E por alguns segundos a vida balançou. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era como se uma onda lenta e mansinha passasse por sob mim, e meu apartamento estivesse numa boia de mar.
Naqueles poucos segundos, conectei-me a uma força enorme, vinda das profundezas da terra, que com magnitude 4,0 atingiu Brasília em ondas sísmicas, oriundas de um terremoto na Bolívia.
O lustre da sala tremeu, como que a me saudar.
Estava no sexto e último andar de um prédio da SQS 205 Sul, em Brasília, e digitava um texto sobre a importância da liberdade, quando fui tomado dessa súbita emoção. Na hora pensei que estava tendo um desmaio, segurei-me na mesa. Depois, vi que o lustre da sala estava tremendo,e as janelas estavam fechadas, afinal chovia fininho.
Era um tremor de terra, pensei. Ou uma forte ventania. Fiquei uma fração de segundo imóvel, com medo do que viria a seguir.
Posso nunca ter visto um vulcão, ou os flocos da neve, ou até mesmo a beleza de uma geleira... mas das forças da natureza senti o balanço da terra, aos meus pés.
Naqueles segundos, confesso-lhes que não me veio a mente arrependimentos a arrepender, nem velhas mágoas não resolvidas, e ainda rendendo na poupança do coração.
Só me veio um único temor, partir sem dizer que amava aos meus. Mas, como tinha estado com eles recentemente, estava tudo ok.
Refeito do cagaço, liguei para a portaria e o Cláudio me disse que muitos desceram correndo as escadas, e por ali estavam.
Decidi ficar em casa mesmo. Botei um cafezinho pra fazer, uma boa música na radiola, e continuei o texto que escrevia, sobre as prisões que acabamos nos metendo na vida.
Um texto de uma mãe que voltava para a cadeia, vítima de uma uma prisão injusta por uma calúnia e armação, após os dias de Páscoa que passou com seu filho de 9 anos, cortava meu coração. Como a liberdade é um bem tão precioso, principalmente quando se lhes priva o amor.
Um outro relato de um pai, sobre as besteiras que seu filho anda fazendo, pelo excesso de álcool que vem consumindo, quase que diariamente, emocionava-me. Aquela luta daquele pai, do alto de seus 75 anos, para resgatar seu filho é um manifesto à liberdade.
Isto sim são terremotos. Terremotos emocionais que levam toda a família a estremecer junto.
Quem tem um(a) amado(a) preso, fica um pouco preso também.
Quem tem um(a) amado(a) doente pelo vício, acaba adoecendo um pouco também.
Botei uma xícara de café, e fui esperar um possível novo abalo vendo as plantinhas da varanda do quarto.
Eis que um beija-flor aproxima-se e beija as flores violetas que crio na sacada.
Ele nem reparou em minha presença, nem tampouco das prisões a que eu evocava, e num show de bater de asas mirava seu bico para cada vulva daquelas florzinhas, beijando-as com prazer e alegria.
Entregues ao momento estavam aquela flor e aquele pássaro. Um completava o outro.
Esqueci os tremores, esqueci as injustiças dos Homens da lei, esqueci a besteria de arruinar a vida com drogas, acordando pior do que ontem, e a cada amanhã, e deixei aquele passarinho entrar em meu ser.
Ele rodopiava. Ora mirava nas florzinhas que estavam mais abaixo da copa da plantinha. Ora nas que estavam ao lado. Ora nas que estavam acima.
Nenhuma delas ficou sem seu beijo de amor, que desafiava a natureza das coisas, dos dias, das pessoas e dos corações.
Creio que esse beija-flor que cumpre sua missão, de ao se alimentar polinizar florezinhas pelo beijo, é a expressão da maior liberdade a que possamos almejar.
Creio firmemente que ser livre é amar. Uma mãe que ama seu filho, ao dele se despedir para voltar às celas, não está presa.
Um pai que chora por seu filho que não consegue vencer o álcool, não está preso a esta sina e saga.
O amor que eles expressam é o mesmo do beija-flor, que alheio aos tremores nas árvores, prédios e pessoas, aquele que assustou a tantos naquela manhã, continuava sendo belo e grande.
O amor não nos deixa desistir diante dos tremores que a vida nos dá.
O amor nos impulsiona ao impossível, nos torna imortais, nos faz depositar nosso melhor pólen naquele que é o sujeito de nosso amor.
Como aprendi com meu pequeno JG, o amor nos torna lendários, no sentido de eternizar raros momentos, tais quais as cartas lendárias de seu álbum de figurinhas.
Temos uma força enorme dentro de nós que nos impulsiona ao outro, em todas as formas de amor, inclusive na solidária empatia junto aos mais necessitados.
Falei de dois relatos de prisão que tive, nesse final de semana, e da liberdade do amor de seus envolvidos.
Também tive um relato que muito me comoveu nessa Páscoa, finalizando essa tríade a que compartilho.
Meu sobrinho, o Artur, aluno de medicina, participou de uma missão, no estilo Médicos Sem Fronteiras, numa cidadezinha do Tocantins.
Ele veio diretamente da rodoviária, para o almoço de Páscoa do domingo, recém-chegado dessa missão.
E nos contava o que puderam fazer junto às populações muito carentes e humildes. Cada caso que resolviam, era motivo de orgulho para todos aqueles voluntários, tão jovens.
Mas, cheios de idealismo, de amor ao próximo, de vontade de fazerem com esse mundo algo melhor do que com ele encontraram.
Todas as formas de amor, e de amar, são expansão de nós mesmos.
São libertadoras.
Desafiam o impossível.
Criam possibilidades.
Confrontam a natureza das coisas a que muitos teima em acreditar que: "são como são, não mudam".
Quem ama revoluciona ambientes, pessoas, destinos e a si mesmo.
Elas são fontes de propósito.
E, este talvez seja este o maior apelo da Páscoa: lutar pela libertação dos cativos, e com a força do amor. Não desanimar da missão de beijar as flores, de esperançar outras vidas em pólens vadios, mesmo em meio aos tremores do arriscoso e fecundo processos de existir.

Um lugar chamado Casarão do Jabre

"Por onde devo começar a contar uma história?"  É a primeira frase da música Love Story.

E é assim que me sinto, ao acordar com o coração encharcado de amor, e exalando saudades, após uma breve temporada com meus pais, na Paraíba.
Esta viagem, ficamos pensando nela, após uma outra que fizemos, na ocasião de meus 53 anos em outubro.
Voltávamos do Sertão do Rio Grande do Norte, terra de minha mãe, e ao adentrar na Paraíba avistamos, ao longe, as antenas sobre o Pico do Jabre, vistas das imediações de Patos-PB.
Mamãe queria ir lá.
Contudo, o calor era inclemente, e estávamos exaustos, ao fazer um bate e volta por Caicó e Serra Negra-RN, saindo de Campina Grande-PB.
Então, papai e eu, dissemos em coro que voltaríamos ali, para levá-la para conhecer o Pico do Jabre, e na volta daríamos uma passadinha por Patos-PB.
Sabiamente, ela deu de ombros e acatou nossa decisão.
Dias desses me peguei planejando essa odisseia em direção ao Pico do Jabre.
Acessei sites de viagens, e descobri um hotel que ficava bem próximo dele: "O Casarão do Jabre".
Fiz as reservas e passamos a planejar o melhor roteiro de acesso até ele, saindo de minha cidade natal, o que dista uns 200 KM, sertão adentro.
Saímos de Campina umas 8 da manhã, já com minha tia Lurdinha (84) que se agregou ao grupo.
Ao descer a Serra da Borborema, e ingressar no Sertão, notamos que algo estava diferente de seis meses atrás.
Estava tudo verdinho. Aqui e acolá cruzamos com pequenos açudes de beira-de-estrada todos com água, de chuvas recém-caídas.
Abrimos os vidros do carro para sorver o perfume da Caatinga, quando floresce, após as chuvas.
Em dez anos de seca inclemente, talvez muitas daquelas flores só agora estivessem sendo paridas pela mãe natureza.
Aprumamos o carro em direção à Taperoá, e logo em seguida Matureia, cidadezinha de 6.000 habitantes que fica na base da maior montanha da Paraíba, o "Pico do Jabre".  Jabre significa abismo.
No caminho, paramos para comprar umbu, daqueles docinhos de uma boa safra, e a festa foi completa.
Mas, o encantamento era olhar o verde. Engraçado que quem sempre o vê não percebe mais a sua beleza. Só olhares cinza, marrom e da cor de terra vermelha podem realmente apreciar o verde das matas e o azul das águas.  Vez por outra é preciso desassossegar o olhar, desacostumando-o às rotinas das coisas sempre vistas
Para ele voltar a perceber como elas ainda são belas, e estão ali pertinho, encobertas pela névoa da indiferença, que sobre elas precisa se dissipar, para novamente lhes valorizar.
O verde no Sertão que contemplávamos, em silêncio reverencioso, fazia parte desse momento em que só damos valor a algo quando temos a consciência que nem sempre o teremos por perto novamente.
E nós apreciávamos.
Passavam por nós revoadas de pássaros, voltando de onde um dia migraram. Algumas garças e patos selvagens davam o ar da graça, tornando mais expressiva ainda as composições da água, verde, rochas, cactos, e agora eles, vidas que ali teimavam em voltar.
Já era por volta da 11hrs quando ao longe vislumbramos uma cena idílica. O estonteante Pico, e o Casarão do Jabre, tendo à sua frente um enorme barreiro (açude) de águas virgens, das primeiras chuvaradas em tanto tempo.
Adentramos no estacionamento do Hotel Casarão do Jabre, e uma gostinho de casa de avôs nos encantou. Lá fora, esperando-nos na calçada, estava Dalvanete Dantas, proprietária do hotel, museu, recanto cultural, restaurante e imensa coleção de plantas que cultiva, com suculentas de todos os tipos e belezuras.

Ela foi logo nos abraçando, nordestinos gostam de abraçar, e dizendo:

"Me chamem de Dalvinha".

Entrando no recinto, um som baixinho de violão tocava Cinema Paradiso. Pensei, não é sorte, é graça! Amo essa música.

Mamãe enlouquecia com o mói e ruma (muitas/quantidade) de plantas que via.

E foi logo dizendo, têm mudinhas pra nós.
Dalvinha sorriu e disse: não se preocupem, todas sairão daqui com mudinhas de plantas.
Eis que chega o Eduardo, o excelente Chef do pedaço, trazendo caipirinhas e uns petiscos de bode,  que as citei numa das trocas de email que fiz com o local, mas que jamais pensei que eles se lembrariam. Afinal de contas eu disse tirando onda, numa das trocas de email, quando ela perguntou-me: " O que posso fazer para recebê-los bem, de que necessitam? Falei que era só nos esperar com caipirinha, bode e mudas de plantas para mamãe, e estria tudo certo. rsrs.

E, ela lembrou de tudinho, num email de mais de 15 dias atrás da data de chegada.

Entrei na sala de estar do Casarão, um enorme saguão onde funciona o Restaurante, com um uma palco estilizado nos fundos, usado em shows e manifestações culturais de artistas da região que incentiva suas apresentações, como repentistas, emboladores de coco, sanfoneiros dos bons e tudo que exale poesia popular.

Papai foi visitar as salas de museu das coisas do nordeste e suspirava de emoção. Encontrou-se com vários objetos dos tempos de sua infância, e com gosto ia me explicando o sentido de cada um deles, sempre começando com a charada: "Sabe pra que é isso?". eu não sabia, e ele se regozijava me ensinando qual o valor e uso daquele objeto, em tempos tão difíceis para o sertanejo, no século 20.

Mamãe e tia Lurdinha, que a esse momento já tinha provado de minha caipirinha e gostado, percorriam os enormes jardins, um verdadeiro horto, com todo tupo de planta ornamental que venha a imaginar.

Ouviam-se os suspiros de exclamação delas.

Belisquei-me para acordar, afinal de contas aquilo ali só podia ser um sonho.

Boa musica, um açude na frente, um morro ao lado, um pé de umbu carregado nos fundos, museu, palco, jardim, e a doçura de Dalvinha, a atenção de Eduardo, o jeito de querer nos agradar de Denise e Raimundo, os camareiros do hotel,  não podia ser realidade.

Então, passado as visitas percebemos que estávamos brocados de fome, e almoçamos como reis, já com a presença da Dalvinha em nosso grupo.

Era galinha caipira, arroz de festa, bode guizado, farofa de pra que isso, suco de umbu, caju e laranja, e uns doces amostrados de tudo que é bom.

Adotamos a Dalvinha, ou ela nos adotou, desde aquele almoço.  Foi amor á primeira vista.
Dalvinha é um poço de generosidade, sabedoria, doçura, atenção, gentileza e respeito a todos. Temos muitas outras cenas com ela, por exemplo de quando ela nos chamou para conhecer a fazenda de sua mãe, ou a Pedra do Tendó.
Ou de quando via lugares bonitos que estavam fechados, e dizia: "Vou falar com fulana(o) que ela (e) abre pra nós". Uauu!!!

Além disso, é uma ativista ambiental e divulgadora cultural. Ou seja, tudo de bom!

Agora éramos cinco, em nosso time. Jogando no ataque, com seus 84 anos estava minha tia Lurdinha.
No meio de campo, trocando uns passes, meu pai Evandy e mãe Denise, com seus 80 e 79 anos. Na defesa, Dalvinha com seus 71 anos. e no gol, eu tava ali a postos, com meus 53 anos.

Fomos conhecer o chalé das meninas, e o nosso, que ficava ao lado. Um chalé encantador, com redinha na varanda, e bem amplo, acomodou minha tia e mãe como rainhas, o que elas são.

Guardamos as malas, e meu povo foi descansar um pouco.

Eu fui tomar banho de barreiro. Uma experiência única. Encontrei logo, numa de suas margens, um melhor acesso e por ali adentrei naquelas santas águas. Delícia.
Não era água de poço, mina, fonte ou rio. Eram águas captadas somente da chuva.

Olhei no relógio, eram 15hrs, ainda tinha uma hora de banho, até subirmos ao Pico, uma vez que o sol no nordeste se põe as 17hrs.

Mirei o olhar para a margem, pois algo nela se mexia esvoaçadamente. Eram borboletas pretas, castanhas, brancas e laranjas. um mote delas. Elas fizeram daquela margem um ninhal.
Aproximei-me com calma, e fiquei um tempão contemplando-as, de dentro da água.
Apurei o ouvido em direção a uns grasnados, e vi um casal de pequenos patos silvestres nadando no barreiro. De onde eles vieram?  Não sei. Só sei que eles estavam muito felizes. Pelos grasnados percebi que estavam namorando. E, ali formariam uma família, esperançando a vida até onde a água existisse.

Voltei para o Casarão, caminhando uns cem metros, no máximo, e fui logo chamar o grupo para subirmos o Pico, pela estradinha de paralelipípedos mantida pelas operadoras de TV e celular que possuem antenas no seu alto.
Dalvinha garantiu que o carro subia.
E partimos nos cinco todos animados, tal qual crianças em parque de direção.
Botei uma primeira na base do Pico, na cota 0, e subimos 1.200 metros, numa estrada de perder o fôlego. De medo, e de tanta beleza que vimos.
Daquelas que só passar um carro, e se outro vier descendo, alguém terá que botar ré. O que tornava mais emocionante ainda a subida.

Dalvinha tranquilizava-nos: "Não desce carro nessa época, dia de semana e com pouco movimento".

Mamãe rezava uma Ave Maria sobre a outra. Após uns 800 metros de subida, o motor não aguentou. Parei o carro. Botei no freio de mão .Pedi que os mais novos descessem, para diminuir o peso do carro, e eu tentar vencer uma curva íngreme, esperando-os à frente.
Funcionou.
Após uns 10 minutos, para percorrer uns 20 metros andando e morro acima, Dalvinha, mamãe e papai chegam até nós, vindos com os bofes de fora.  Sorrimos muito, e demos partida no carro. E ele conseguiu vencer os 400 metros que faltavam.

Chegamos ao alto do Pico, do qual se avistam terras de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Mas, se forçar bem a vista, a depender do número de caipirinhas que se tomou no Casarão, dá pra ver  Ceará e a Átrica.

O sol foi dando seu show. As meninas contemplavam o horizonte sentadas. Papai explorava as redondezas. E eu fotografava tudo, enlouquecido com tamanha beleza.
Dalvinha deixou mamãe e tua Lurdinha em lugar seguro, e me levou para conhecer 4 quadrantes de rara beleza que só guias experientes conhecem e sabem como neles chegar. Em cada um deles, não tinha como não se emocionar com tanta beleza.

Para onde eu mirava a vista era algo que surpreendia: flores que só dão naquele alto, bromélias raras, pássaros e seus cantos,  orquídeas, rochas sinuosas e um vento fresco e revitalizador soprava minhas faces, e arejava minha vida com o perfume do sertão. Aquele que deixa tudo com um gosto de quero mais.

Voltamos para o hotel extasiados, e em respeitoso silêncio.  À noite, após um delicioso jantar, daqueles que o Eduardo prepara no fogão à lenha,  proseamos mais um pouquinho e voltamos para os chalés.
O Casarão fecha as portas 21hrs. Dalvinha, e os funcionários vão para suas residências, nas imediações.

Agora, éramos nós os proprietários do pedaço. Tudo escuro, e uma paz tremenda invadia o local, sem sem presença urbana, ou seus sons, que mutias vezes agridem o ambiente.
Dava pra se ouvir o som das rochas, negociando sua presença com os ventos.
Dava para ver o lampejo verde, dos vagalumes, a iluminar noites de breu.
Os sapos, grilos e assemelhados formavam uma orquestra, com sons em profusão vindo do barreiro.
Deitados na rede, em silêncio orante, contemplávamos as estrelas, em noite sem nuvens.
Os mais velhos foram dormir.
Fiquei redeando na varanda, até umas 2 da manhã, quando notei que é nessa hora que a natureza dorme também.
Dorme o grilo, a rã, o pato, o galo e o cachorro que longe falavam.
Dormem as pedras, dormem as plantas. Dorme até o vento.
E, é quando todos os sons se calam que podemos finalmente ouvir o som de nosso coração.
Aquele que diz, como seria bom se pessoas que amamos pudessem viver o que estou vivendo!
Pelas seis da manhã, acordo com cheiro de lenha crepitando. E um novo dia está pronto para acontecer, com todo o seu esplendor novamente.


Para não dizer que não falei em sementes e sal. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Nunca esqueço alguns almoços celebrativos de quando eu trabalhava na BBTS (BB Tecnologia e Serviços), nos quais saíamos tal qual uma manada esfomeada, e feliz, por ter acontecido algo legal no mundo do trabalho. E era preciso comemorar coletivamente aquele gol.
Nestas ocasiões, geralmente optávamos por um restaurante que ficava a uma travessia de nosso prédio, na 508 Norte, aqui em Brasília. Aprumávamos o faro em direção ao Xique-Xique, nosso vizinho de avenida, situado do lado de lá. Lá chegando eu pedia o meu prato predileto: carne de sol, com feijão de corda, e farofa d´água. Um prato de comer ajoelhado, de tão bom.

Lembrei que esse prato só foi possível, com o domínio da arte de semear e de salgar a carne, consideradas a maior revolução no modo de vida nômade da Humanidade, no seu processo de produção coletor-caçador, há 10.000 a.C e 2.000 a.C respectivamente.
Então, com o sal e as sementes a revolução se fez. O excesso de proteína animal, numa determinada época do ano, poderia ser guardada para tempos futuros, com o uso da salga. E as frutas, cereais, legumes, tubérculos e vargens podiam ser plantados, em períodos do ano mais favoráveis, criando com sua safra as condições necessárias para que o Homem finalmente se fixasse em algum lugar, e ali se estabelecesse como vivente, e não mais como sobrevivente - que migrava de lugar em lugar para coletar e caçar.
Entre uma garfada e outra, pensei em tudo que nos ocorre, em nossa saga de existir, que pode nos tirar dessa condição de nômades de nós mesmos, de eternos sobreviventes, e nos fixar como viventes. Tudo aquilo que pode nos ajudar a desfazer as malas emocionais e deitar sobre a terra alicerces bem fundamentados de coletividade.

Se para o Homem Neolítico, a revolução foi possível com o domínio das sementes e do sal, para o Homem da pós-modernidade, nesse Séc. XXI que mal estreia, a revolução se dará pelo domínio do cultivar de emoções positivas, e do salgar a vida com o sal dos valores.
Acredito que após nossa saga de mais de 12.000 anos, retornamos ao período pré-neolítico, e por aqui impera novamente o reinado dos nômades, com seus caçadores tecnológicos de modernidades líquidas e com os coletores de pequenas felicidades alheias.
Paradoxalmente, portanto, ainda faço parte do grupo dos que acredita que estamos no limiar de um transição disruptiva no estilo de vida da sociedade. Fruto do cultivar das emoções-pensamentos positivos; e no salgar dos valores universais. Expressos sempre em função da melhoria da vida do outro.

Como toda transição, quem está dentro dela nem sempre a vê, logo ali chegando, trazendo os tempos novos.
O povo do bem está se juntando, e em todo o mundo. É que estamos fartos de tanta violência e egoismo. Estamos cansados de tanta comunicação digital, que não comunica nada, pois só fala, e não escuta ninguém. Estamos cansados de tanta destruição na natureza, e despersonalização humana.
Queremos desfazer nossas malas comportamentais, e habitar num outro mundo possível.
Sim, eu sei, pode não ser coisa para esse século. Mas, virá esse dia!
Tivemos a revolução agrícola, a industrial, a tecnológica e a próxima será a comportamental.
Que não afetará o modo de produção, mas o modo de ser gente.

Nós nos perdemos como coletividade. É fato. Perdemos capital social e de humanização das instituições e trabalho. E andamos sentindo falta de algo, como o valor de trocar uma prosa, com as cadeiras na calçada da rua, ou de um abraço caloroso, para além das datas festivas.
E sentimos falta de algo, que em nossas lembranças mais ancestrais ainda mora, o valor do coletivo partilhado numa roda de fogueira, dentro de uma gruta quentinha e segura.
E é na consciência da falta que o desejo impera.
E, somos todos desejantes de tempos novos.
Eu vejo vir vindo os tempos de uma nova revolução.
Que passa pelo reeducar emocional do otimismo, da compaixão e da esperança participante; e pela práticas de valores da paz, gratidão, generosidade, honestidade e respeito.
Peguemos nossos alforjes e os enchamos com esse tipo de sal e sementes.
E, deixaremos de ser nômades de nós mesmos, sempre em busca de uma condição para ser mais feliz: um Se. Ou de um acontecimento: um Quando. Aprenderemos o valor do agora, com sua ação positiva nossa de cada dia, em ação positiva nossa de cada dia, um outro mundo está sendo erguido, silenciosamente, em gestos concretos que vão ecoar nos recantos do infinito.

O Valor das Coisas Simples do Cotidiano ( Autor Ricardo de Faria Barros)

O dia amanheceu com sabor de cafezinho na cozinha de meus pais. Com gostinho de paz e amor.
Após dois dias arrumando a mudança, com a valiosa ajuda de filhos, noras, genro e a diarista, finalmente por aqui um lar se fez.
Nada mais estava encaixotado, esperando um dia qualquer ser aberto, como minha escultura Brincante, comprada há um ano, e que morava numa caixa. Tadinha.
Acordei cedinho, a tempo de flagrar as folhas se despedindo das gotinhas de orvalho que pela madrugada fizeram-lhes companhia.
Após um saboroso café, daqueles coados na hora, saí para caminhar e explorar as imediações, da quadra 205 Sul, em Brasília, para onde mudei-me recentemente.
No caminho, deixei uma de minhas confortáveis poltronas de escritório para os simpáticos porteiros. Para que precisarei de duas poltronas?
Eles gostaram muito da doação. Falaram-me que a que usavam, naquela guarita da recepção, estava quase na pele e osso, uma verdadeira tábua, e que o presente chegou na hora certa. Um deles falou:  “E tem até recosto reclinável, e é de couro!!” 
Como são genuínas e belas as razões para ser feliz dos mais simples.
Saindo da guarita segui em direção a uma barraca de legumes, que margeava a pracinha da 205.
Ali chegando conheço o seu proprietário, o Sr. Nicácio, há 35 anos naquele ponto vendendo suas frutas e verduras.
Ele me conta que viu crianças brincando de pega-pega, por entre as estantes de frutas, que agora são “homens feitos” e que o visitam com seus filhos.
Sr. Nicácio é daqueles terapeutas de feira. Paraibano, de Pombal, ele acolhe a todos com uma mansidão e um jeito bom de ser que exalam paz no ambiente.
Passei um bom tempo sentando num dos toscos banquinhos que ele deixa para os clientes, com mais tempo, que nem eu.
E pude comprovar que aquele espaço virou local de ajuntamento social. De criação de vínculos. E ele conhece a todos elo nome. Então, ninguém compra um maço de alface e volta. Antes, proseia um pouco com ele, e com outros que ali escolhem as verduras fresquinhas.
Como precisamos, no frio concreto árido da cidade grande, de uma Kombi de frutas e verduras, pilotada pelo Sr. Nicácio, estacionada num cantinho de rua, que vira um espaço de trocas terapêuticas.
Fui vendo uma procissão de moradores se alternando, entre um quiabo, um limão e um queijo, todo fresquinho.
A todas e todos, Sr. Nicácio destinava um dedinho de prosa, com direito a tomar um cafezinho que ele traz de casa, sem custo algum para seus clientes.
Comovido por tanta paz e harmonia, naquele pedacinho do DF, fui buscar em casa um de meus livros e o presentei.
Aí, ele sacou, de uma das gôndolas, um outro livro que já tinha lido, e me retribuiu com ele, dizendo: “pode levar e ler, é muito bom”!
Voltei para casa cheio de amor no coração. Como é bom saber que temos um Sr. Nicácio por perto, a nos abastecer, muito mais de que com seus legumes e hortaliças, mas de seu melhor lugar no mundo – o seu jeito de ser: manso e espiritual. 
Talvez seja esta justamente a mística das feiras livres. Não vamos consumir nelas o que de tudo ali se vende, vamos em busca de relacionamentos significativos com os feirantes.
Coisa que está ficando rara, nesse mundo de vínculos exclusivamente digitais, e que fazem um bem danado. O outro, ali pertinho, de carne e osso, a um simples toque de afeto, importa e pode nos ser muito terapêutico.  Existem anjos disfarçados de feirantes, copeiros, zeladores, diaristas, vigilantes e até “guardadores de carros”. É só ter olhos para ver, e um coração para acolher.
Onde estarão Antônio, Arnaldo, Claudio e Nicácio para os demais moradores do bloco G?
Talvez muito nem saibam quem eles existem, conheçam seus nomes, ou quando por eles passam, reconheçam o trabalho deles.
Visto que atrás de uma farda, podemos nos tornar invisíveis a olhos criados na urbanidade, apressados e individualistas demais, para acolher o outro, o diferente daquele mundo em que habitamos.
E aí, perdemos uma oportunidade ímpar de aprendermos um pouco mais sobre a arte da sobrevivência, numa lida tão difícil como a deles, e sem perderem a esperança e a ternura em acreditar que o amanhã será melhor, e que isso também passa, nestas pessoas tão presentes, quando externam gratidão, e abrem um sorrisão ao ganharem um livro, ou uma cadeira usada de escritório.

Se o pessoal que milita e faz políticas em saúde pública soubesse do valor de um ponto de feira, como o do Sr. Nicácio, dava a ele melhores condições de ali se estabelecer.  Aquilo lá é curativo.

É preciso estar presente, para saborear o presente de viver.(Autor Ricardo de Faria Barros)

Há vinte anos que moro em Brasília e nunca tinha habitado nos imóveis projetados por Lúcio Costa, no que chamamos por aqui de Plano Piloto, com suas duas Asas que mais se parecem com um avião: a Sul e a Norte. Recentemente, mudei-me para a quadra 205, na Asa Sul, e minha primeira sensação -  ao adentrar no corredor daquele prédio de 6 andares, em direção ao meu apartamento, foi de assombro.

Mas, para se assombrar precisamos estar presentes ao momento. 

Passei por muita coisa em minha vida sem prestar atenção direito a elas.  Ansioso demais, correndo demais, preocupado demais, sem estar inteiro e completo ao momento que vivia.

E, nossas lembranças pedem presença. Sem a presença, como sentiremos a ausência delas, tempos depois, no que nós brasileiros chamamos de saudades?

Pois bem, naquela segunda feira, 17hrs, eu estava presente ao caminhar naquele corredor. Éramos só eu e a corretora, caminhando por um vão de uns 30 metros, num silêncio quase de templo sagrado. 

A parede direita do corredor era completamente fechada por uma bloquinhos de concreto vazado, que deixavam passar luz e uma gostosa brisa, compondo com seus enlaces uma estrutura surreal, que transmite uma paz muito intensa. Olhando para baixo, por entre os cubos vazados, vemos tudo lá fora, mas quem tá de fora não consegue distinguir o que se passa lá por dentro, dando um tom intimista e bem aconchegante.

O nome dessa obra de arquitetura é Cobogó, e trata-se de um acrônimo, com as iniciais dos  sobrenomes de três pernambucanos, que trabalhavam com construção civil, o Coimbra, o Boekmann e o is. 

Trata-se de uma invenção genial pra fechamento de paredes, essencialmente brasileira e premiada no munto todo, pela sua funcionalidade de fechar espaços, sem fechá-los, permitindo que o interior, pelos cobogós protegidos, fique numa temperatura amena, com boa luminosidade e seguro.

Sábado levei meu quarto filho, o João Gabriel de 8 anos, para conhecer o cafofo do pai.

Ele entrou no corredor em prestar atenção. Eu pedi que parássemos. E o ensinei que ele estava adentrando numa área premiada da arquitetura nacional, e falei sobre o cobogós. 

Até o passo dele mudou. Agora ele passava a mão na parede, olhava por entre seus furos, se apoderava daquilo que estava vivendo, da experiência de transitar por uma parede fechada de cobogós.

Quantas coisas em nossa vida as vivemos sem maiores deslumbramentos, ou encantamentos, até que alguém nos toca com o amor, com a amizade, e nos ensina o que de fato são, qual sua importância, e é como se abrissem novos olhos sobre a mesma. E, nunca mais seremos os mesmos. 

Eu sabia do cobogó pela Denise, minha cliente de coaching, que numa das sessões me deu uma aula sobre aquela peça estrutural. Mas, nunca tinha vivido a experiência de caminhar por eles. Eu sabia no plano teórico. Agora, eu vivia o saber, tornando para mim um acontecimento.

Tenho por hábito fotografar flores, mas qual a sensação de fotografar um flor que vi num país distante, tão bela, na mão de uma pessoa amada, ao caminhar de volta para meu apartamento?  

É a sensação de se viver uma experiência, que só foi possível por eu ter prestado atenção àquela flor estranha, e incrivelmente bela, tempos atrás. 

A vida pede atenção. Pede que estejamos presentes ao momento, desligando os vários hds cerebrais que ficam processando em paralelo, enquanto estamos vivendo algo. 

Mus filhos diziam uma coisa que agora não mais me orgulho dela. Sempre que levavam amigos lá em casa, e eu ficva pilotando os comes e bebes, algum dos amigos mais educados dizia: "Seu Ricardo, sente um pouco conosco, nós agora assumiremos a churrasqueira e as bebidas". 

Aí meus filhos diziam assim: "Papai não para, não senta, está sempre fazendo algo!"

Eles não diziam em tom de crítica. Mas, hoje vejo que muto de minha amnésia de focar lembranças era por não ter parado para degustar com calma a experiência que vivia. Sempre agitado, fazendo duas, três coisas ao mesmo tempo, sem ansioso de não dar tempo, acabei por perder tempos memoráveis, por não ter me permitido, para os temas secundários que vivia.
É até bíblico. Conta uma cena, nos evangelhos, que Jesus foi visitar duas irmãs: Marta e Maria. 
Uma delas, após Jesus entrar no seu lar, ficou lá dentro se arrumando, limpando a casa, botando lenha no fogão e mexendo as panelas, vindo de vez em quando falar com Jesus. A outra, Maria, parou tudo que estava fazendo, e ficou dando atenção pra Ele. Apreciado aquele momento, que convenhamos, não era todo dia que acontecia de Jesus entrar numa casa, durante suas peregrinações.  
O próprio Jesus, ao dirigir-se à irmã ansiosa, nos dá uma excelente reflexão: "MartaMarta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada..."

Nesse modo ansioso ligado, perdemos a capacidade de contemplar os cobogós, as flores que falam em sinais, o encontro com amigos, ou aquele pôr do sol que passa despercebido, ao retornarmos do trabalho. Sem falar naquele luar do sertão que se abre por inteiro,  numa noite de primavera, e que também não temos "tempo" para encostar no acostamento de nossa vida e contemplá-lo.

Precisamos aprender a estarmos presentes novamente, naquilo que de importante estamos vivendo, desligando momentaneamente outras janelas de processamento neurais.

Se vamos visitar um casal que teve um bebê, e se só tivermos 15 minutos para cumprir aquele compromisso, ainda assim os 15 minutos precisam ser focados naquilo. Não é a quantidade do tempo, mas a intensidade do mergulho nele, o que determinará as fronteiras de nossas lembranças.

Nunca esqueci uma pesquisa com adolescentes cujos pais trabalhavam muito, e que não tinham muito tempo com eles, ao retornarem de suas externuantes jornadas, antes deles irem dormir. 

Os jovens que disseram que seus pais passavam mais tempo com eles não havia nenhuma relação com a contagem do tempo. Assim como os que percebiam os pais mais ausentes também.

Tinha pais que passavam duas horas líquidas no lar, com os filhos, à noite, e os filhos os percebiam como ausentes. 

Tinha pais que passavam apenas 30 minutos, chegando em casa após o terceiro turno, pegando os filhos já tomados banhos e de pijama.  E ao perguntarem sobre a percepção de tempo que os pais passavam com eles, estes jovenzinhos diziam ser suficiente, sem bom, ser muito tempo.

É que naqueles 30 minutos os pais eram 100% presentes aos filhos. Contavam histórias de seus trabalhos, ouviam a dos filhos, penteavam os cabelos deles, e tinham rotinas sacramentais de cuidado para com eles, antes deles irem dormir, como um beijo na testa, ou uma música que cantavam. 

Percebem que o tempo pede a educação de sua presença? O tempo é com um alimento que se evapora em nossas mãos, e que só fica nelas caso o degustemos com sabor. O tempo pede o sabor das coisas, pessoas e realidade.  Pede, para ser bem vivido, foco no que se faz, contemplação, vazios, desligamentos de ansiedades e preocupações que tiram o presente do presente. 

Corta a cena e escuto crianças brincando no corredor dos cobogós. Logo enturmo o João Gabriel com elas e aquilo lá vira uma festa. Eles brincam de polícia e ladrão. JG é a polícia. O Davi, o Artur, O Lucas e A Maria são os ladrões.

Mas, JG não contava com uma estratégia dos "ladroes, para dele fugirem. Eles escalaram os cobogós. Aposto que os criadores dos cobogós também. E a pequena Maria correu do JG também em direção á escalada dos mesmos.

Como percebi esta cena mágica? Estando presente ao meu filho, degustando os abor de vê-lo brincar com os novos amigos. 

Estar presente é o cobogó de nossas emoções. Nos mantém arejados, protegidos do sol e seguros, para nos envolver plenamente com o que vivemos.

Nos mantém confortáveis diante do outro para acolher sua grandeza, sua história de vida, seu momento único que generosamente nos doa. 

Paredes não são cobogós. Elas fecham espaços. Paredes não permitem os fluxos.  Não sem razão a moda agora é abrir os vãos e dividir os espaços com as coisas, resgatando inclusive a cozinha para a área social. Tudo vira social. 

Precisamos quebrar nossas paredes emocionais, substituindo-as por cobogós. Que nos darão um certa privacidade e individualidade, sem nos fechar para o outro, em nosso egoíco mundo.

Precisamos vazar as paredes de nossos comportamentos, para que o outro seja a ele permeável. Isto se faz com mais tolerância, ética da convivência e respeito às diferenças.

Precisamos arejar nossos pensamentos, tirando dele a toxidade do pessimismo e negativismos, preguiçosos em si mesmo, na sua força transformacional. 

Precisamos acumular capital tempo, com investimento no estar presente em tudo que vivemos, sendo inteiros e completos naquilo que o momento a vida pede nossa atenção, ousando parar processamentos em paralelo que só contribuirão para que os bons momentos vivido caia nos porões da indiferença.  

Sejamos cobogós para nós mesmos, para o outro e para a realidade: arejados, permeáveis, sem pegar pressão por tudo de pequenos que a rotina do dia a dia nos apresenta, e abertos a outras prumadas do olhar.  A ansiedade é o vilão do capital tempo de qualidade. Ela é como a maresia no ferro, ninguém a vê, mas seu efeito causa dano tremendo às fundações das estruturas.  A ansiedade é a maresia de uma vida plena de sentido e de qualidade. 
E é preciso muita coragem para parar processamentos em paralelo que consomem energia emocional e que tiram capacidade de apreciar o que ocorre no presente. É preciso muita coragem para erguer os tijolos da felicidade possível, pois necessariamente passarão por uma mudança no estilo de vida. E isso não é fácil.
Mas, espero que este texto possa chegar em alguma pessoa tipo a Marta, dos Evangelhos, ou tipo eu, de tempos atrás, com meu jeitão elétrico de ser,  e alertá-lo(a ) a tempo de curtir coisas legais, estando mais presentes a elas.

Manual de Sobrevivência de um Zangão Descasado (Autor Ricardo de Faria Barros)

Aprendi a ligar uma máquina de lavar. E a sacar como funciona o liquidificador e a máquina de fazer café, ou de grelhar carne, sem óleo. 
E que nunca deve colocar pano de chão junto com as outras roupas.
Nem roupas com cores berrantes, junto com as de cores tímidas.
E que elas não secam sozinhas, precisam ser colocadas num varal.
E que as camisas sociais, se colocadas num cabide, ficam melhor para serem passadas.
Nem se deve levar comida para a cama.
Aprendi que a geladeira não tem um sistema de reabastecimento próprio.
E que não adianta o que compre, ou guarde nela, algo sempre vai sobrar, azedar, ou perder o prazo.
E que cabe a você fazer esta classificação. Eles não sairão sozinhos da geladeira, mesmo sendo um aniversário que ali completam.
E que as forminhas de gelo não se enchem sozinhas, após serem servidas em sucos e uísques.
E que existe uma técnica de propagar a vida das comidas que é botar as bichinhas para morarem no freezer
Aprendi que as plantas não se molham sozinhas.
Que precisam que delas se retirem as folhas secas e flores.
E que gostam de sol e vento, nem sempre na mesma ordem.
Mas, que gostam também de sombra e calmaria, e que cada um tem um temperamento.
E que não adianta comprar aquela flor linda, aquela touceira maravilhosa de flores, elas vão murchar, e não vão ficar como na loja do floristas, e não adianta se culpar.
Aprendi que a casa não é auto-limpante.
Todo dia tem pó caindo em cima de tudo, mesmo que não veja, mesmo que feche tudo, ainda assim o desgraçado estará ali, infernizando tua vida.
E que as frigideiras, após uma boa fritada, precisam ser colocadas em água fervente, para melhor serem lavadas.
E que as roupas não voltam sozinhas para as gavetas, nem tampouco os livros, e todo tipo de tranqueira que se manuseie.
E que antes de se despedir dos amigos, que vieram te visitar, um mutirão de limpeza cai bem.
E que as janelas precisam ser fechadas, em caso de chuva, e que precisam ser abertas, em caso de sol.
E que o ralo da pia não é como um saco sem fundo que cabe tudo que ali se jogue
E que os pratos, da comida que se come, amanhã estarão sujos ainda, mesmo que use a técnica de enche-los com água, com preguiça de lavá-lo no mesmo dia. E, infelizmente, se acumulam.
Aprendi que não terá ninguém dizendo que já é hora de ir dormir.
Ou de parar de beber. Ou de me agasalhar, pois fará frio.
Nem haverá passos no quarto te acordando, ou o som do chuveiro denunciando que alguém já tá desperto.
E que não adianta, sou eu quem precisa se lembrar de tomar os remédios.
E que é de bom tom limpar os restos de coisas que ficam nas beiradas do vaso, enquanto frescos. eca.
E que as luzes não desligam sozinhas, e que por melhor que seja a diarista, muita coisa precisará ser feita nos intervalos de sua visita.
Mas, sobretudo, aprendi a me amar e a cuidar de mim.
A ouvir os sons do infinito, tocando nas cordas de meu coração.
A desafiar a natureza das coisas reinventando-se um pouco, a cada dia, e para melhor.
Aprendi o valor de acordar com um "bom dia, lindo dia".
De um cafezinho e prosa com o amigo zelador.
Aprendi o sentido de contemplar o entardecer, com seu pôr do sol em tons avermelhados.
E que as pessoas estão ali pertinho, a um clique, e que não existe a menor condição de ser solitário, mesmo estando sozinho. E que isso também pode ser muito bom.
Aprendi que não precisaria estar descasado para já ter aprendido tudo acima, e que era só ter participado mais da vida do lar, assumindo outras tarefas, diminuindo a influência do machismo que existia em mim.


Cartas ao JG - Não Saia da Pista! (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)


Estávamos zanzando no shopping, naquela tarde de sábado, quando tu avistou uma pista de patinação e teus olhos faiscaram.
Perguntei se tu queria ir. Tu me olhou, entre empolgado com a novidade, e assustado com os tombos que via de quem nela se aventurava, mas deixou-se conduzir pelo espírito que nos motiva a fazer algo novo, a desafiar nossos limites.
E tu foi, e por uma hora, deve ter levado uns trinta bons tombos.  Algumas pessoas que olhavam os aprendizes de esquiadores caindo, riam de tu.
Mas, tu as ignoravam, solenemente.
Sem se deixar abater por aqueles risos, que mangavam da queda dos outros, tu se levantava, segurando-se nas barras laterais, e começava novamente a patina no circuito retangular.
Sempre que passava por mim parava, todo orgulhoso, e me perguntava se eu tinha visto o que tu tinha feito.
Nunca me perguntou se eu tinha visto tuas quedas.
Sempre se eu tinha visto que tu conseguira fazer a curva, sozinho, sem segurar nas barras, ou que tinha conseguido uma volta inteira, sem cair.
Eu aprovava teus esforços e o incentivava a continuar desafiando limites, e superando-se a si mesmo.
Numa de tuas quedas, o pequeno Mateus te deu a mão. 
Foi uma cena linda. O Mateus já tinha mais horas de vôos e de quedas, e embora menor que você, ele parou para lhe socorrer.
Depois, você deu a mão a ele e ambos passaram a patinar de mãos dadas, como velhos amigos.
E seu equilíbrio melhorou muito. Como precisamos de Mateus em nosso viver!
Aí teve uma hora que foi o Mateus que levou um tombo feio, numa pirueta que ele fez para te mostrar com era. E lá foi tu, dar a mão ao Mateus, e ambos caíram no chão e ficaram sorrindo, tirando o excesso de gelo que grudava nas roupas e luvas.
Eu olhava para aquilo tudo embevecido.
Tu estava dando uma aula sobre a arte de viver.
Que na vida é bem assim mesmo. 
Não tem almoço grátis.
Que temos que nos esforçar, ter disciplina, treinar, e aprender a cair e a levantar, e muitas vezes.
E não desistir do jogo, antes do apito final.
Tu tinha 60 minutos de pista, e usou todos, sem desistir pelo meio do caminho. 
Sabe filho, durante tua vida mais adulta, pois que agora tu só tem 8 anos, esta pista de patinação vai aparecer em mutias situações que enfrentará.
Daquelas que um misto de vontade enfrentar, e o medo de não ter êxito, ou se machucar, estarão presentes.
Para enfrentá-las, faça como fez nesta tua primeira vez numa pista de patinação.
Não desistindo de teu sonho de patinar.
Vai ter coisas chatas que lhe acontecerão, tal qual os tombos que levou. Vai ficar uns tempos de molho, desorientado com o que houve, vai olhar para os lados, até envergonhado, ou sentindo-se culpado, ou impotente. 
Nestas horas, tenha calma. Vá se reerguendo devagarinho. Busque apoio. Não banque o fortão, de querer resolver tudo da vida sozinho. Busque ajuda, tal qual aquelas barras de ferro que nelas segurava, ao lado da pista.
Vai ter acontecimentos que vão querer que tu abandone o jogo, antes de terminar o tempo contratado. Vão soprar na tua cabeça de que tu não é capaz, que não dará certo, que tu é isso, ou aquilo, e que é melhor desistir. Besteira. Tu ainda tem mais minutos para tentar novamente.  Já pensou se tivesse desistido nos primeiros 30 minutos? Ou ficado chorando caído no chão? Dizendo que não conseguiria?
Caminhe mais um pouco, mais uma légua, sempre que quiser desistir de algo. Lembre-se da pista de patinação que tu tinha 60 minutos. Então, não desista nos 30 minutos. Vá até o final do tempo de teu viver. 

Estas situações vão exigir renúncias, esforços, novos aprendizados, e podem até criar machucados em teu ser. Mas, repito-lhe, prossiga!
Encare-as como encarou aquela pista de patinação.
Não escute os que ficaram rindo de ti. Os que vão querer te diminuir, ou que ficarão rindo de teus tombos, sem oferecerem uma mão sequer, nem tampouco um olhar de compaixão, fruto da empatia.
Não deixe que eles morem em teu coração, imobilizando-o para continuar.
Faça como fez, dê um solene desprezo aos risos de teus tombos, bata o gelo que ficou impregnado em teu corpo, e recomece.
Talvez o aprendizado maior da vida é a forma pela qual nós damos respostas á ela, e não dela esperamos respostas.
Ou seja, a forma pela qual nos reerguemos após situações inesperadas de perda, frustração, decepção chatas, ou até a nós dirigidas, e que nos machucaram, é o que faz a diferença entre uma pessoa de coragem, e um covarde.
Não desista nunca de teus ideais, objetivos, metas e sonhos. Não terceirize sua pista de patinação, para que outro patine por ti, e em teu lugar.
Tu verás que do nada aparecerão os Mateus que poderão te ajudar a enfrentar melhor as dificuldades que aparecerão.
Muitos, por já terem passado por situações semelhantes, e terem aprendido a patinar melhor, sobre elas.
Outros, apenas por serem teus amigos, e contigo se solidarizarem, ajudando-lhe a se erguer e voltar pra pista.
Não saia da pista. Não desista, ao levar dezenas de tombos. Logo, logo, dobrando a esquina do futuro, vai acontecer de tu conseguir dar duas voltas inteiras, sem segurar nas barras de apoio, e sem cair. 
É só perseverar, continuar aprendendo, exercitando, criando resiliências, que só a vida pode de fato produzir. Resiliência é um negócio que só se desenvolve nas situações tipo "primeira vez em pista de patinação". 
Mas, quando vamos passando por situações desafiadoras, e vamos enfrentando-as, ficamos com uma tenacidade bacana, para encarar outras, a partir da experiência anterior acumulada.
Ou seja, o que não te matará, te fortalecerá.

Situações como assumir uma nova função, trabalhar numa equipe cheia de traíras, ser liderado por um líder autocrático, ter dado cabeçadas no amor, ter tomado prejuízo nos negócios pessoais, ser avaliado injustamente, não ser reconhecido, ser injustamente desqualificado numa promoção, se decepcionar com algum amigo, ter as contas sempre no vermelho, sofrer alguma perda significativa, ou ter que migrar para conseguir um lugar ao sol, são algumas das situações que pedirão um investimento no desenvolvimento da competência de cair, bater o gelo, e continuar.
Situações que pedem respostas, e não justificativas.
A monitora chega perto de ti, informa que o tempo acabou. Tu me olha com um olhar de quero mais.
Tu se despede do Mateus com um abraço de irmãos de pista.
Daqueles que quem viu de longe, não teve como não se emocionar.
Não paguei mais uma hora para ti. Tu precisa aprender sobre os limites do desejo, do querer e do ter.
Combinei te trazer noutro dia, mais a frente.
E você soltou essa frase, tão linda.
"Aí poderemos pegar a Bianca (sua prima de 6 anos) e eu ensino pra ela como é..."
Meus olhos viraram uma piscina, e lembrei que tu estava querendo retribuir, com um coração cheio de gratidão, o que o Mateus fez por ti.
Então pensei, mais que uma aula de patinação, o JG teve mesmo foi uma aula de vida. 
Daquela vida boa que se tem quando um amigo nos dá a mão, para que nos ergamos novamente, sem cansar de fazer isto, a cada queda nossa.

Quem Sou Eu? (Autor Ricardo de Faria Barros)


Acredito que um beija-flor, uma borboleta, ou uma abelha, mais que se alimentarem do néctar das flores, carregam possibilidades de germinação de outras vidas, aos polinizarem esperanças, após alçarem vôos. Podemos ser como eles. Polinizadores de coisas boas, justas e éticas.
Acredito na força do nós, do coletivo, da cooperação, e da aprendizagem em redes de colaboração. Todos somos aprendentes e ensinantes de algo, a alguém. Somos inacabados, esboços de nós mesmos em permanente elaboração, e é na relação com o outro onde mais aprenderemos sobre a vida e o viver.
Acredito que o amanhã será melhor, e que o que estamos passando de aperreio, em algum momento de nossa vida, além dele também fazer parte do pacote de existir, passará.
Não acredito em muitas coisas que leio, sempre começando por: "segundo pesquisas", ou de ideologização de tudo. Simplesmente desconsidero e sigo com meus próprios hábitos. Nem acredito em receitas simples para se viver de bem com a vida. A vida de não vem com manual. E é preciso que cada um escreva o seu.
Não acredito em políticos, de espécie alguma. Sinto muito se lhe decepcionei. Mas, paradoxalmente, acredito na força do voto, e nunca vou me abster de eleger aquele que representa o projeto político em que acredito. Afina, aprendi que não elejo pessoas, e sim visões de mundo.
Não acredito que me aposentei, entrando para a inatividade. Tenho uma agenda com coisas páginas em branco, ávidas para que nelas eu coloque novos aprenderes, aventuras e experiências de vida. E me sinto um garotão!
Não gosto de desarmonia, de conflitos e desavenças. Desvio deles. Flexibilizo posições. Relevo atitudes. Engulo sapos. Para não entrar em embates estéreis, em si mesmo. Nem sempre isso é legal. Deveria ter entrado numa brigas. Mas, no balanço geral, é positivo ser assim, eu acho.
Não gosto de dividir o mundo entre quem está salvo e quem não está. Embora professe fé, convivo com descrentes, ou crentes de coisas diferentes das minhas, e numa boa. Não entendo como podemos dividir o mundo entre quem pensa, age e se porta como eu; e quem não pensa, age e se porta. Aliás, não sou bom em conta de divisão.
Não gosto de chegar atrasado em compromissos, nem de vestir um personagem para que neles seja aceito. Sou muito autentico para caber em vestes que não sejam as minhas próprias.
Gosto de apreciar o cotidiano, sou colecionador de nuvens, flores e pessoas especiais. Gosto de música, de mato, de água, de morros, de pedras, de Cerrados e Sertões com seus apelos ao deserto de nós mesmos, lugar de renovação.
Gosto de conhecer novas culturas, lugares e pessoas.Quanto às pessoas, tenho por hábito confiar nelas, à primeira vista, e já sair chamando-as de amigas. Sou facim. Qualquer dedo de prosa já me seduz e encanta. Mas, tenho um sexto sentido apurado para desviar de vampiros emocionais, ou pessoas sem caráter.
Gosto de cozinhar, receber, de debulhar umas letrinhas, de lecionar, de palestrar, de conduzir dinâmicas de grupo, de atender como psicólogo, ou coaching. Gosto de fotografar, e tenho umas estranhices como colecionar discos de vinil, ou objetos antigos, o que dá no mesmo.
Tenho 4 tesouros que a vida me deu: Tiago, Priscila, Rodrigo e João Gabriel, meus filhos, pelos quais vale a pena viver! Este sou eu, e a Ânimo Desenvolvimento Humano é a minha quinta filha.

Cartas ao JG - Brinque Carnaval (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel)

Sabe filho, ontem vi a foto da pequena Lis, tua amiguinha e vizinha, indo toda produzida para um baile de carnaval infantil, tutoreada por minha afilhada de fogueira, a Catarina, sua mãe.

Era terça gorda de carnaval, e Lis seguia para sua matinê, num evento no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília.  A cena que vi detonou lampejos de memórias em meu coração. Lembrar-se tem se tornado mais difícil, por isso escrevo para você. Para não esquecer de me lembrar, jamais. 

Uma das compotas afetivas mais doces de minha infância, foi produzida aos 9, 10, 11 e 12 anos quando viajávamos para o sertão do Rio Grande do Norte, terra de minha mãe, e no sítio Barra do Câimbra, entre Caicó e Serra Negra do Norte, passávamos o carnaval com a primarada.  Eu e teu tio, o Guga, éramos os únicos primos entre as primas: Tatiana, Elvira, Ana, Digna, Rosa, Tereza e Elisabeth. E tudo era tão alegre, inocente e bonito. Num tempo em que ainda não se erotizavam as relações afetivas.
Mamãe, tia Lila e Tia Laurita passavam as manhãs daqueles dias preparando nossas fantasias, que seriam usadas nas matinês dos clubes das cidades vizinhas, ou em desfile de Corsos (pessoas que desfilam dançando em cima de carroças, tratores, caminhonetes e caminhões, como numa carreata).
E toda a família participava. Era um tal de lantejoula pra cá, colar e turbantes pra lá, e todo tipo de adereço que aparecia na hora, com direito a elaboradas maquiagens.
E tudo era festa. 
As boas festas já começam dantes.
Mamãe e tia Lila faziam as vezes de Catarina, e nos levavam até os bailes infantis, para nos proporcionar aquele momento mágico.

Numa das vezes em que deles voltávamos, não havia mais como chegar no sítio, pois caíra uma tromba d´água, e já era noite.
A estradinha de terra era cortada por um rio seco, que encera bastante, e ficamos ilhados, naquele breu da noite. O jeito seria dormir no carro, e esperar o rio baixar.
Mas, ao longe começamos a avistar umas luzinhas, uns clarões que sobre o breu da noite se destacavam.
E fomos ficando animados, seria nosso socorro que vinha vindo?
Aí apareceram do outro lado da estrada, agora cortada pelo rio, os nossos tios e meu pai, montados num trator. A cena era de filme de cinema, de tão bela. 
Eles vieram nos socorrer, mesmo sem nenhum tipo de comunicação entre nós (não havia celular), e sem saberem nossa hora de chegada. Ainda assim, eles intuíram que o rio iria nos prejudicar, em nosso retorno, e vieram nos salvar. E puxaram nosso carro com um trator.  
Naquele dia, eles viraram nossos heróis. Assim como nossas tias e minha mãe, que não poupavam esforços para nos dar o direito ao brincar.
  
Ontem, passou aqui por perto de casa um carro vermelho, com o porta-malas aberto, com caixinhas de som tocando marchinhas de carnaval,  e umas 20 pessoas seguindo-o bem animadas.

Fiquei comovido. Teu irmão Rodrigo me disse que todo ano eles desfilam, na terça feira gorda.  Por falar em Rodrigo, ele me mostrou a foto dele e de Andreza, tirada de cima do bloco Camaleão, do Bell Marques, em Salvador. 

Aqueles ali sim, sabem festar a vida.   Assim como Priscila e Hugo, Tiago e Carol, que se divertiram em blocos no Parque da Cidade.

Sabe filho meu, essa carta não é sobre carnaval. Tu tem o direito a não gostar. Embora eu tenha decidido te levar aos bailes infantis, a partir de teus 9 anos, mesmo assim tu tem o direito a não gostar.

Assim como tem direito a não gostar de São João, e suas quadrilhas e forrós. Ou não gostar das festas de virada de ano. 

Só tome cuidado em deixar de festar a vida. De tanto não gostar de brincar e se permitir fazer coisas do domínio do Homo Ludiens Demiens.

Qual lógica existe em sair entre centenas de pessoas atrás de uns bonecos imensos, subindo e descendo ladeiras? 

Qual lógica existe em se fantasiar de batman, ou a sua girl, e sair por aí com seus amados, todos posudos?

Não filho meu, não tem lógica, falando estritamente do mundo racional.

E, querer entender os fenômenos culturais pela lógica racional é pura perda de de tempo, ou manifestação da vã arrogância do saber.

Qual a lógica dos Bois de Parintins?
Da Congada e do Reizado?
Dos Ala Ursa?
Dos Casamentos Matutos?
De dar três pulinhos à beira-mar?
Qual a lógica de um ajuntamento para celebrar a festa da cumeeira, num churrasco na laje, em local sem banheiro, ou conforto?
Qual a lógica de ficar cantando o hino de seu clube, até se esgoelar, mesmo com ele já desclassificado? 
Qual a lógica de fazer um caminho de pétalas, para ela passar?

Nenhuma, ou todas. Depende do olhar que tenha, filho meu. Existe uma dimensão do olhar que é a da poesia, do ser brincante, do ser afetivo, do ser amoroso e coletivo que somos.
E, essa dimensão não cabe sua interpretação dentro da lógica formal, nem em planilhas de excel.

Nas belezuras do ser humano em seus momentos de amor, brincar, festar e celebrar a vida e o viver.

Não sem razão, uma das inscrições rupestres mais enigmáticas, que data 9.000 anos, tem moldado numa parede de uma caverna 829 mãos, ajuntadas, umas perto das outras.

Aqueles povos ancestrais nos deram uma aula, sobre a importância do coletivo, não deixando nenhuma mão de fora, da comunidade onde viviam, que ali quiseram que elas se eternizasse. 
Ao olhar para aquela pintura, na Caverna das Mãos, que fica na Patagônia -Argentina, cada um deles  se reconhecia, num nós.

Então, amado filho, essa carta é sobre a beleza de se estar juntos. Seja o que estiver fazendo. Se não gosta de carnaval, e foi com uma turma para um retiro espiritual, tá valendo.

Se não gosta de réveillon, mas reuniu tua família e amigos para uma confraternização em teu lar, tá valendo.

Só não vale o culto ao individual. 

Estar com os outros nos cura. E, tu verás, que em muitos momentos de teu viver precisará de pessoas para melhor apreciar os bons momentos que experencia. 

E é isso que as festas populares fazem, desde as quermesses de interior, aos bailes de funk na periferia, tudo que junta gente, as faz dançar, conversar, confraternizar, sorrir e brincar, ao despistar o sofrer do cotidiano, pode torná-las melhor.  

Ano que vem irei ver os desfiles das escolas de samba, ou subirei as ladeiras de Olinda, ou sairei atrás de algum trio em Salvador, pode anotar!  Mas, antes de levarei para alguma prévia por aqui, ou na minha Paraíba, tipo as Muriçoquinhas de Miramar, lá em João Pessoa, ah se vamos!

Então filho meu, permita-se a pagar micos, brincar de não saber, aprender algo novo, aventurar no desconhecido, superar medos e traumas desafiando-se a si mesmo, a sorrir com brincantes desmiolados, a celebrar tudo, inclusive o nada - só por estar vivo, e a se animar com as besteiras que falamos para fazer os outros, e a nós mesmos, sorrir, num processo de humanização tão bacana pelo qual muitos de nós se entregam quando estão juntos.  E que é nossa melhor porção da vida e do viver. O resto serão as preocupações e as decisões de qual conta poderemos pagar! 

A isto chamamos de bem viver!

Envolvimento (Autor Ricardo de Faria Barros)

Filho JG e Priscila, dentro da onda o genro, Hugo.
Era um típico de programa de família, naquele domingão ensolarado.
Reunidos, estávamos eu, três dos meus quatro filhos, minha nora e genro, além de amigos comuns.
Eu me divertia ouvindo-lhes nas suas mais diversas histórias, de um tal de Boruto à Jojô.
Boruto era a ficha na conversa do JG, com seus 8 anos, um personagem de série infantis, filho do Naruto.  rsrs
Já os filhos mais velhos conversavam sobre o carnaval no Parque da Cidade, em Brasília, seus trabalhos e projetos de vida para 2018.
E eu me esforçava para acompanhar a conversa, mesmo desligando-me eventualmente para pilotar a churrasqueira ou tirar as fotos daquela confraternização.
Tinha hora que eu fechava os ouvidos e me deliciava com o burburinho de vozes, que mais pareciam um bando de araras ou periquitos grasnentos, todos rindo e falando na mesma.
E uma sensação boa foi invadindo meu coração. Têm pessoas que tem o dom de nos reinicializar, e meus filhos são dessas pessoas.

Como é bom reinicializar, para poder de fato interessar-se pelo mundo deles, estar e se fazer presente.
Sem interesse não há conexão.  E sem conexão, não há uma linguagem afetiva comum.
Aí, o monstro do distanciamento, ou o do estranhamento, ou até o da indiferença ao outro começa a crescer dentro de nós.
Enquanto digitava essa linhas em minha cabeça, como meu processo de escrever começa, minha filha soltou um:
"Papai, agora quem está bombando é a MC Loma e as Gêmeas Lacração".
Parei tudo e exercitei o três níveis da amorização humana: interesses compartilhados, que geram conexões possíveis, que suscitam diálogos respeitosos, e que sinergicamente produzem companheirismo e cumplicidade entre pessoas.
- Filha, quem é?
Aí, Priscila(30) veio me contar que são jovens cantoras de Recife que gravaram um vídeo demo com a canção Envolvimento, e que ele  bombou no youtube. E que já cantaram até com Anita.
Soube que elas nunca tinham comido um Mac-Donalds, viajado de avião, ou feito outras coisas que o padrão social em que vivem não permite.
Gostei do nome da canção: Envolvimento.  No fundo, é isso que queremos para nós mesmos, não é?
Que as pessoas se envolvam conosco. Que ninguém nos corte ao contar uma história. E, ainda melhor, que demostre interesse pela mesma.
Nesses tempos de tantas coisas fast-food, parece que até os relacionamentos perdem capital de envolvimento.
Envolver-se seria o efeito colateral do interesse, da conexão e do diálogo entre seres
Não nos envolvemos com o outro sem a empatia. É impossível.  E não falo em pseudo-interesses, almejando algo em troca.  Falo no interesse gratuito, de se permitir que o outro ocupe um dos cômodos de nosso viver, acolhendo-o em suas narrativas e histórias de vida. Por mais estranhas que pareçam ao nosso mundo, como Loma e Boruto pareceram ao meu.
Engraçado que o que falo para vocês e para mim, trazendo meus filhos, uma palestrante do Ted Talks, a Celeste Headlee coloca em alto e bom tom, ao versar sobre as dez regras para conversar melhor.

E, todas elas podem se resumir em:  se interesse pelo assunto, se conecte ao outro, estabeleça uma linguagem afetiva acolhedora da narrativa de vida dele (diálogo).
A Celeste é considera uma das maiores âncoras dos EUA e sabe o que fala.
Quando escrevia este texto, pela manhã, a campainha toca e é o Adalfran, meu amigo e porteiro do prédio, que veio me visitar trazendo uma costumeira garrafinha de café. Eu tomo café, ele água geladinha, numa troca de afetos matinal, de enorme valia para mim, e acredito para ele.

Ele me conta que o seu cavalo-pangaré, o Paul, vai se mudar de rancho hoje à noite.
Como era que eu fazia antigamente ao ouvir tal narração dele?
"Paul vai se mudar de rancho hoje à noite".
- Legal. Viu que o tempo abriu?

E agora, como tenho aprendido na escola da vida. Exercitando o interesse, a conexão e o diálogo empático afetivo:

"Paul vai se mudar de rancho hoje à noite".
- Eita, e como ele será transportado?
Num reboque de um amigo meu.
- E custou caro esse frete?
Nada , meu amigo fez de graça.
- E por que o Paul vai se mudar?
Porque o novo sítio tem umas baias melhores e mais pasto e lugar para ele correr.
- E fica mais perto ou mais longe daqui?
Fica mais longe, só verei agora uma vez por semana.
- E tu vai aguentar de saudade?
Se é para o bem dele eu aguento.
- E quando vamos lá ver o Paul?
 Pode ser domingo à tardinha?
- Podemos ir sim.

Para se interessar com o outro tem que jogar frescobol com a palavra dele, devolvendo-a redonda, fazendo mais perguntas, para melhor entender o que aquilo que ele nos diz representa e significa para ele.
Experimente em suas próximas conversações, antes de já sair emitindo juízo de valor, ou de engatar uma marcha e desconsiderar o que ouviu, já emendando um outro assunto, interessar-se pelo que ouve.
Perguntando mais um pouco acerca daquilo.
E aí, um milagre acontecerá no próximo encontro. Haverá um link possível, uma conexão autêntica para um bom inicio de conversa.
No meu caso, com o JG:  E aí filho, conseguiu a série do Boruto.
Com Priscila, mais alguma novidade da saga da Loma?
Com Adalfran, amanhã cedo, e como foi o transporte do Paul, ele chegou inteiro?
Tem muita gente dando palestra de oratória, e poucas de escutatória.  Alguém para nos escutar anda tão raro. Creio que alguns relacionamentos afetivos estão com prazo de validade vencidos, não por falta de sexo, mas sim por falta de interesse, um pelo outro. Por falta de escuta amorosa.
E, só escuta verdadeiramente, que pelo outro se interessa e a ele se conecta de corpo e alma.
Isso vale também para a relação entre gerentes e seus liderados. Quantos líderes não ousam se permitirem a escutar seus liderados, até na linguagem não verbal deles. Sua funcionária volta de uma licença maternidade, ele a cumprimenta, ela fala que está com saudade da cria, e ele emenda: "deixa de besteira, logo você se acostuma, tem muito trabalho te esperando, e aí nem vai se lembrar do bebê."  O relato acima não é ficção, infelizmente.
Bolas fora como essa acontecem aos montes, por não nos esforçarmos para entender o mundo do outro, ao por ele se interessar, em qualquer nível e tipo de relação.
Entre professores e seus alunos.
Entre amigos.
Entre entre pais e filhos
Entre colegas de trabalho.
Entre familiares.
E, chego a dizer, até na relação entre os membros de uma determinada agremiação religiosa, pode estar faltando interesse uns pelos outros.
Isso virou uma praga dos tempos ditos modernos: velozes, agressivos e superficiais demais.
Então, a reflexão de hoje nos ensina a nos reconectarmos com as pessoas. E o segredo está no interesse pelo mundo e vida delas.  E os melhores interesses são os mais simples, tipo o de saber se a mãe de seu namorado está melhor, ou sugerir algo para ela enriquecer o trajeto turístico que faz com os primos. Interesses cotidianos, simples, bem ali pertinho de todos nós. É só parar para se interessar.
O interesse é a chave para acessar a riqueza e encantamento do mundo do outro em nosso viver.
Tornando-o nosso também, ampliando as fronteiras de nosso ser.
Interessar-se pelo outro é como quem pega uma onda juntos, tal qual como minha filha e o JG. Envolver-se, é ainda mais radical, é como fez o Hugo, meu genro, que mesmo sem uma prancha, não deixou de participar com eles, vindo de jacaré, dentro da onda. (Veja foto que ilustra essa crônica.)

Pense num aperreio! (Autor Ricardo de Faria Barros)


A aula começaria 20h30min, e uma hora antes eu já estava no local e nervoso.
Iria ter minha primeira aula de dança, ao ritmo de forró. Havia trinta anos que esperava por esse momento.
E, nos propósitos de aposentadoria desenhei essa agenda. Aposentadoria pede metas, pede agendas. 
E agora, um ano depois, estava sendo realizado. 
Uma garotada malhada habitava aquele ecossistema.
Procurei uns cabelos grisalhos, ou gente mais normal e gordinha, e não achei.
Aliás, achei um, que quando eu ameacei fazer contato, vi que na verdade ele tinha ido buscar a filha, que saia de uma aula de Street Dance.
No horário combinado, o professor chega na recepção e chama os alunos. A mocinha da recepção aponta para mim e diz que eu farei aula experimental. O professor meio que dá nos ombros, e deve ter pensando, mais um para me dar trabalho, dizendo um seco "me siga".
Eu queria era palavras de carinho, tipo preliminares. rsrs
Para meu azar, a turma era composta apenas de um casal de irmãos, que estava com três aulas à minha frente, e eu - o novato da noite.
Fiquei num canto quieto, não sabia bem o que era esse troço de aula experimental.
O professor notou minha timidez e me trouxe pra roda.
Então, ele soltou uma pergunta, meio que notando que não tinha me socializado, nem se apresentado:

"Qual seu nível de conhecimento de Forró? Sem conhecimento, iniciante, amador, ou quer aperfeiçoar?"

- Avançado

Aí ele soltou um: ahh, então tá bom.
E eu continuei: avançado de ruim.
cacacaca
Todos sorriram e o ambiente ficou melhor pra meu lado.
Então, ele deixou o casal de irmãos treinando, ao som de um pé de serra. E veio até mim.
Fiquei logo nervoso. Será que ele iria me chamar pra dançar?
Não era isso. Ufa.
Ele me colocou em frente de um espelho, e pediu que eu repetisse à exaustão uma série de passos que ele fazia.

"Pé esquerdo pra frente, pisando uma barata com a ponta dos dedos, pé direito pra trás, como se tocasse numa parede, com a ponta dos dedos. Junta, e segue na lateral: passo para esquerda, junta, esquerda, junta, direita, junta, direita, junta, agora pra frente, matando a barata, e segue..."

Eu suava frio. E era muita informação pra decorar. O casal de irmãos tirava onda de meu desconforto, olhando-me de soslaio. 
Acho que me dei mal. Achava que teriam outros alunos, para distribuir o nervoso e a atenção entre eles. E éramos só 3, e dois bem melhores que eu. 
Mas, eu bem que me esforçava. Contudo, em muitas vezes confundia esquerda com direita, ou frente com trás. E aí danou-se!
Escrevo com a esquerda. 
Então, a direita para os outros, pode ser para mim a esquerda.
Entende?  Lógico que não, só quem é esquerdo sabe o que falo. "Vira para a esquerda", e queremos virar para direita. rsrs 
E tome repetição, eu me olhava naquele imenso espelho, e queria era correr dali. Foram os 60 minutos mais longos de minha vida. Suava frio, aperreado, toda vez que o professor chegava perto de mim, para aferir meus passinhos de elefante aprendiz,  de tablado de picadeiro, no choque mesmo.

E tome bronca. "Você não está matando a barata, com a ponta do pé esquerdo. Bote o peso na direita. Não vire o dorso. Não mexa os quadris para os lados. Está abrindo muito na lateral".
Pensei comigo, como não mexer o quadril?  Pode isso Arnaldo?
E aquele espelhão me intimidava. Projetava nele minha ignorância, ampliada ao extremo. aiaiai
E se olhar muito pra ele, aí é que erra mesmo. E se não olhar, erra também.  Nunca admirei tanto os dançarinos como ontem.  Aí o professor chegou mais uma vez. E vinha com olhares languidos para mim.
aiaiai 
Aí ele me deu as mãos e disse, dance comigo. Agora fodeu mesmo, pensei!
E lá estava eu, enlaçado por aquele marmanjo e bailando ao som de Flávio José.
Matou aquela música Tareco e Mariola, pois vou associar à bafo de macho no cangote. Eca.
Depois de umas 4 piruetas, ele chamou a moça e trocou de pares.

Ela olhou pra mim, do alto de sua desenvoltura, como quem diz, "e será logo eu a cobaia dele"?
Ouvindo os pensamentos da moçoila, nunca me senti tão rejeitado. Queria os braços do professor novamente. rsrs
E começou o forró e eu tinha que repetir os passos do espelho, agora com a moça. Não precisa dizer que errei várias vezes. Eu nem olhava para ela, tamanha vergonha. Fiquei da cor do pimentão, várias vezes, dava pra fazer moqueca com minha face rubras.
E ela me dizia, em tom de quem não está gostando de treinar mais eu: "É você quem me leva, indique com a mão direita o próximo movimento."  Agora lascou Maria, Inês e Preá. Como indicar se nem eu sei, pensei.  cacaca
E tome aperreio. Aí o professor tirou a música, chamou todos para o centro da roda, disse que eu estava indo muito bem.
Filho da puta mentiroso. E liberou a todos nós. Pedi desculpas a mocinha, que sorrindo disse que "não foi nada".
Cacaca  Então foi.
Cheguei em casa e me vi repetindo os passos olhando para o espelho do quarto. Acordei hoje com aquele: é 1, é 2, é 3, é 4, e para os lados, é 5, junta, é 6 junta....

Simulei com uma vassoura e me achei o cara.   rsrs

Uma sensação de felicidade invadiu meu ser. A felicidade de se propor a aprender algo que há muito tempo sonhava. Eu sou de Campina Grande-PB, terra do São João, e não saber dançar forró é imperdoável. Sofro bullying desde pequeno. 

Então, aos 53, tá na hora de aprender. Nunca é tarde pra aprender algo. E acho que a velhice se dá quando desistimos de "curiosiar" a vida, suscitando uma profusão de novos quereres, aprenderes e experiências a que nos permitiremos.

Na próxima aula, vou tomar uma  chopp antes, para ficar mais mole o cabeção.

Confesso-lhe que inteligência físico-espacial não é meu forte. Tenho uma perna esquerda que cisma que é direita.  E decorar uma série simples de passos para mim é uma tortura. Quando ele chega no passo seis eu já esqueci do dois. rsrs

Mas, enfrentar os medos, e o abismo do desconhecido, com todos as limitações e dificuldades nele inserido,  é fundamental para aprender algo e crescer.

Crescer dói, e não se chega na janelinha de nenhum lugar da vida, sem esforço. 

Vou aprender sim. Mesmo que repita por meses uma série, que para outros em uma semana já dominaram. Eles são eles, eu sou eu.
Tenho meu próprio ritmo e capacidade de aprendizado desse tipo de inteligência que lhes confesso que sou fraco demais. Prefiro mil casos de terapia para encaminhar, prefiro até montar móveis, seguindo aqueles roteiros que ninguém entende. Do que lidar com meu pouco jeito de fazer evoluções com o corpo. Mas, num desisto fácil quando cismo em aprender algo.

Oxente, isso será fichinha. Depois vou aprender a velejar. Ah se vou! 

Vou continuar, não desistirei. Acho muito bonito quem sabe dançar. E creio que a dança pode melhorar os relacionamentos,  a intimidade do casal. A dança é uma linguagem de muita cumplicidade e atenção para com o outro, para com o par, e quero isso para minha vida. 

Eu vou aprender a dançar. Do meu jeito, no meu ritmo, cada dia um pouquinho mais. Se não valer pela dança, vale pelas risadas sobre mim mesmo, e meu corpão desajeitado. Será mais fácil do que fazer dieta e sair do sedentarismo. 
E vale muito sentir esse frisson do "não sei, mas vou aprender".
Vale pela socialização, vale por se sentir vivo em querer fazer e viver algo diferente. Afinal, como diz o poeta, "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena". Fernando Pessoa   

Mesmo sem ver, não estamos sós! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era um daqueles dias em que acordamos com azia emocional, lembrando das coisas que deixamos para trás, não realizadas, ou nas quais demos com os burros n´água.

Todos temos dias assim, nos quais do nada vem aquela ressaca emocional e nos sacode.
Então, resolvi buscar minha terapia para dias cinzentos, que é caminhar. Nesse dia, tive sorte de estar na praia de Coqueirinho do Norte (Baía da Traição-PB).

Praia pouco frequentada, e atracadouro natural de pequenos barcos pesqueiros, cujos pescadores por ali moram.

Deixei JG com meus pais, e segui  para minha terapia andarilha.  

Após um quilômetro de caminhada, olhei para trás e vi que deixava um rastro de pegadas, e que eu e elas éramos os únicos que tocavam naquelas areias. Naquela manhã de segunda feira, pelas 9hrs.

À frente, nenhum sinal de humanos, e por uns bons 2 km. 

Tive uma sensação de que estava só, naquela jornada em direção ao molhe. 

Quantos dias acordamos com esta sensação de estarmos sós, diante da vida que precisa amanhecer em nossos corações, e que ainda se apresenta nublada, prologando os ecos de uma madrugada de sentimentos?
   
Comecei a prestar atenção no que ocorria à minha volta, como quem procura se conectar a algo maior, para ajudar no nascer do sol interior.

Não havia qualquer som urbano,  na partitura daquela caminhada. 

Ouvia o som dos ventos, o canto das ondas, e o grasnar das aves de beira-mar. 
Esforcei mais um pouco a percepção e juro que ouvi os barquinhos conversando com a maré, em sua negociação de espaços.

Fixei o olhar à minha frente e vi pequenos tracinhos moldados na areia.

Fiquei encasquetado com aquilo, e eram muitos, que já estavam ali e eu não tinha notado antes.

Olhei para trás e confirmei que ali também eles estavam.

Eu é que não tinha percebido ainda.

Quando acordamos "pegando mal" no motor de nosso coração, acabamos por não ver um monte de coisas que ao nosso lado acontecem, coisas boas, belas e virtuosas.

Então não mais me senti só. Aquilo que eu via eram as pegadas das andorinhas da praia, que alimentavam-se à beira-mar.

Tão tenras pegadas, tão frágeis, mas estavam ali, como sinais a me dizer: "Ei, venha cá, estou á sua frente, abrindo caminhos...!

De repente, uma paz tamanha invadiu meu coração.  E lembrei que na minha vida também existe um monte dessas pegadas.

Quase imperceptíveis, que agem sem barulho, sem ostentação, que deixam marcos em meu viver, e não marcas.

Tão cuidadosas, tão cheias de amor, que vão à minha frente, abrindo caminhos, desbravando sonhos e fazendo construir os novos dias possíveis.

Não estamos sós!

Nem bem digitei essa frase acima, e o WhatsApp apita, avisando de nova mensagem.  Paro para escutar e é o Adalfran, zelador do prédio, dizendo que passou cedo para deixar um café para mim. Que está na soleira da porta, já que não acordei quando ele tocou a cigarra.

Não estamos sós!

Numa comunidade em que participo, um neto de uma das participantes teve reação à vacina da febre amarela.  E está hospitalizado. Gente de todo o Brasil, participantes dessa rede, se irmanam em preces e mensagens de otimismo. Aquela vovó não está só.

Um carro quebra na faixa do meio da BR 020, sentido Sobradinho-DF para Brasília. O trânsito fica infernal. Um motorista de outro veículo para o carro, desce, e ajuda a empurrar o carro quebrado  até o acostamento. Colocando a vida dele em risco, e até o carro que parou onde dava. 

Uma amiga acompanha a retirada de um sinal do meu nariz, as dores após anestesia, e monitora a ingesta dos remédios prescritos. Às três da manhã, recebo um zap com: "Como está a dor? É hora de tomar a segunda dose dos remédios!"

Não estamos sós.

Embora nossa estado de iluminação espiritual nem sempre deixe ver, muita gente já acordou antes de nós para preparar nosso café da manhã, nas horas e dias que nos sucederão.

Entendem a metáfora?

Essas pessoas são como as andorinhas de praia. Quase não são percebidas, de tão elegantes que pisam sobre o terreno do viver. Mas, deixam seus sinais de presença em nossa caminhada. Nossas pegadas não estão mais sozinhas. Elas seguem um rastro do bom, do belo, do manso e solidário, de muitos que estão à nossa frente, abrindo caminhos. Nos ajudando.

E, muitos nem conheceremos que são. É aquela recepcionista que conseguiu te encaixar entre uma consulta e outra.

Pensamos, "que sorte".  Sorte nada.  São as pessoas-andorinhas que deixam nosso viver melhor, mesmo sem as reconhecê-las, ou perceber seu papel, elas estão ali presentes - tornando nossa vida melhor.  

E suas pegadas são marcos em nosso viver, não deixam marcas em nosso couro, pelo contrário, são como band-aids que protegem nossas feridas emocionais, dando a elas tempo e melhores condições de cicatrizarem.

Cheguei à uma curva de praia, olhei para trás, e vi que a maré levou minhas pegadas.

Mas as da andorinhas não, pois elas subiam a areia da praia, acompanhando a evolução da maré.

Então lembrei que a caminhada se faz é no caminho em que se olha pra frente. E que precisamos também subir a areia, sempre que a maré for forte e crescente.

E que o Compositor do Tempo se encarregará de apagar as pegadas passadas, e que precisamos de novas pegadas. Precisamos continuar a nossa jornada. 

Não adianta voltar pelo caminho, querendo pisar sobre o pisado.  Aquilo já não existe mais, a força das marés já apagou o terreno pisado, depositando nele novas e virgens areias, ansiosas por novos pegadas. 
Isso mesmo, novas pegadas. É isso que podemos deixar, ao focar no presente e futuro. Pegadas mais cuidadosas, amorosas, mirando na terra para não pisar em cima de coisas que nos farão mal. 
Quase marcos ou sinais, como os das frágeis andorinhas que me disseram: "Ei, estamos aqui te fazendo companhia, não estás só".

Não estamos sós!   Um monte de coisas estão acontecendo na janela do amanhecer de nosso viver, aquele que vem ali dobrando a esquina, e que nele existem um monte de situações e gente preparando e facilitando o terreno para nosso existir. 

Só precisamos reconhecê-las e ser-lhes grato.  É preciso perceber as pegadas à nossa frente, nos amando e orientando, como sinais de si mesma.
E, elas nos conectarmos, sentindo-nos mais protegidos e corajosos para enfrentar o futuro, com todas as suas incertezas, mas cheio de esperança. 
Não há mais trilho do caminho na volta.
O mar apagou.

Agora, resta-nos moldar nossa vida com novas pegadas, palmilhadas à frente, sem ficar remoendo, vitimizando-se, ou num saudosismo impotente, que insiste em querer  voltar de onde já se veio.  

As pegadas passadas nos falam, são como professoras da vida que com elas podemos aprender muito.
Num esforço de humildade, para além da arrogância do ser e do saber, ou de estéreis justificativas. 

Sem querer voltar por onde já passamos.

As marcas que deixamos nos outros, e em nós mesmos, fazem parte de nossa história de vida.  Mas, são janelas que se abrem para o passado. O máximo que podemos fazer é aprender com elas, para não mais marcar pessoas em nosso conviver. E ser para elas marcos, que sinalizam só coisas boas.  Como os pezinhos das andorinhas naquela terra, sinalizam para mim que eu não estou só.

Mamãe, eu te amo! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Aquele dia para ela tinha que ser transformado em dois, de tantas coisas para resolver que consumiam as horas.
Era fazer pagamentos, emitir documentos, correr para fazer prova de roupa, para natal e ano novo, bem como comprar presentes natalinos faltantes. Somado a isso tudo, uma longa viagem de estudo se aproximava, tendo trabalhos para finalizar e textos para estudar até lá.
Ela chegou na sessão de coaching agitada. Eu tive até vontade de reduzir o tempo, ou adiar a sessão, para contribuir com o tempo dela.
Mas, ela não aceitou, precisava falar das alegrias, medos, esperanças e frustrações em relação à meta daquele doutorado na Espanha.
Ela falava de seu sonho de mais uma etapa do doutorado, que iria recomeçar em janeiro, com faíscas nos olhos.
Contudo, temia que a débil saúde do pai, que morava noutro estado, no qual iria passar natal e ano novo, acabasse piorando.
E, entre o pai e o doutorado, ela optaria por ficar com ele, naquele momento de sofrimento, caso necessário fosse, mandando às favas o doutorado.
Enchi os olhos de lágrimas, de tão belo gesto, de tão abençoada filha.
Como aprendo com meus pacientes de terapia ou de coaching.
Desviei o assunto do pai, voltando para a meta do doutorado. Os coachs são maestros de metas.
E, ela retornou o assunto com olhos marejados de felicidade. Pensei comigo, ela ama esse tá de doutorado.
E, quando estamos cansados, agitados e sem tempo, basta um amor chegar até nós, que ao falar dele temos todo o tempo do mundo, e relaxamos o couro da alma naquelas palavras que aos borbotões falamos do amado. Quem ama transforma meia hora num dia, quem ama transforma minutos em horas, só para estar com o amado.
Aí, o telefone dela toca na sessão.
Ela pede licença, o atende, e ao desligar me diz que era a filha, precisando dela.
E que vai passar em casa, pegar um balde, uma vassoura, um rodo, pano de chão e produtos de limpeza e vai ajudá-la.
Eu caio na gargalhada e digo-lhe, como assim?
Ela me conta que a filha se mudou ontem, e que o combinado com o inquilino do imóvel anterior, era o de entregá-lo limpo. Mas que, por ser a última semana do ano, a filha não encontrou diaristas disponíveis.
Então, apelou para a mãe, na esperança que a mãe achasse alguma.
Minha coache não pensou duas vezes, despediu-se de mim, e foi assumir a limpeza, ajudando a filha.
De tarde, eu mandei um zap para ela, tirando onda, perguntando-lhe se podia vim limpar minha sala, se sobrasse tempo.
Ela caiu na gargalhada e disse que deixou o ex-apartamento da filha um brinco, tudo limpo e cheiroso, e que tinha conseguido resolver as outras pendências, ao optar por facilitar a vida, e simplificar a agenda, deixando para depois, o que pode ficar para depois.
Não dormi naquela noite, véspera de natal, com aqueles dois gestos daquela filha. o primeiro de adiar os sonhos, caso o pai piorasse. O segundo, de esquecer dela mesma, pegar um rodo e uma vassoura, e ajudar os filhos.

Você deve estar me perguntando: Por que tu lembrou disso Ricardim? Quase dois meses depois.
É que hoje ela teve sessão comigo, e me mostrou um WhatsApp que recebeu da filha, acessando-o ao estacionar aqui na Ânimo. O texto era de quatro palavras.
"Mãe, eu te amo!"
Perguntei se tinha ocorrido algo ontem, para que a filha se expressasse daquele jeito. Ela me disse que não. Que foi algo de que ela não esperava, aquele eu te amo, pois não fizera nada de especial
Aí lembrei-lhe que ela fez sim. Ela pegou um rodo e uma vassoura e foi ajudar.
Então ela sorriu, um sorriso lua cheia, e disse que aquilo era a essência dela, como mãe, e que independente dos filhos retornarem com palavras de carinho, ela sempre estaria ali, pertinho deles, com um rodo e uma vassoura, para apoiá-los em tudo que fosse possível, sem tirar deles a capacidade deles mesmos se responsabilizarem pelas suas próprias vidas.
Uauuu!!!
Lembrei de minha mãe e pai, do quanto pegaram seus rodos e vassouras para limpar as sujeiras que eu ia deixando pela vida.
Lembrei de tantos amigos que foram solidários comigo, em momentos difíceis pelo qual eu passei (coração) e o JG (UTI Neo-Natal).
Para eles, eu queria dizer, voltando as fitas de meu viver, "eu te amo".
E, como é bom receber um "eu te amo!"
Minha paciente não sabia onde colocar tanta alegria. Olhava aquela telinha do celular como se fosse um bilhete de loteria premiado.
Esqueceu até de contar dos quinze dias que passou na Espanha, estudando, dado que o amor - expresso pela filha, literalmente trocou a agenda da sessão. O amor altera agenda e cria novas prioridades.
Receber um "eu te amo" deve ser o que mais em nós produz endorfinas. Não temos mais como ser os mesmos, após alguém nos dizer: eu te amo.
O impacto dessa frase em nós nos eleva à condição de eternos demais, para sermos mortais.
Aprendi muito nesta sessão. Aprendi que um coração disponível para ajudar, com o que tem, um rodo e uma vassoura, pode galvanizar nas paredes do coração uma marca de cuidado e atenção, para om o outro, cuja lembrança nunca será esquecida.
Aquela jovem, também aprendeu, com o exemplo da mãe, que mesmo assoberbada com suas próprias tarefas, esqueceu tudo para ajudá-la, uma lição linda. Trocou prioridades pela força do amor.
De um amor que se expressa, de um amor que se converte em práticas, saindo das piedosas intenções que não se mexem em ações.
Se só o que temos para ajudar é a nossa disponibilidade generosa, talvez seja isto mesmo o que mais a pessoa esteja precisando.
Será que eu faria aquilo? Será que deixaria minhas pendências que me alucinam numa frenética ansiedade, para ir socorrer alguém com algum serviço que sei fazer, e que posso fazer?
Quantos rodos e vassouras estão guardados em meu coração, esperando que eu dê a eles uma oportunidade de servi-los aos outros?
O que de fato, ao ingressar o amor com sua agenda própria, em nosso viver, vale a pena ser adiado, cancelado, ou simplesmente deixado pra lá, para que aquele momento seja vivido em sua completude maior.
O amor nos completa. E, só ele tem o dom de elastecer o tempo, ecoando no infinito os instantes vividos no hoje, e alterando toda a ordem e natureza das coisas.
Quando ele se faz presente, e em nós se manifesta, ele dá um novo significado às nossas vidas, e ao próprio tempo, nos tornando lendários ao ler uma frase assim: "mamãe, eu te amo!"
Agora vou ali comprar mais rodos e vassouras, para ter maior disponibilidade de apoiar pessoas, na área de serviço de meu coração!

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