem que ir lá buscar a carne, feijão tropeiro e macaxeira."
E partiu para a "varanda" da calçada onde pilotava a churrasqueira.
No "palco" assumiu a canja o Negão de Planaltina, com uma voz que deixaria Tim Maia com inveja. Ele começa logo com um samba de Jorge Aragão chamado Coisa de Pele e o pessoal delira:
"Podemos sorrir,nada mais nos impede
Não dá pra fugir dessa coisa de pele
Sentida por nós,desatando os nós
Sabemos agora,nem tudo que é bom vem de fora
È a nossa canção pelas ruas e bares
Nos traz a razão relembrando palmares
Foi bom insistir,compor e ouvir
Resiste quem pode à força dos nossos pagodes
E o samba se faz,prisioneiro pacato dos nossos tantãs..."
Naquela terça, eu estava me sentindo um tanto saudoso, arrotando melancolias mal dormidas;
Mas, notei que na segunda música meu estado de espírito já era outro. Agora sim, o Ricardim voltou!
Chamei o proprietário, pedi mais uma cerveja, animado pelos Tantãs, e perguntei-lhe como era o esquema da comida. Se eu pegava lá, no local que o Índio estava, ou se trazia o valor para ele botar na conta.
Ele sorriu e me disse, "como assim?".
"O Índio não te convidou?"
Eu falei que sim, mas que não sabia se iria ficar, e agora irei até a última música das canjas.
Então ele fez um sinal para o Índio. E o Índio se aproxima com uma farta porção de carne, feijão tropeiro e macaxeira, sorri para mim, e diz, "hoje é tudo por minha conta, seja bem-vindo".
Uauuu!! Eu não acreditava na generosidade da cena.
Quando ele voltou para a churrasqueira o dono do Bar Central me disse que ele quis comemorar os 50 anos, fazendo o que gosta: servindo churrasco onde trabalha. Mas, dessa vez sem cobrar nada. Já estava pago.
Um céu se descortina no local. E comecei acompanhar o Índio que não deixava ninguém com prato vazio.
Ele assava e servia as mesas. Em cada mesa parava, fazia fotos, e levava pedido de músicas para seus amigos que davam canja.
Então disse ao dono do bar que me sentaria bem perto dos músicos, e do Índio, no chão mesmo, num degrau de calçada, para prestigiar o evento.
Aí era só coisa linda que via. Gente que vinha só abraçar-lhe, não ficava. Gente que passava na calçada e ele perguntava se queriam ficar. E até alguns moradores de rua vieram fazer quentinha com ele, que os tratou como se fossem Vips.
Peguei a nota de R$ 100,00, aquela que destinaria a comprar coisas que não preciso, e que podem ficar para um dia qualquer, me aproximei dele e disse-lhe que iria dar-lhe o presente de aniversário, e coloquei a nota no bolso do .jaleco dele, impecavelmente branco.
Ele botou a mão no bolso, olhou para aquela nota fixamente, e se aproximou de onde eu estava sentado. Ele então me disse: "Senhor, será que não pegou a nota errada?".
Dei uma gargalha e disse-lhe que não.
Ele me abraçou e disse, "vai dar para comprar mais carne, que já estava acabando, muito obrigado" .
Ao lado do bar da Central tem um açougue, então pude vê-lo entrar nele e sair com mais carnes.
Ele não queria dinheiro. Ele queria prazer, prazer de doar para os presentes o que ele tem de melhor, a capacidade de acolher, de celebrar a vida, e de querer que não faltasse carne para esse momento.
Lembrei daquela cena que Maria diz a Jesus, num casamento em Caná; "Eles não têm mais vinho".
Ele não tinha mais carne, e deve ter investido muito, pois o local estava cheio.
Eu degustei da alegria do Índio pelos 50 anos. Como ele estava feliz!
A felicidade dos simples tem uma complexidade que para vê-la precisamos nos despir de nossa pele burguesa e nos permitir comungar com gente sem títulos, posses ou poder de qualquer espécie. Pessoas comuns, com atitudes incomuns, pobres de orgulho material e mansos de emoções.
Perto das 17hrs, despeço-me dele e volto para o balcão, para pagar minha cervejas.
Aí ele se aproxima, me entrega uma quentinha e diz: "É para você levar para casa".
Eu mordo a língua para não dar vexame e chorar. O Negão se aproxima e pergunta se não quero pedir uma seresta, saideira, eu pergunto se ele sabe Ronda, ele abre um sorriso, dirige-se ao "palco" e solta o vozeirão: De noite eu rondo a cidade a te procurar sem encontrar. Em meio de olhares espio, em todos os bares você não está.

Enquanto digito esse texto como um risoto que fiz pedaços do churras que o índio me deu.
Esse risoto que como e que está suculento tem um sabor especial. O sabor da generosidade de um coração que aprendeu a servir e a doar-se, e faz disso o sentido do seu viver.
Voltei hoje por lá, fui presenteá-lo com meu livro. Mas, o chefe disse-me que hoje é o dia de folga dele. Outro dia irei.
Preciso fazer terapia do amor ao lado dele. Vou pegar uma mesa bem próximo, para dele receber as boas emanações de emoções positivas tão raras hoje em dia.
Quem de nós, no dia do aniversário, chamaríamos todos que passavam pelo local para conosco comer e celebrar?
E por isso que acredito que a Humanidade tem cura. Há pessoas lindas que podem nos ensinar muito. Verdadeiros sábios.
Mas, para que possamos aprender e participar de suas aulas, teremos que desaprender um monte de coisas que fomos internalizando, criando em nós verdadeiros monstrinhos:
o orgulho, nosso jeito de pensar a vida bem burguês, o medo e o nojo de pobres, os preconceitos com os "diferentes", as nossas verdades quase sagradas, tudo isso que mais separa do que junta. Mais cria muros do que pontes.

Que possamos nos inspirar nessas pessoas tão simples, mas conhecimentos bem complexos do que realmente se faz uma vida que por ela vale a pena viver.

Cartas ao JG - Um copo sujo no caminho. (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)



Fui te pegar no colégio e você saiu cabisbaixo. Quando vejo-lhe assim, já sei que tomou um bilhete da "tia".
E foi mesmo. Tu me falou que na hora do recreio empurrou um coleguinha que queria à força fazê-lo tomar uma água suja, colocada dentro de um copo.
Abracei-lhe, não para passar a mão na tua cabeça, mas em solidariedade à bronca que levará da tua mãe. rsrs
Aí notei que perto de teu olho tinha um vermelhão e estava inflamado.
Perguntei-lhe o que o ocorrera e tu me disse que levou uma bolada de vôlei, e que o óculos protegeu teu olhos. O impacto da bola nele, fez com quem a armação machucasse teu rosto.
Pensei comigo, "hoje não era o dia do JG no recreio". rsrs
No caminho, você estava todo falante, já mais relaxado, talvez esquecendo das futuras broncas.
E, me perguntou, se estava certo levar um bilhete pra casa por ter defendido-se.

Eita JG, que pergunta difícil.

Imagine filho se para cada violência que a vida nos aprontar nós reagirmos na mesma intensidade, como autodefesa instintual, como se fôssemos animais.
E não somos, embora alguns se pareçam muito, aliás têm menos cérebro emocional do que eles.

Caso paguemos violência com violência, terminaremos nos tornando como eles ficaram: brutos e intolerantes com o diferente.

Você terá que achar teu próprio tom, entre ser um pamonha, aquele que não se defende de nada, e ser um cara que não releva nada. Daqueles que para ele é tudo Sim, ou Não, e ainda diz todo orgulhoso: "Bateu em mim, apanha com mais força ainda".

Esse é um misterioso ensinamento que precisará desenvolver para bem viver e conviver: o do autocontrole, misturado com sabedoria.

Ter autocontrole emocional te levará a buscar saídas não-violentas para situações ruins pelas quais passará.

Para algumas delas, será necessário apenas retroceder, desviando-se da área de choque iminente. Ou seja, não dar murro em ponta de facas. Ou, gastar vela com defunto ruim.

Para outras: deverá ser um contorcionista bem flexível, e ao driblá-las seguir caminho à frente.

Outras ainda, te levarão a ter que se adaptar a elas. Mudando a si mesmo, crescendo em conhecimentos, após experiências difíceis pelas quais passará, e que também fazem parte do pacote do viver.

Retroceder, driblar/contornar; e se adaptar são três verbos que te ajudarão muito na harmonização de relações por onde passar, e são a essência da coletivo vivência.

Uma pena que no lugar dele todos os dias somos ensinados a defender com unhas e dentes nossas posições, e verdades quase sagradas, a atacar ao menor "copo de água suja" nos apresentado para tomar, ou a no lugar de oferecer repostas, diante de situações desagradáveis, procurar culpados ou um monte de justificativas pelas nossas reações também agressivas.

Então filho meu, a arte de bem viver é saber quais batalhas vale bem a pena guerrear, e para as quais poderá renunciar entrar no ringue, e seguir caminho.

Se ficar entrando em tudo que é briga pequena, vai passar recibo de uma pessoa explosiva, que não sabe amortecer nos peitos uma brincadeira, um pequeno desafeto que recebeu, ou uma pisada na bola que fizeram para contigo. Saber superar esses pequenos dissabores exigirá de ti, além do auto-controle e sabedoria, o quinteto fantástico da inteligência emocional positiva: empatia, autoestima, compaixão, resiliência e otimismo.
Juntos, eles fazem com que até o pior copo de água suja que te entreguem seja percebido por ti, com outras lentes, e convertidos num gesto dele de querer brincar contigo, e não de te provocar. E aí tu vai aprendendo essa arte de bem viver que é a de converter na mente as maldições em bênçãos.

Para muita coisa chata que lhe ocorrer essa fórmula vai ser libertadora.
Chegamos perto da ponte, você estava dormindo. E eu falando sozinho. rsrs
Esperei tu terminar o o Kumon, e na ida para casa resumi o que acima falei.
Agora vamos para segunda parte da resposta pra tua pergunta, se foi certo ou errado você ter empurrado o menino. Nessa parte usarei a bolada que levou na cara.
Ou seja, haverá situações difíceis que sofrerá que causarão um forte impacto em teu ser, não dando tempo de se desviar delas, tal qual aquela bola de vôlei.
Aí você precisará buscar suas fortalezas e armaduras para se defender. Como o óculos fez contigo.
Uma das melhores é a comunicação não-violenta. Vou te ensinar de uma forma bem fácil.
Imagine quatro verbos, uma para cada fase do que irá comunicar à alguém que lançou uma bola contra ti: Relatar - Identificar - Expressar - Solicitar
É facinho essa fórmula e tenho usado com frequencia e me feito muito melhor. Engoli muitos sapos que me causaram sérias indigestões existenciais, só por não ter aprendido a comunicar o que não estava legal, e que ocorria comigo, nos relacionamentos interpessoais que vivia.
Ela nos ajuda a expressar sentimentos negativos sem arruinar quem os recebe, dando oportunidade para o crescimento dele. A Comunicação Não-Violenta que vou lhe ensinar pode ser decorada nessa sigla: REIDES. Não sem razão essa sigla que criei remete à redes. Veja abaixo:

Relatar o Fato Jornalisticamente - Nesse verbo você apenas diz o que ocorreu, narra o fato, a observação que fez dele. SEM CRÍTICA.

Identificar o Sentimento Ruim a Ele Associado - Nesse verbo, você apenas diz como se sentiu, expressando numa palavra a emoção negativa ou sentimento que sentiu, após o fato ocorrido. SEM VITIMIZAR-SE ou ENQUADRAR O OUTRO.

Expressar a Necessidade Maior Não Atendida- Aqui você diz o que gostaria que acontecesse, expressa sua necessidade. Identificar a necessidade é maior do que o simples ocorrido. Por exemplo, sua namorada furou a ida ao cinema contigo. Sua necessidade não é ir ao cinema, entende? Sua necessidade é de maior intimidade e companhia com ela, de momentos a dois. SEM JULGAMENTO E CRUCIFICAÇÃO DO OUTRO

Solicitar - Aqui você encerra a comunicação, dizendo o que exatamente quer, com foco no presente e futuro, sem trazer mais as tintas do que já ocorreu de errado, sem botar o outro contra as cordas. Dando ao outro oportunidade de se colocar também. JOGANDO FRESCOBOL

Vamos ao exemplo do copo sujo:

Relatar - Amigo, quando você insistiu para que eu tomasse aquela água suja. (Correto). Amigo, achei idiota querer me fazer tomar aquela água suja (errado).
Identificar - Eu me senti desprezado (Correto). Eu senti que você é uma pessoa muito má. (Errado).
Expressar - Eu tenho necessidade de uma amizade mais amistosa. (Correto). Eu necessito de amigos que prestem (Errado)
Solicitar - Será que podemos ser amigos sem que ocorra entre nós nada que possa nos machucar? (Correto) Da próxima vez que você me entregar um copo de água suja pra tomar eu vou te segurar pelo pescoço e fazê-lo você mesmo tomá-lo. (Errado).
Lógico filho, que essa metodologia acima você usará para 20% dos dissabores, aqueles que de fato valerão a pena tentar harmonizá-los, pelo diálogo. Quanto aos outros, bem mais comuns, desenvolva o autocontrole e a sabedoria de retroceder, desviar ou se adaptar.

A arte de bem viver, muitas das vezes será a de parar ter um monte de razões em tudo que lhe acontecer.

Perdas Necessárias (Autor Ricardo de Faria Barros)


Cheguei em casa animado, acabara de comprar uma TV, daquelas que pegam de um tudo, e agora era tirá-la da caixa e curtir boas músicas, que cato no youtube.
Fiquei impressionado como essas TVs de agora são leves. Tirei a bichinha da caixa, e percebi que precisaria montar os pés.
Confesso-lhes que montar não é meu forte, nem tampouco compreender manuais de montagem. Ainda bem que filhos vem sem eles.
Mas, a ocasião pedia. E a ocasião faz o Homem.
Olhei para aquelas peças, com olhar de cachorro pidão, como que quisesse que elas falassem comigo, facilitando o trabalho.
Mas, eram mudas tal qual alguns expectadores de rede social.
Após rodá-las de todo jeito, consegui inseri-las no buraco, mas vi que não ornou. Ficou sobrando pra fora.
A peça era maior do que o buraco. E, como elas se encaixariam se não tinham o mesmo tamanho?
Fiquei que nem aquela música, "perdido em mil pensamentos." E me senti muito ignorante.
Aí notei que o problema era alinhar os furos da peça, com os da TV, para que o parafuso fizesse a mágica do encontro entre eles, e os conectassem juntado-os numa só peça, como casais que se amam.
Os furos da peça, quando eu botava na base, ficavam 0,5cm distantes dos furos da TV.
Como aparafusar algo assim?
Li o manual trocentas vezes, e ali tudo parecia tão fácil, tal qual esses programas de culinária da TV, tipo o Rodrigo Hilbert .
Confesso-lhe que bateu uma vontade de abrir outros furos, para que o encaixe entre eles e o parafuso fosse perfeito. Mas, abrir com que? Com faca. Esquentando uma chave de fenda?
Entrei na WEB, à procura de alguém com o mesmo problema, e nada. Todo mundo soube botar os pés da TV.
Me senti estranho, deslocado, diante do impasse. Acho que esse DNA bem masculino, que adora caixas de ferramentas e montar, ou desmontar, de um tudo, não veio na minha programação original.
Fui na cozinha, fiz um cappuccino, liguei o rádio para relaxar.
E pensei, vou ter que voltar na loja, colocar tudo outra vez na caixa, e será que eles vão trocar?
Ou apelar para os filhos mais velhos, que coisa!
Voltei para a bancada, na qual a TV jazia deitada, olhando para mim com olhos lânguidos e desejosos, e eu nada. Impotente diante dela.
Pensei comigo, vou botar algo embaixo da base, tipo um apoio, e essa gambiarra funcionará. Mas, e quando Priscila ver? Priscila é minha personal estilista, minha filhota de 30 anos.
Relaxei, lembrei que poderia comprar aquele troços que afixam na parede. Coisa para o Rodrigo resolver. Rodrigo, meu filho de 28 anos, é o que tem o melhor DNA de consertador, furador de parede, leitor de manual e montador. Pode ser!
Percebi que o que impossibilitava o ajuste era uma pequena saliência, na ponta do treco. De uns 0,5 cm.Olhei no encaixe da TV, e não vi nenhum buraco no qual aquilo penetrasse. Então, tomado de súbita coragem, peguei um alicate e quebrei aquela saliência.
Muito ansioso, inseri o pé no buraco da base da TV e vi que os furos se alinharam. Aparafusei a ambos, que agora eram um. Repeti o procedimento com o outro pé. Ergui a TV, nos abraçamos e ao som de Paz do Meu Amor, dançamos juntinhos.

Quantas coisas em nossa vida existem, para as quais apelar para os manuais de qualquer tipo de ajuda: auto, baixo, coletivo, ou amigos-ajuda, não adiantará muita coisa.
Não está no manual o que ocorre conosco. E, mesmo que outros tenham vivido algo parecido, ainda assim o nosso problema, os nossos furos existenciais que não se encaixam, serão só nosso.
É como aquela canção que diz: "Se ela me deixou, a dor é minha só, não é de mais ninguém!"

Chamo a esses problemas de problemas disruptivos. Disrupção é um termo que chega com força, oriundo da evolução da tecnologia. Um salto disruptivo é quando se cria algo que muda o padrão, a forma de uso, a ordem e a natureza das coisas, oriundo de processos de inovação.
Por exemplo, o Uber, Airbnb, Netfix, Spotfy e o WhatsApp são saltos disruptivos no uso que fazíamos do Taxi, Hotel, TV, Música e Celular.

Em nossas vidas passaremos por situações que vão exigir coragem e ousadia.
A coragem de quebrar em nós mesmos aquilo que está dificultando o nosso encaixe, com o que queremos que afinal aconteça.
E doerá. Aliás, crescer dói. Mas, sem se permitir à quebra desse pino, que agora em teu viver aparenta que está sobrando, como realizar o encaixe perfeito com outras conexões de sentido?
Descobrir o que está impedindo a realização do sentido de tua vida, e sobre isto operar, retirando-o do caminho, é decisão disruptiva.
Depois dela, nada será como antes, pelo menos no que diz respeito ao tema ou desafio de teu viver que não está se encaixando, por pedir algum tipo de atitude tua, que sem ela as coisas ficaram como são, não haverá conexão possível.
E a vida passará, sem realizar-se plenamente. E tua TV interior poderá até funcionar, ao ficar encostada em algo, mas sempre ao olhar para ela saberá que os pés estão em falso. Que há algo que não se realizou plenamente, por falta de ação sobre a vida, por falta de respostas, no lugar de justificativas.

São escolhas necessárias para dar prosseguimento ao nosso processo evolutivo, em nossa busca pelo sentido de nossas vidas. Busca para a qual não existe manual. Precisa experimentar e ousar ser feliz, mesmo que dando eventuais cabeçadas.

E, não se engane, para cada escolha haverá sempre um monte de renúncias.

Assim como renunciei à pequena protuberância da peça, aquele pino, que após retirada do mecanismo, só servirá mesmo para o lixo.

Ou, como fiz com a meu, guardando-o numa caixinha. Para que sempre eu me lembre dele, quando algumas situações em minha vida pedirem coragem e o discernimento de trapezistas, e exigirem desapego emocional e atitude comportamental corajosa para as mudanças, mesmo com perdas - para lá de necessárias, e algumas urgentes.


Não deixe para amanhã. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era a última das nove aulas ministradas, na turma de Pós Graduação Gestão em RH 2017, na UNIP-DF, disciplina Qualidade de Vida no Trabalho e Desenvolvimento Profissional.

A cada aula, uma emoção diferente, em ver a entrega dos meus alunos na condução das atividades, por eles planejadas com tanto esmero.  Uma turma para lá de especial.

O texto da aula de ontem, 21/08/2017, foi o Regador de Luz (veja em Um Regador de Luz  ).
Trata-se de um texto sobre meu primeiro encontro com o Sr. Valdecir (75), um anjo entre nós.
A aula foi preparada com muito carinho. 
Os alunos doarem-se por inteiro, eles queriam que a turma experimentasse o amor, e conseguiram, aliás, superaram todas as expectativas.
Sabe o que eles fizeram para que expressássemos e sentíssemos o amor?
Em primeiro lugar, após a reflexão do texto, feita com mutia participação, eles entregaram uma folha em branco para cada aluno, e para mim.
Depois, pediram-nos que escrevêssemos uma carta de amor, perdão, reconhecimento ou gratidão para uma pessoa ainda viva.
Botaram uma música inspiradora e nos deram uns 10 minutos para a tarefa.
Depois, pediram-nos que fossemos compartilhando a leitura, com a tura, carta a carta.
Confesso-lhe que se fosse nas primeiras aulas seria muito ousado esse pedido.
Mas, após dois meses de intensos encontros, e de muitas emoções vividas e trabalhadas, o pedido foi moleza.
E, cada leitura era seguida de choro, mas choro de alegria.
Alegria de poder testemunhar para a turma toda sobre aquele, ou aquela, cuja presença em nossas vidas nos torna melhores, maiores e mais fortes.
E, aqueles dezoito alunos, mostraram na prática que sabem sentir e expressar: amor, gratidão, perdão e reconhecimento.
E foi tudo tão bonito, que eu mal me continha sem chorar também.
Num determinado momento das leituras, que até então todas foram para pessoas externas à sala de aula, um rapaz ler sua carta para um outro, que está na mesma turma. 
Era uma carta tão bonita, tão cheia de cumplicidade, companheirismo, amor, que todos ficaram emocionados.
Na vez do outro, ele também escreveu para o que tinha lido. E o texto era mais carregado ainda de emoção, era quase uma declaração de amor. 
Entre eles houve reciprocidade, uma vez que ambos não sabiam para quem o outro estava escrevendo.
Não é sorte...
Um aroma de amor impregnou nossos corações. O rapaz não se conteve, de tão agradecido por ter aquele amor em sua vida, que caiu em lágrimas. E a turma toda socorreu-lhe com um abraço de urso.
Aquele abraço foi melhor do que qualquer curso de Ética e Respeito às Diferenças.  Foi a prática da coletivo vivência.
Cheios de emoção estávamos, quando os alunos que conduziam a atividade pediram-nos para colocar nossas cadeiras como se estivéssemos num cinema. 
Apagaram as luzes, e UAUUUU!!!!

Sabe o que eles fizeram?

Deixa eu explicar melhor o contexto. Na aula anterior, eles pediram aos alunos o nome e celular de alguma pessoa querida, sob o pretexto de sortearem na aula deles (a de ontem) um de meus livros, o que fizeram.
Mas, era pretexto. O que eles fizeram mesmo foi contactarem com cada pessoa e pedirem-na que gravasse uma vídeo sobre o que representava o aluno, o que deu o número do celular dele, para sua vida.
Depois,  eles coletaram todos os 18 vídeos e fizeram com ele um único filme.  quem entende de mídias digitais sabe que isso dá um trabalhão. Imagine os contatos, os formatos, as pessoas querendo saber como gravarem. Quanta dedicação! E não faltou nenhuma homenagem.  Todos gravaram.
Gente, se eu vi coisa mais bonita em sala de aula, não me lembro. E olha que já vivi cada cena magnífica em sala de aula, daquelas de arrepiar, de derreter o mais gélido dos corações.
As pessoas que gravavam os vídeos chamavam para contribui mais pessoas. Então era mãe, com pai e irmãos. Era mulher com filhos. Era amigos do trabalho. 
Eram crianças com declarações tão lindas para seus pais. Como a que meus filhos fizeram para mim.
Foi uma noite para ficar na história.
Olhem o que meus filhos, representados por Priscila, escreveram para mim:

Painho,

"Que missão mais complicada escrever sobre você. Tudo que já foi dito e vivido parece tanto que mais uma linha nunca é suficiente. E que dias intensos de aprendizado estamos vivendo! Nós, os cinco de sempre. Que só foram quatro porque você foi um. Somos o resultado das suas vitórias e renúncias. Somos uma família porque você decidiu que não haveria almoço grátis, que não se daria ao luxo da lamentação. Decidindo ser protagonista, fez da resiliência um estilo de vida. Persista em olhar os ipês verdes das ruas! Continue a nos ensinar a lutar o bom combate! Há muito mais vida a ser vivida, então desejamos que esse teu braseiro nunca se apague! Aos teus alunos, desejamos que tuas aulas inspirem o exercício apaixonado de suas profissões. Somente profissionais como você dão significado ao acumulado de pontos batidos. Que como você, vistam lentes para enxergar o capital humano onde ninguém mais o viu. Nosso orgulho e apoio são constantes! Estaremos sempre te aplaudindo na fileira da frente. Te amamos!  Tiago, Priscila, Rodrigo e João Gabriel  (JG)"

Quanta entrega, doação e generosidade daqueles jovens!
Como é bom de vez em quando poder colocar no papel e expressar o que sentimos pelo outro.
Como é bom ver em vídeos os nossos amados dizendo-nos como nos amam. 
Eu sei que muitos de nós já sabem disso, mas o que meus alunos proporcionaram foi mais uma possibilidade de explicitar isso.
E foi lindo. Gravações amadoras, sem nenhum roteiro, sem qualquer rebuscado de técnica. Era pessoas comuns, falando coisas incomuns, e para quem ama.
Deveríamos nos permitir a fazer mais dessas coisas. Deveria ter um dia do mês para que nele escrevêssemos cartas de carinho, perdão, gratidão ou reconhecimento, que em todas está implícito o amor. E, fazer isso enquanto estão vivos, sem esperar uma aula para que isto aconteça.

Nos permitir a amar bobamente, sem medos de ser ridículo, sem temer o amanhã.
Cada vídeo gravado, cada carta escrita, produziu um eco que lá no infinito de nossas vidas vai falar de quem somos, em nossa melhor essência.

Desse material, ontem produzido, fizemos compotas emocionais para degustação em tempos futuros de menor riqueza emocional. 

O que que pode acontecer quando damos o nosso melhor?  Quando nos entregamos por inteiro a uma causa, como a que aqueles três alunos se entregaram:  a de não medir esforços em regar luz em nossos corações, para que tivéssemos uma rara possibilidade, diga-se de passagem, para expressar e sentir amor. 
Eles sim, foram os verdadeiros regadores de luz daquela noite! E que luz!
Como diz a canção, "deixa fluir o amor... a paz na Terra!"
E foi o que vivi ontem á noite e com meus amados, nesse mundo virtual, compartilho.
Sim, antes que me esqueça, amo vocês meus filhos. 
E faria tudo outra vez e com o mesmo prazer! Vocês são estímulo e esperança, e na veia, e todos os dias.

Cartas ao JG - Não eram apenas cards. (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)


Sabe amado filho, hoje falamos muito sobre umas cartinhas que estou lhe presenteando, vez por outra, que estão na foto dessa crônica. São cards simples, de 1,99, mas que você ama. temos cenas você ficou tão contente quando te peguei no colégio.

E a cena, com esses cards que ilustram essa crônica, se deu em três atos.

Ato 1 - A monitora que veio te trazer, à saída da escola e me entregar, acabou por passar um sabão em mim. E na tua frente. E tu ficou morto de vergonha, e eu querendo mandá-la à La Merdê, mas não posso ensinar-lhe a ser rude. Então, aguentei o tranco, com cara de "querida!".

Ela reclamou que tu levou os cards para a escola, e que não podia levá-los, nem brinquedos algum.
Eu nem acreditei no que ouvia, mas relaxei, aliás relaxamos.
Olhei para ti, pisquei o olho, te abracei, e dei as costas para a monitora, deixando-a falando sozinha.

Foi meu gesto de subversão à ordem e natureza das coisas, no atual mundo pedagógico infantil.

Que mundo é este que estamos criando que crianças de 7-8 anos não podem levar brinquedos para a
escola?

Que mundo é este que nós pais, e sisudos educadores, estamos criando para nossos tão jovens filhos que lhes privam de brincar?

Com agendas atoladas de tarefas, com "projetos para casa", com revisões e mais revisões para provas semanais, no teu caso, às quartas.

Nos dias que antecedem essa quarta de prova, inclusive nos sagrados finais de semana, tu ainda estuda umas 4 horas, fazendo revisões e soletrando decorebas.

Nas segundas e quintas tu faz o Kumon, após as aulas, que em nosso entender ia desenvolver tua lógica e senso de organização. De fato, está fazendo milagres, mas a que custo?

Pergunto eu, olhando para esse estonteante pôr do sol do DF.

Qual o custo para a saúde emocional adulta que pagaremos, por permitir por uma educação infantil tão puxada, desde a tenra idade?

Qual espaço tu tem para ser o JG?

Para sorrir, fazer nada, brincar, socializar-se e aprender a fantasiar a existência?

Um problema ocular que tu teve, já sanado com óculos, fez-nos procurar uma renomada psicopedagoga e psicanalista em Brasilia, Dra. Ione Silva.

Ela fez um contundente desabafo. As crianças estão ficando velhas antes do tempo, e pulando fases importantíssimas para seu desenvolvimento sócio-afetivo, a do brincar, do imaginar, do fantasiar sua existência.

Pois a tecnologia, as agendas cheias de compromissos, pretensamente tidas por "brincadeiras", mas que são assumidos sem prazer, pela forma como elas funcionam, exigindo dos pequenos uma disciplina e rigor que tiram todo o encanto do brincar: de jogar futebol, de aprender um instrumento, de praticar um esporte, ou cantar num jogral.

As práticas do mundo corporativo chegam á infância entupindo-lhes de metas, objetivos, planejamentos estratégicos e coisas do ramo, até nos espaços do "brincar", nos badalados turnos integrais.

Voltamos para o carro, abraçados, e tu me perguntou se eu comprei cartas novas. cacaca

Não é que tinha levado, mais 3 pacotes.  Tu fez festa com elas, esquecendo-se da monitora carrancuda, como se tirasse na loteria.

Ficou tao feliz ao abri-las que nem liguei o motor do carro, para degustar daquele teu momento.

Que tempos bons os que com simples cartas de 1,99 nos alegramos como se nada mais tivesse valor!!!

Como é bom se alegrar com as coisinhas simples da vida e do viver! Como um cafezinho que tomei, a pouco, na guarita com o caseiro Adalfran, que de forma tão simpática ofereceu-me o apetitoso líquido.

Lógico que parei, degustei, e saudei a vida e à amizade.

Seguimos viagem pra tua casa. Uns 30 KM.   Fazia calor e o ar-condicionado estava ligado, no som antigas canções de mes tempos de faculdade.

Lá de trás tu ia narrando-me quem era quem nas cartas que conseguiu.

Próximo da chegada, uns 5 km,  o trânsito melhora bastante e atrevo-me a abrir os vidros, para tomar o ar fresco de fim de tarde.

Eis que um vento transverso entra pelos vidros traseiros do carro e carregam tuas cartas, que estavam sentadas no banco, olhando-te jogar no meu celular.

Tu grita de desespero!  Eu peço para que se acalme,  é impossível parar naquela estradinha vicinal sem acostamento, pois os carros que não terão como desviar do meu.

Você se emociona. Eu me emociono. E faço-lhe juras eternas de compra-lhes novamente as cartas, e as repor.

Aí você me pergunta se conseguirá as mesmas, falo que não, mas que com certeza serão melhores, pois terão o gosto do amanhã, e o amanhã será sempre melhor, é preciso acreditar.

E como ele mostrou capacidade de amar aquelas cartas, ele vai amar as outras. Afinal, é disse que se faz uma boa vida, de amar, sofrer, chorar, sorrir, brincar e recomeçar, sempre!

Ele fica mais confortado, já esperando a surpresa de abrir os oito novos pacotinhos de figurinhas.

Então, deixei-lhe em casa e rodei 50 KM, até Sobradinho-DF, para comprar-lhes novos cards, esses da foto.

Afinal, qual pai não fica feliz em vez os filhos dormirem mais aliviados, foi isso que te proporcionei nessa noite.

É isso que todos os dias o meu Tiago, a minha Priscila e o meu Rodrigo azem para comigo. Só estou retribuindo.

Durma em paz meu filhos, teus novos cards estão na cabeceira de tua cama.

Da arte de pedalar sem uma das pernas. (Por Ricardo de Faria Barros)

Naquela quinta, 10/08/2017, tudo falava saudades. Era o dia de deixar meus pais no aeroporto, após um mês que passara em meu lar.
À medida em que envelhecemos vamos dando mais valor a ser amados por nossos pais.
Aliás, acho até mesmo que vamos nos permitindo às suas formas de expressar o amor, sejam quais forem, saciando-nos plenamente com elas.
Meu pai expressa amor arrumando minha caixa de ferramentas.
Mamãe, perguntando se fui à missa.
No trajeto ao aeroporto, uma dupla de ciclistas pedala em alta velocidade, na ciclovia ao nosso lado, ora passando por nós, ora nós passando por eles, dado o lento trânsito naquele horário da manhã.
De tanto olhar para eles, e só assim, noto que um deles não tem a perna esquerda. Que sua roupa de ciclista está vazia, na coxa e perna que deveriam ali estar. Ele pedala com uma perna apenas, e não perde em nada em velocidade e equilíbrio para seu colega que ao seu lado segue.
Fiquei estupefato com tamanha destreza, mas o trânsito não recomendava foto de celular, e perdi a belezura daquela cena de sobrevivência.
À tarde, ainda com sintomas de saudades, tenho súbita vontade de entrar na Igreja da Esperança, no caminho para buscar JG.
E ali, aos pés da Santinha, eu rezo meu terço. Coisa que não fazia há uns 35 anos.
Sigo para a Ânimo, é que tenho atendimento na boca da noite, uma sessão de coaching, na qual posso influenciar no carrossel do destino de pessoas e de mim mesmo.
Ele chega ansioso, pede que não façamos a avaliação a semana anterior, dos avanços do que nela ela tinha se proposto.
Ele me diz que vive uma semana difícil, após uma separação de mais de dez anos ao lado dela.
E que coisas banais chegam ao seu coração e mente, atormentando seu espírito. Como por exemplo ter ouvido na manhã de hoje saltos altos batendo no chão.
Ele acordou com a súbita presença de ser ela quem entrava no quarto, após se arrumar no WC para ir trabalhar. E não era. Ele estava num flat, para onde foram morar. O som vinha do quarto ao lado, que pelo silêncio reinante no local, ecoou na sua vida.
Ele me conta que já não a amava, mas que essas lembranças são de um cotidiano que embora não houvesse amor, também não era entre tapas e beijos, não havia animosidade entre eles. Só amizade, fruto ácido de amores que se vão.
Bem emocionado ele me diz que saiu com os amigos, na noite de sábado, dois dias após receber o cartão vermelho dela, e que no barzinho tocava samba.
Então, ele pegou seu copo para fazer costumeira percussão, batendo a aliança contra sua borda, e não saiu som. Aí ele percebeu que estava sem.
Ele sofria, reconheço, e contei-lhe do ciclista.
Se eu tivesse presenciado o acidente ou doença que decepou a perna dele, à época, e sua luta pela reabilitação motora, agora só com uma das pernas, eu poderia dizer que o que vi hoje era um sonho, uma ilusão, uma fantasia.
Desde seu acidente era impossível prever que ele conseguiria dar uma resposta à vida, e de forma tão satisfatória.
Durante a reabilitação aquele ciclista deve ter passado por maus momentos, por uma angústia profunda, por raiva, frustração, e deve ter acordado muitas vezes sentindo ainda sua perna, que mesmo arrancada, ainda enviava sinais para o cérebro, em hábitos neles moldados.
Eu imagino que se alguém dissesse àquele jovem, dias após ter sido amputado, que no futuro ele pedalaria pelo Lago Sul, com uma das pernas, e na mesma velocidade de outro sem pernas algum, ele olharia incrédulo para a pessoa, ou até com raiva, de desqualificar o sofrimento dele, naquela hora.
Só haveria um jeito de mostrar-lhe que sua vida se reinventaria, lá nas esquinas do futuro, e ele acreditar: mostrando-lhe uma bola de cristal.
De resto, qualquer “conselho” desse tipo seria percebido como uma vã ilusão, como uma forçada de barra, para que ele se sentisse melhor.
Não sabemos o que a vida nos oferecerá, após grandes choques pelos quais passamos.
Só sei que se continuarmos dando o nosso melhor, sobrevivendo um dia de cada vez, nos esforçando, buscando nossas verdades, não ficando na posição de vítima, culpa, ou naquela de quem desiste de lutar, ficando sentado à beira do caminho, ela, a vida, vai se restaurando novamente, em outros tons e formas.
Mas, tem que ter paciência com o luto e seus processos profundamente asfixiantes e agoniados, em todos eles, o sofrer, culpa e desorganização emocional, podem se fazer presente, como nos abaixo, por exemplo:
Luto de pais que perderam seu bebê, ainda na barriga da mãe.
Luto pelo enfrentamento de uma doença, ou trauma incapacitante.
Luto por amor não correspondido.
Luto por um filho desaparecido, ou morte de ente querido.
Luto da separação de amantes.
Luto pelo desemprego, ou aposentadoria.
Luto pela migração geográfica, por fatores não desejados.
E por aí vai. Na escala de luto, não há luto menor ou maior, embora alguns estudiosos do tema adorem categorizá-los assim.
Eu creio que para quem está enlutado, como meu cliente, o dele será sempre o maior.
E, não há receitas fáceis. Não há autoajuda que dê conta.
Amigos ajudam, apoio psicológico também, chá de camomila, reza, malhar, viajar, meditar, etc.
Mas o luto é amigo do tempo.
Ele pede um tempo para se recolher em si mesmo. Ele pede uma profunda pausa, quase que colocando a pessoa em “Standy By” .
Afinal, que passou por um desse processo de luto sabe que é como uma quase-morte, ainda vivo.
Mas, o tempo opera milagres. Assim como a fé e amigos, o tempo atua nas profundezas do luto, diminuindo sua intensidade mórbida.
Ele, o Senhor do Tempo, vai remodelando o luto,
transformando-o em algo pelo menos aceitável, mesmo que dolorido.
Em algo que não sequestrará toda a vida do enlutado, tirando-lhe energias para tocar novos ou velhos projetos, e até a rotina do dia a dia.
Com compaixão, falei ao amigo que ele precisa deixar o rio correr sozinho, não o apressar.
Precisa entender que muitas rotinas e hábitos ficaram impregnadas até o talo em seu corpo, e que doentio seria se ele não estivesse sentindo nada.
Ele olha para mim com olhos suplicantes, e pergunta quando ficará bom, qual dia, mês e ano?
Digo-lhe, que não sei, mas que se ele fizer como aquele ciclista, no futuro estarei cruzando por ele, que mesmo ainda decepado, sem um membro que o luto levou, já consegue ânimo para pedalar, numa quinta qualquer, sem dever nada aos menos amputados que ao lado dele caminham. Aliás, creio que ele está pedalando com um sorriso enorme no rosto, o sorriso que só sabe do que falo quem já passou por um perrengue na vida e tempos depois conseguiu se recuperar, retomando o curso e fluxo da vida.
Sem se cobrar ser forte, mais do que o necessário, sem ter vergonha de chorar, pedir ajuda, desabafar por mil vezes, sobre o mesmo tema. Não adianta apressar o tempo, e cada um tem o seu próprio relógio interior do tempo que para ele será necessário. Não há comparações em tempos de luto.
Mas, há de se evitar ficar criando o luto numa gaiola, dando-lhe comida, remédios e proteção, como a um animal de estimação, correndo o risco de ir habitar nessa mesma gaiola, e dela será bem mais difícil de sair.
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Obs: Na foto Um atleta famoso que sempre pedala forte em todas as trilhas e competições, mesmo com uma perna só, é Alarico Moura, o Alá. Depois de ter uma das pernas amputada há 30 anos é ele foi conhecer o prazer de pedalar e o próprio potencial. Descobriu também que ele poderia ser (e, de fato, é) um grande artista plástico. Veja em:

Alarico Moura - Clique aqui!

Futuro, onde anda você que não chega logo?

Se tem algo que mobiliza e canaliza a energia emocional do ser humano, quase que vampirizando-o, é a espera por um resultado que poderá mudar sua vida.

Imagine, a espera por notícias de parentes, que ficaram sem comunicação, após algum desastre natural na região em que estavam.

Imagine a espera pelo dia em que sairá o resultado de um exame de saúde, cujo diagnóstico poderá alterar profundamente a natureza das coisas e da vida. .

Imagine jovens namorados esperando que a menstruação dela, finalmente chegue, afastando o risco de uma gravidez não planejada, com toda mudança que dela virá.

Imagine a espera pelo resultado de um concurso, uma seleção. 

Imagine, imagine, imagine...

Todas essas esperas têm algo em comum: elas possuem uma data limite no futuro, para que seja "sim", ou "não".

São esperas para as quais não cabem um "talvez".

Elas têm prazo de validade futuro para ocorrerem.

Mas, parece que o tempo, esse ardiloso objeto do desejo de muitos, quando não os têm, e desperdiçado por muitos, quando os têm de sobra, vinga-se do futuro da espera, eternizando o presente.

E as horas se arrastam, e o objeto esperado invade tudo, tira a força para tocar outros projetos, anestesia sentimentos, e coloca o ser esperante no modo "pause": para tudo que não diga respeito à coisa esperada.

Ela, a coisa, vira tema de inúmeras pensamentos, de previsões - ora otimistas, ora trágicas, ora catastróficas, ora vigorosas.

E a emoção positiva vai sendo drenada. A alma cambaleia, o corpo fadiga-se, tudo parece que não acontece, impregnado pelo excesso de ansiedade, temor e estresse, o corpo produz mais e mais o hormônio Cortisol, que só agrava a situação.

Ontem atendi um caso assim.  Ele espera uma decisão para início de setembro. E se consome, em aflições e preocupações antecipatórias. 

Também já vivi as minhas. Os meus "imagine". E sei de onde meu paciente estava falando.

Compreendo-o profundamente e tenho uma intensa compaixão de sua história de vida, e espera, que agora é um pouco minha também.

Bem, como não podemos antecipar o futuro, temos que aprender a beber "desse cálice" da espera, protegendo áreas que poderão servir como terapia ocupacional, apoio, ou entretenimento, que ajudarão a diminuir a percepção de que o tempo não passa. 

Meter a cabeça no trabalho, ou estudos, ajuda.  Conversar com os amigos, sobre outros temas, ajuda.  Fazer uma viagem, enquanto espera, ajuda. Orar ao bom Deus, ajuda. Encontrar um espaço de paz, em meio ao turbilhão de emoções, ajuda. Caminhar, meditar, contemplar, ajuda.  Tomar um chá de camomila, ajuda.  

Fazer um exercício de ganhos e perdas, com os possíveis resultados: caso Sim, ou caso Não, também ajuda a objetivar o futuro, veja o exemplo com o resultado de um processo seletivo:

O ganho se passar na seleção?             O que perco se não passar na seleção?
O que perco se passar na seleção?       O que ganho se não passar na seleção?

O que deverei fazer, como agir, caso uma das perdas se realizem em meu viver?

Como melhor aproveitarei o que ganharei, no caso de Sim, ou Não, para recuperar as forças e prosseguir lutando pelos meus sonhos? 

Mas, o que fará toda a diferença é a coragem de enfrentar o que virá a ser.

É ir cultivando a coragem, caso o resultado não seja aquele esperado. A coragem de oferecer respostas  à vida, a partir do trágico resultado recebido.

Não adianta acionar o modo "Culpa", ou "Vítima". Aliás, nem adianta, nem dá mais tempo, nem funcionará. Só vai atrapalhar as respostas, deixando a pessoa se auto-flagelando, sentando à margem da calçada do viver. 

A vida pedirá respostas rápidas, pedirá força, atitudes de adaptação, de mudança. 
Compreender-se na agonia da espera, como passando por um sentimento profundamente humano, de quem ainda tem coração, é fundamental.  
Não querer antecipar agendas, apressar o rio, também!  

Afinal, o futuro será um prato servido e degustado no amanhã, porém cozido nas panelas e ingredientes do presente, e no tempo da chama.

E quem ainda não passou por alguns "Imagines", pelo coração angustiado e apertado de uma espera, ainda não sabe o que é viver!

A vida é feita também de momentos de deserto existencial, momentos de complexas dores emocionais, medos quanto ao amanhã, ansiedade por notícias boas, para as quais, só ele, o próprio tempo, dirá o que delas brotará. 

Mas,  independente dele - o Tempo, se em tudo o amor estiver presente, ele, o próprio amor, se encarregará de dar um sentido, ao mais caótico dos resultados.  

E, quem passou por essa espera sairá dela mais forte,  e até mais feliz, quem sabe!

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