Quem Sou Eu? (Autor Ricardo de Faria Barros)


Acredito que um beija-flor, uma borboleta, ou uma abelha, mais que se alimentarem do néctar das flores, carregam possibilidades de germinação de outras vidas, aos polinizarem esperanças, após alçarem vôos. Podemos ser como eles. Polinizadores de coisas boas, justas e éticas.
Acredito na força do nós, do coletivo, da cooperação, e da aprendizagem em redes de colaboração. Todos somos aprendentes e ensinantes de algo, a alguém. Somos inacabados, esboços de nós mesmos em permanente elaboração, e é na relação com o outro onde mais aprenderemos sobre a vida e o viver.
Acredito que o amanhã será melhor, e que o que estamos passando de aperreio, em algum momento de nossa vida, além dele também fazer parte do pacote de existir, passará.
Não acredito em muitas coisas que leio, sempre começando por: "segundo pesquisas", ou de ideologização de tudo. Simplesmente desconsidero e sigo com meus próprios hábitos. Nem acredito em receitas simples para se viver de bem com a vida. A vida de não vem com manual. E é preciso que cada um escreva o seu.
Não acredito em políticos, de espécie alguma. Sinto muito se lhe decepcionei. Mas, paradoxalmente, acredito na força do voto, e nunca vou me abster de eleger aquele que representa o projeto político em que acredito. Afina, aprendi que não elejo pessoas, e sim visões de mundo.
Não acredito que me aposentei, entrando para a inatividade. Tenho uma agenda com coisas páginas em branco, ávidas para que nelas eu coloque novos aprenderes, aventuras e experiências de vida. E me sinto um garotão!
Não gosto de desarmonia, de conflitos e desavenças. Desvio deles. Flexibilizo posições. Relevo atitudes. Engulo sapos. Para não entrar em embates estéreis, em si mesmo. Nem sempre isso é legal. Deveria ter entrado numa brigas. Mas, no balanço geral, é positivo ser assim, eu acho.
Não gosto de dividir o mundo entre quem está salvo e quem não está. Embora professe fé, convivo com descrentes, ou crentes de coisas diferentes das minhas, e numa boa. Não entendo como podemos dividir o mundo entre quem pensa, age e se porta como eu; e quem não pensa, age e se porta. Aliás, não sou bom em conta de divisão.
Não gosto de chegar atrasado em compromissos, nem de vestir um personagem para que neles seja aceito. Sou muito autentico para caber em vestes que não sejam as minhas próprias.
Gosto de apreciar o cotidiano, sou colecionador de nuvens, flores e pessoas especiais. Gosto de música, de mato, de água, de morros, de pedras, de Cerrados e Sertões com seus apelos ao deserto de nós mesmos, lugar de renovação.
Gosto de conhecer novas culturas, lugares e pessoas.Quanto às pessoas, tenho por hábito confiar nelas, à primeira vista, e já sair chamando-as de amigas. Sou facim. Qualquer dedo de prosa já me seduz e encanta. Mas, tenho um sexto sentido apurado para desviar de vampiros emocionais, ou pessoas sem caráter.
Gosto de cozinhar, receber, de debulhar umas letrinhas, de lecionar, de palestrar, de conduzir dinâmicas de grupo, de atender como psicólogo, ou coaching. Gosto de fotografar, e tenho umas estranhices como colecionar discos de vinil, ou objetos antigos, o que dá no mesmo.
Tenho 4 tesouros que a vida me deu: Tiago, Priscila, Rodrigo e João Gabriel, meus filhos, pelos quais vale a pena viver! Este sou eu, e a Ânimo Desenvolvimento Humano é a minha quinta filha.

Cartas ao JG - Brinque Carnaval (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel)

Sabe filho, ontem vi a foto da pequena Lis, tua amiguinha e vizinha, indo toda produzida para um baile de carnaval infantil, tutoreada por minha afilhada de fogueira, a Catarina, sua mãe.

Era terça gorda de carnaval, e Lis seguia para sua matinê, num evento no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília.  A cena que vi detonou lampejos de memórias em meu coração. Lembrar-se tem se tornado mais difícil, por isso escrevo para você. Para não esquecer de me lembrar, jamais. 

Uma das compotas afetivas mais doces de minha infância, foi produzida aos 9, 10, 11 e 12 anos quando viajávamos para o sertão do Rio Grande do Norte, terra de minha mãe, e no sítio Barra do Câimbra, entre Caicó e Serra Negra do Norte, passávamos o carnaval com a primarada.  Eu e teu tio, o Guga, éramos os únicos primos entre as primas: Tatiana, Elvira, Ana, Digna, Rosa, Tereza e Elisabeth. E tudo era tão alegre, inocente e bonito. Num tempo em que ainda não se erotizavam as relações afetivas.
Mamãe, tia Lila e Tia Laurita passavam as manhãs daqueles dias preparando nossas fantasias, que seriam usadas nas matinês dos clubes das cidades vizinhas, ou em desfile de Corsos (pessoas que desfilam dançando em cima de carroças, tratores, caminhonetes e caminhões, como numa carreata).
E toda a família participava. Era um tal de lantejoula pra cá, colar e turbantes pra lá, e todo tipo de adereço que aparecia na hora, com direito a elaboradas maquiagens.
E tudo era festa. 
As boas festas já começam dantes.
Mamãe e tia Lila faziam as vezes de Catarina, e nos levavam até os bailes infantis, para nos proporcionar aquele momento mágico.

Numa das vezes em que deles voltávamos, não havia mais como chegar no sítio, pois caíra uma tromba d´água, e já era noite.
A estradinha de terra era cortada por um rio seco, que encera bastante, e ficamos ilhados, naquele breu da noite. O jeito seria dormir no carro, e esperar o rio baixar.
Mas, ao longe começamos a avistar umas luzinhas, uns clarões que sobre o breu da noite se destacavam.
E fomos ficando animados, seria nosso socorro que vinha vindo?
Aí apareceram do outro lado da estrada, agora cortada pelo rio, os nossos tios e meu pai, montados num trator. A cena era de filme de cinema, de tão bela. 
Eles vieram nos socorrer, mesmo sem nenhum tipo de comunicação entre nós (não havia celular), e sem saberem nossa hora de chegada. Ainda assim, eles intuíram que o rio iria nos prejudicar, em nosso retorno, e vieram nos salvar. E puxaram nosso carro com um trator.  
Naquele dia, eles viraram nossos heróis. Assim como nossas tias e minha mãe, que não poupavam esforços para nos dar o direito ao brincar.
  
Ontem, passou aqui por perto de casa um carro vermelho, com o porta-malas aberto, com caixinhas de som tocando marchinhas de carnaval,  e umas 20 pessoas seguindo-o bem animadas.

Fiquei comovido. Teu irmão Rodrigo me disse que todo ano eles desfilam, na terça feira gorda.  Por falar em Rodrigo, ele me mostrou a foto dele e de Andreza, tirada de cima do bloco Camaleão, do Bell Marques, em Salvador. 

Aqueles ali sim, sabem festar a vida.   Assim como Priscila e Hugo, Tiago e Carol, que se divertiram em blocos no Parque da Cidade.

Sabe filho meu, essa carta não é sobre carnaval. Tu tem o direito a não gostar. Embora eu tenha decidido te levar aos bailes infantis, a partir de teus 9 anos, mesmo assim tu tem o direito a não gostar.

Assim como tem direito a não gostar de São João, e suas quadrilhas e forrós. Ou não gostar das festas de virada de ano. 

Só tome cuidado em deixar de festar a vida. De tanto não gostar de brincar e se permitir fazer coisas do domínio do Homo Ludiens Demiens.

Qual lógica existe em sair entre centenas de pessoas atrás de uns bonecos imensos, subindo e descendo ladeiras? 

Qual lógica existe em se fantasiar de batman, ou a sua girl, e sair por aí com seus amados, todos posudos?

Não filho meu, não tem lógica, falando estritamente do mundo racional.

E, querer entender os fenômenos culturais pela lógica racional é pura perda de de tempo, ou manifestação da vã arrogância do saber.

Qual a lógica dos Bois de Parintins?
Da Congada e do Reizado?
Dos Ala Ursa?
Dos Casamentos Matutos?
De dar três pulinhos à beira-mar?
Qual a lógica de um ajuntamento para celebrar a festa da cumeeira, num churrasco na laje, em local sem banheiro, ou conforto?
Qual a lógica de ficar cantando o hino de seu clube, até se esgoelar, mesmo com ele já desclassificado? 
Qual a lógica de fazer um caminho de pétalas, para ela passar?

Nenhuma, ou todas. Depende do olhar que tenha, filho meu. Existe uma dimensão do olhar que é a da poesia, do ser brincante, do ser afetivo, do ser amoroso e coletivo que somos.
E, essa dimensão não cabe sua interpretação dentro da lógica formal, nem em planilhas de excel.

Nas belezuras do ser humano em seus momentos de amor, brincar, festar e celebrar a vida e o viver.

Não sem razão, uma das inscrições rupestres mais enigmáticas, que data 9.000 anos, tem moldado numa parede de uma caverna 829 mãos, ajuntadas, umas perto das outras.

Aqueles povos ancestrais nos deram uma aula, sobre a importância do coletivo, não deixando nenhuma mão de fora, da comunidade onde viviam, que ali quiseram que elas se eternizasse. 
Ao olhar para aquela pintura, na Caverna das Mãos, que fica na Patagônia -Argentina, cada um deles  se reconhecia, num nós.

Então, amado filho, essa carta é sobre a beleza de se estar juntos. Seja o que estiver fazendo. Se não gosta de carnaval, e foi com uma turma para um retiro espiritual, tá valendo.

Se não gosta de réveillon, mas reuniu tua família e amigos para uma confraternização em teu lar, tá valendo.

Só não vale o culto ao individual. 

Estar com os outros nos cura. E, tu verás, que em muitos momentos de teu viver precisará de pessoas para melhor apreciar os bons momentos que experencia. 

E é isso que as festas populares fazem, desde as quermesses de interior, aos bailes de funk na periferia, tudo que junta gente, as faz dançar, conversar, confraternizar, sorrir e brincar, ao despistar o sofrer do cotidiano, pode torná-las melhor.  

Ano que vem irei ver os desfiles das escolas de samba, ou subirei as ladeiras de Olinda, ou sairei atrás de algum trio em Salvador, pode anotar!  Mas, antes de levarei para alguma prévia por aqui, ou na minha Paraíba, tipo as Muriçoquinhas de Miramar, lá em João Pessoa, ah se vamos!

Então filho meu, permita-se a pagar micos, brincar de não saber, aprender algo novo, aventurar no desconhecido, superar medos e traumas desafiando-se a si mesmo, a sorrir com brincantes desmiolados, a celebrar tudo, inclusive o nada - só por estar vivo, e a se animar com as besteiras que falamos para fazer os outros, e a nós mesmos, sorrir, num processo de humanização tão bacana pelo qual muitos de nós se entregam quando estão juntos.  E que é nossa melhor porção da vida e do viver. O resto serão as preocupações e as decisões de qual conta poderemos pagar! 

A isto chamamos de bem viver!

Envolvimento (Autor Ricardo de Faria Barros)

Filho JG e Priscila, dentro da onda o genro, Hugo.
Era um típico de programa de família, naquele domingão ensolarado.
Reunidos, estávamos eu, três dos meus quatro filhos, minha nora e genro, além de amigos comuns.
Eu me divertia ouvindo-lhes nas suas mais diversas histórias, de um tal de Boruto à Jojô.
Boruto era a ficha na conversa do JG, com seus 8 anos, um personagem de série infantis, filho do Naruto.  rsrs
Já os filhos mais velhos conversavam sobre o carnaval no Parque da Cidade, em Brasília, seus trabalhos e projetos de vida para 2018.
E eu me esforçava para acompanhar a conversa, mesmo desligando-me eventualmente para pilotar a churrasqueira ou tirar as fotos daquela confraternização.
Tinha hora que eu fechava os ouvidos e me deliciava com o burburinho de vozes, que mais pareciam um bando de araras ou periquitos grasnentos, todos rindo e falando na mesma.
E uma sensação boa foi invadindo meu coração. Têm pessoas que tem o dom de nos reinicializar, e meus filhos são dessas pessoas.

Como é bom reinicializar, para poder de fato interessar-se pelo mundo deles, estar e se fazer presente.
Sem interesse não há conexão.  E sem conexão, não há uma linguagem afetiva comum.
Aí, o monstro do distanciamento, ou o do estranhamento, ou até o da indiferença ao outro começa a crescer dentro de nós.
Enquanto digitava essa linhas em minha cabeça, como meu processo de escrever começa, minha filha soltou um:
"Papai, agora quem está bombando é a MC Loma e as Gêmeas Lacração".
Parei tudo e exercitei o três níveis da amorização humana: interesses compartilhados, que geram conexões possíveis, que suscitam diálogos respeitosos, e que sinergicamente produzem companheirismo e cumplicidade entre pessoas.
- Filha, quem é?
Aí, Priscila(30) veio me contar que são jovens cantoras de Recife que gravaram um vídeo demo com a canção Envolvimento, e que ele  bombou no youtube. E que já cantaram até com Anita.
Soube que elas nunca tinham comido um Mac-Donalds, viajado de avião, ou feito outras coisas que o padrão social em que vivem não permite.
Gostei do nome da canção: Envolvimento.  No fundo, é isso que queremos para nós mesmos, não é?
Que as pessoas se envolvam conosco. Que ninguém nos corte ao contar uma história. E, ainda melhor, que demostre interesse pela mesma.
Nesses tempos de tantas coisas fast-food, parece que até os relacionamentos perdem capital de envolvimento.
Envolver-se seria o efeito colateral do interesse, da conexão e do diálogo entre seres
Não nos envolvemos com o outro sem a empatia. É impossível.  E não falo em pseudo-interesses, almejando algo em troca.  Falo no interesse gratuito, de se permitir que o outro ocupe um dos cômodos de nosso viver, acolhendo-o em suas narrativas e histórias de vida. Por mais estranhas que pareçam ao nosso mundo, como Loma e Boruto pareceram ao meu.
Engraçado que o que falo para vocês e para mim, trazendo meus filhos, uma palestrante do Ted Talks, a Celeste Headlee coloca em alto e bom tom, ao versar sobre as dez regras para conversar melhor.

E, todas elas podem se resumir em:  se interesse pelo assunto, se conecte ao outro, estabeleça uma linguagem afetiva acolhedora da narrativa de vida dele (diálogo).
A Celeste é considera uma das maiores âncoras dos EUA e sabe o que fala.
Quando escrevia este texto, pela manhã, a campainha toca e é o Adalfran, meu amigo e porteiro do prédio, que veio me visitar trazendo uma costumeira garrafinha de café. Eu tomo café, ele água geladinha, numa troca de afetos matinal, de enorme valia para mim, e acredito para ele.

Ele me conta que o seu cavalo-pangaré, o Paul, vai se mudar de rancho hoje à noite.
Como era que eu fazia antigamente ao ouvir tal narração dele?
"Paul vai se mudar de rancho hoje à noite".
- Legal. Viu que o tempo abriu?

E agora, como tenho aprendido na escola da vida. Exercitando o interesse, a conexão e o diálogo empático afetivo:

"Paul vai se mudar de rancho hoje à noite".
- Eita, e como ele será transportado?
Num reboque de um amigo meu.
- E custou caro esse frete?
Nada , meu amigo fez de graça.
- E por que o Paul vai se mudar?
Porque o novo sítio tem umas baias melhores e mais pasto e lugar para ele correr.
- E fica mais perto ou mais longe daqui?
Fica mais longe, só verei agora uma vez por semana.
- E tu vai aguentar de saudade?
Se é para o bem dele eu aguento.
- E quando vamos lá ver o Paul?
 Pode ser domingo à tardinha?
- Podemos ir sim.

Para se interessar com o outro tem que jogar frescobol com a palavra dele, devolvendo-a redonda, fazendo mais perguntas, para melhor entender o que aquilo que ele nos diz representa e significa para ele.
Experimente em suas próximas conversações, antes de já sair emitindo juízo de valor, ou de engatar uma marcha e desconsiderar o que ouviu, já emendando um outro assunto, interessar-se pelo que ouve.
Perguntando mais um pouco acerca daquilo.
E aí, um milagre acontecerá no próximo encontro. Haverá um link possível, uma conexão autêntica para um bom inicio de conversa.
No meu caso, com o JG:  E aí filho, conseguiu a série do Boruto.
Com Priscila, mais alguma novidade da saga da Loma?
Com Adalfran, amanhã cedo, e como foi o transporte do Paul, ele chegou inteiro?
Tem muita gente dando palestra de oratória, e poucas de escutatória.  Alguém para nos escutar anda tão raro. Creio que alguns relacionamentos afetivos estão com prazo de validade vencidos, não por falta de sexo, mas sim por falta de interesse, um pelo outro. Por falta de escuta amorosa.
E, só escuta verdadeiramente, que pelo outro se interessa e a ele se conecta de corpo e alma.
Isso vale também para a relação entre gerentes e seus liderados. Quantos líderes não ousam se permitirem a escutar seus liderados, até na linguagem não verbal deles. Sua funcionária volta de uma licença maternidade, ele a cumprimenta, ela fala que está com saudade da cria, e ele emenda: "deixa de besteira, logo você se acostuma, tem muito trabalho te esperando, e aí nem vai se lembrar do bebê."  O relato acima não é ficção, infelizmente.
Bolas fora como essa acontecem aos montes, por não nos esforçarmos para entender o mundo do outro, ao por ele se interessar, em qualquer nível e tipo de relação.
Entre professores e seus alunos.
Entre amigos.
Entre entre pais e filhos
Entre colegas de trabalho.
Entre familiares.
E, chego a dizer, até na relação entre os membros de uma determinada agremiação religiosa, pode estar faltando interesse uns pelos outros.
Isso virou uma praga dos tempos ditos modernos: velozes, agressivos e superficiais demais.
Então, a reflexão de hoje nos ensina a nos reconectarmos com as pessoas. E o segredo está no interesse pelo mundo e vida delas.  E os melhores interesses são os mais simples, tipo o de saber se a mãe de seu namorado está melhor, ou sugerir algo para ela enriquecer o trajeto turístico que faz com os primos. Interesses cotidianos, simples, bem ali pertinho de todos nós. É só parar para se interessar.
O interesse é a chave para acessar a riqueza e encantamento do mundo do outro em nosso viver.
Tornando-o nosso também, ampliando as fronteiras de nosso ser.
Interessar-se pelo outro é como quem pega uma onda juntos, tal qual como minha filha e o JG. Envolver-se, é ainda mais radical, é como fez o Hugo, meu genro, que mesmo sem uma prancha, não deixou de participar com eles, vindo de jacaré, dentro da onda. (Veja foto que ilustra essa crônica.)

Pense num aperreio! (Autor Ricardo de Faria Barros)


A aula começaria 20h30min, e uma hora antes eu já estava no local e nervoso.
Iria ter minha primeira aula de dança, ao ritmo de forró. Havia trinta anos que esperava por esse momento.
E, nos propósitos de aposentadoria desenhei essa agenda. Aposentadoria pede metas, pede agendas. 
E agora, um ano depois, estava sendo realizado. 
Uma garotada malhada habitava aquele ecossistema.
Procurei uns cabelos grisalhos, ou gente mais normal e gordinha, e não achei.
Aliás, achei um, que quando eu ameacei fazer contato, vi que na verdade ele tinha ido buscar a filha, que saia de uma aula de Street Dance.
No horário combinado, o professor chega na recepção e chama os alunos. A mocinha da recepção aponta para mim e diz que eu farei aula experimental. O professor meio que dá nos ombros, e deve ter pensando, mais um para me dar trabalho, dizendo um seco "me siga".
Eu queria era palavras de carinho, tipo preliminares. rsrs
Para meu azar, a turma era composta apenas de um casal de irmãos, que estava com três aulas à minha frente, e eu - o novato da noite.
Fiquei num canto quieto, não sabia bem o que era esse troço de aula experimental.
O professor notou minha timidez e me trouxe pra roda.
Então, ele soltou uma pergunta, meio que notando que não tinha me socializado, nem se apresentado:

"Qual seu nível de conhecimento de Forró? Sem conhecimento, iniciante, amador, ou quer aperfeiçoar?"

- Avançado

Aí ele soltou um: ahh, então tá bom.
E eu continuei: avançado de ruim.
cacacaca
Todos sorriram e o ambiente ficou melhor pra meu lado.
Então, ele deixou o casal de irmãos treinando, ao som de um pé de serra. E veio até mim.
Fiquei logo nervoso. Será que ele iria me chamar pra dançar?
Não era isso. Ufa.
Ele me colocou em frente de um espelho, e pediu que eu repetisse à exaustão uma série de passos que ele fazia.

"Pé esquerdo pra frente, pisando uma barata com a ponta dos dedos, pé direito pra trás, como se tocasse numa parede, com a ponta dos dedos. Junta, e segue na lateral: passo para esquerda, junta, esquerda, junta, direita, junta, direita, junta, agora pra frente, matando a barata, e segue..."

Eu suava frio. E era muita informação pra decorar. O casal de irmãos tirava onda de meu desconforto, olhando-me de soslaio. 
Acho que me dei mal. Achava que teriam outros alunos, para distribuir o nervoso e a atenção entre eles. E éramos só 3, e dois bem melhores que eu. 
Mas, eu bem que me esforçava. Contudo, em muitas vezes confundia esquerda com direita, ou frente com trás. E aí danou-se!
Escrevo com a esquerda. 
Então, a direita para os outros, pode ser para mim a esquerda.
Entende?  Lógico que não, só quem é esquerdo sabe o que falo. "Vira para a esquerda", e queremos virar para direita. rsrs 
E tome repetição, eu me olhava naquele imenso espelho, e queria era correr dali. Foram os 60 minutos mais longos de minha vida. Suava frio, aperreado, toda vez que o professor chegava perto de mim, para aferir meus passinhos de elefante aprendiz,  de tablado de picadeiro, no choque mesmo.

E tome bronca. "Você não está matando a barata, com a ponta do pé esquerdo. Bote o peso na direita. Não vire o dorso. Não mexa os quadris para os lados. Está abrindo muito na lateral".
Pensei comigo, como não mexer o quadril?  Pode isso Arnaldo?
E aquele espelhão me intimidava. Projetava nele minha ignorância, ampliada ao extremo. aiaiai
E se olhar muito pra ele, aí é que erra mesmo. E se não olhar, erra também.  Nunca admirei tanto os dançarinos como ontem.  Aí o professor chegou mais uma vez. E vinha com olhares languidos para mim.
aiaiai 
Aí ele me deu as mãos e disse, dance comigo. Agora fodeu mesmo, pensei!
E lá estava eu, enlaçado por aquele marmanjo e bailando ao som de Flávio José.
Matou aquela música Tareco e Mariola, pois vou associar à bafo de macho no cangote. Eca.
Depois de umas 4 piruetas, ele chamou a moça e trocou de pares.

Ela olhou pra mim, do alto de sua desenvoltura, como quem diz, "e será logo eu a cobaia dele"?
Ouvindo os pensamentos da moçoila, nunca me senti tão rejeitado. Queria os braços do professor novamente. rsrs
E começou o forró e eu tinha que repetir os passos do espelho, agora com a moça. Não precisa dizer que errei várias vezes. Eu nem olhava para ela, tamanha vergonha. Fiquei da cor do pimentão, várias vezes, dava pra fazer moqueca com minha face rubras.
E ela me dizia, em tom de quem não está gostando de treinar mais eu: "É você quem me leva, indique com a mão direita o próximo movimento."  Agora lascou Maria, Inês e Preá. Como indicar se nem eu sei, pensei.  cacaca
E tome aperreio. Aí o professor tirou a música, chamou todos para o centro da roda, disse que eu estava indo muito bem.
Filho da puta mentiroso. E liberou a todos nós. Pedi desculpas a mocinha, que sorrindo disse que "não foi nada".
Cacaca  Então foi.
Cheguei em casa e me vi repetindo os passos olhando para o espelho do quarto. Acordei hoje com aquele: é 1, é 2, é 3, é 4, e para os lados, é 5, junta, é 6 junta....

Simulei com uma vassoura e me achei o cara.   rsrs

Uma sensação de felicidade invadiu meu ser. A felicidade de se propor a aprender algo que há muito tempo sonhava. Eu sou de Campina Grande-PB, terra do São João, e não saber dançar forró é imperdoável. Sofro bullying desde pequeno. 

Então, aos 53, tá na hora de aprender. Nunca é tarde pra aprender algo. E acho que a velhice se dá quando desistimos de "curiosiar" a vida, suscitando uma profusão de novos quereres, aprenderes e experiências a que nos permitiremos.

Na próxima aula, vou tomar uma  chopp antes, para ficar mais mole o cabeção.

Confesso-lhe que inteligência físico-espacial não é meu forte. Tenho uma perna esquerda que cisma que é direita.  E decorar uma série simples de passos para mim é uma tortura. Quando ele chega no passo seis eu já esqueci do dois. rsrs

Mas, enfrentar os medos, e o abismo do desconhecido, com todos as limitações e dificuldades nele inserido,  é fundamental para aprender algo e crescer.

Crescer dói, e não se chega na janelinha de nenhum lugar da vida, sem esforço. 

Vou aprender sim. Mesmo que repita por meses uma série, que para outros em uma semana já dominaram. Eles são eles, eu sou eu.
Tenho meu próprio ritmo e capacidade de aprendizado desse tipo de inteligência que lhes confesso que sou fraco demais. Prefiro mil casos de terapia para encaminhar, prefiro até montar móveis, seguindo aqueles roteiros que ninguém entende. Do que lidar com meu pouco jeito de fazer evoluções com o corpo. Mas, num desisto fácil quando cismo em aprender algo.

Oxente, isso será fichinha. Depois vou aprender a velejar. Ah se vou! 

Vou continuar, não desistirei. Acho muito bonito quem sabe dançar. E creio que a dança pode melhorar os relacionamentos,  a intimidade do casal. A dança é uma linguagem de muita cumplicidade e atenção para com o outro, para com o par, e quero isso para minha vida. 

Eu vou aprender a dançar. Do meu jeito, no meu ritmo, cada dia um pouquinho mais. Se não valer pela dança, vale pelas risadas sobre mim mesmo, e meu corpão desajeitado. Será mais fácil do que fazer dieta e sair do sedentarismo. 
E vale muito sentir esse frisson do "não sei, mas vou aprender".
Vale pela socialização, vale por se sentir vivo em querer fazer e viver algo diferente. Afinal, como diz o poeta, "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena". Fernando Pessoa   

Mesmo sem ver, não estamos sós! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era um daqueles dias em que acordamos com azia emocional, lembrando das coisas que deixamos para trás, não realizadas, ou nas quais demos com os burros n´água.

Todos temos dias assim, nos quais do nada vem aquela ressaca emocional e nos sacode.
Então, resolvi buscar minha terapia para dias cinzentos, que é caminhar. Nesse dia, tive sorte de estar na praia de Coqueirinho do Norte (Baía da Traição-PB).

Praia pouco frequentada, e atracadouro natural de pequenos barcos pesqueiros, cujos pescadores por ali moram.

Deixei JG com meus pais, e segui  para minha terapia andarilha.  

Após um quilômetro de caminhada, olhei para trás e vi que deixava um rastro de pegadas, e que eu e elas éramos os únicos que tocavam naquelas areias. Naquela manhã de segunda feira, pelas 9hrs.

À frente, nenhum sinal de humanos, e por uns bons 2 km. 

Tive uma sensação de que estava só, naquela jornada em direção ao molhe. 

Quantos dias acordamos com esta sensação de estarmos sós, diante da vida que precisa amanhecer em nossos corações, e que ainda se apresenta nublada, prologando os ecos de uma madrugada de sentimentos?
   
Comecei a prestar atenção no que ocorria à minha volta, como quem procura se conectar a algo maior, para ajudar no nascer do sol interior.

Não havia qualquer som urbano,  na partitura daquela caminhada. 

Ouvia o som dos ventos, o canto das ondas, e o grasnar das aves de beira-mar. 
Esforcei mais um pouco a percepção e juro que ouvi os barquinhos conversando com a maré, em sua negociação de espaços.

Fixei o olhar à minha frente e vi pequenos tracinhos moldados na areia.

Fiquei encasquetado com aquilo, e eram muitos, que já estavam ali e eu não tinha notado antes.

Olhei para trás e confirmei que ali também eles estavam.

Eu é que não tinha percebido ainda.

Quando acordamos "pegando mal" no motor de nosso coração, acabamos por não ver um monte de coisas que ao nosso lado acontecem, coisas boas, belas e virtuosas.

Então não mais me senti só. Aquilo que eu via eram as pegadas das andorinhas da praia, que alimentavam-se à beira-mar.

Tão tenras pegadas, tão frágeis, mas estavam ali, como sinais a me dizer: "Ei, venha cá, estou á sua frente, abrindo caminhos...!

De repente, uma paz tamanha invadiu meu coração.  E lembrei que na minha vida também existe um monte dessas pegadas.

Quase imperceptíveis, que agem sem barulho, sem ostentação, que deixam marcos em meu viver, e não marcas.

Tão cuidadosas, tão cheias de amor, que vão à minha frente, abrindo caminhos, desbravando sonhos e fazendo construir os novos dias possíveis.

Não estamos sós!

Nem bem digitei essa frase acima, e o WhatsApp apita, avisando de nova mensagem.  Paro para escutar e é o Adalfran, zelador do prédio, dizendo que passou cedo para deixar um café para mim. Que está na soleira da porta, já que não acordei quando ele tocou a cigarra.

Não estamos sós!

Numa comunidade em que participo, um neto de uma das participantes teve reação à vacina da febre amarela.  E está hospitalizado. Gente de todo o Brasil, participantes dessa rede, se irmanam em preces e mensagens de otimismo. Aquela vovó não está só.

Um carro quebra na faixa do meio da BR 020, sentido Sobradinho-DF para Brasília. O trânsito fica infernal. Um motorista de outro veículo para o carro, desce, e ajuda a empurrar o carro quebrado  até o acostamento. Colocando a vida dele em risco, e até o carro que parou onde dava. 

Uma amiga acompanha a retirada de um sinal do meu nariz, as dores após anestesia, e monitora a ingesta dos remédios prescritos. Às três da manhã, recebo um zap com: "Como está a dor? É hora de tomar a segunda dose dos remédios!"

Não estamos sós.

Embora nossa estado de iluminação espiritual nem sempre deixe ver, muita gente já acordou antes de nós para preparar nosso café da manhã, nas horas e dias que nos sucederão.

Entendem a metáfora?

Essas pessoas são como as andorinhas de praia. Quase não são percebidas, de tão elegantes que pisam sobre o terreno do viver. Mas, deixam seus sinais de presença em nossa caminhada. Nossas pegadas não estão mais sozinhas. Elas seguem um rastro do bom, do belo, do manso e solidário, de muitos que estão à nossa frente, abrindo caminhos. Nos ajudando.

E, muitos nem conheceremos que são. É aquela recepcionista que conseguiu te encaixar entre uma consulta e outra.

Pensamos, "que sorte".  Sorte nada.  São as pessoas-andorinhas que deixam nosso viver melhor, mesmo sem as reconhecê-las, ou perceber seu papel, elas estão ali presentes - tornando nossa vida melhor.  

E suas pegadas são marcos em nosso viver, não deixam marcas em nosso couro, pelo contrário, são como band-aids que protegem nossas feridas emocionais, dando a elas tempo e melhores condições de cicatrizarem.

Cheguei à uma curva de praia, olhei para trás, e vi que a maré levou minhas pegadas.

Mas as da andorinhas não, pois elas subiam a areia da praia, acompanhando a evolução da maré.

Então lembrei que a caminhada se faz é no caminho em que se olha pra frente. E que precisamos também subir a areia, sempre que a maré for forte e crescente.

E que o Compositor do Tempo se encarregará de apagar as pegadas passadas, e que precisamos de novas pegadas. Precisamos continuar a nossa jornada. 

Não adianta voltar pelo caminho, querendo pisar sobre o pisado.  Aquilo já não existe mais, a força das marés já apagou o terreno pisado, depositando nele novas e virgens areias, ansiosas por novos pegadas. 
Isso mesmo, novas pegadas. É isso que podemos deixar, ao focar no presente e futuro. Pegadas mais cuidadosas, amorosas, mirando na terra para não pisar em cima de coisas que nos farão mal. 
Quase marcos ou sinais, como os das frágeis andorinhas que me disseram: "Ei, estamos aqui te fazendo companhia, não estás só".

Não estamos sós!   Um monte de coisas estão acontecendo na janela do amanhecer de nosso viver, aquele que vem ali dobrando a esquina, e que nele existem um monte de situações e gente preparando e facilitando o terreno para nosso existir. 

Só precisamos reconhecê-las e ser-lhes grato.  É preciso perceber as pegadas à nossa frente, nos amando e orientando, como sinais de si mesma.
E, elas nos conectarmos, sentindo-nos mais protegidos e corajosos para enfrentar o futuro, com todas as suas incertezas, mas cheio de esperança. 
Não há mais trilho do caminho na volta.
O mar apagou.

Agora, resta-nos moldar nossa vida com novas pegadas, palmilhadas à frente, sem ficar remoendo, vitimizando-se, ou num saudosismo impotente, que insiste em querer  voltar de onde já se veio.  

As pegadas passadas nos falam, são como professoras da vida que com elas podemos aprender muito.
Num esforço de humildade, para além da arrogância do ser e do saber, ou de estéreis justificativas. 

Sem querer voltar por onde já passamos.

As marcas que deixamos nos outros, e em nós mesmos, fazem parte de nossa história de vida.  Mas, são janelas que se abrem para o passado. O máximo que podemos fazer é aprender com elas, para não mais marcar pessoas em nosso conviver. E ser para elas marcos, que sinalizam só coisas boas.  Como os pezinhos das andorinhas naquela terra, sinalizam para mim que eu não estou só.

Mamãe, eu te amo! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Aquele dia para ela tinha que ser transformado em dois, de tantas coisas para resolver que consumiam as horas.
Era fazer pagamentos, emitir documentos, correr para fazer prova de roupa, para natal e ano novo, bem como comprar presentes natalinos faltantes. Somado a isso tudo, uma longa viagem de estudo se aproximava, tendo trabalhos para finalizar e textos para estudar até lá.
Ela chegou na sessão de coaching agitada. Eu tive até vontade de reduzir o tempo, ou adiar a sessão, para contribuir com o tempo dela.
Mas, ela não aceitou, precisava falar das alegrias, medos, esperanças e frustrações em relação à meta daquele doutorado na Espanha.
Ela falava de seu sonho de mais uma etapa do doutorado, que iria recomeçar em janeiro, com faíscas nos olhos.
Contudo, temia que a débil saúde do pai, que morava noutro estado, no qual iria passar natal e ano novo, acabasse piorando.
E, entre o pai e o doutorado, ela optaria por ficar com ele, naquele momento de sofrimento, caso necessário fosse, mandando às favas o doutorado.
Enchi os olhos de lágrimas, de tão belo gesto, de tão abençoada filha.
Como aprendo com meus pacientes de terapia ou de coaching.
Desviei o assunto do pai, voltando para a meta do doutorado. Os coachs são maestros de metas.
E, ela retornou o assunto com olhos marejados de felicidade. Pensei comigo, ela ama esse tá de doutorado.
E, quando estamos cansados, agitados e sem tempo, basta um amor chegar até nós, que ao falar dele temos todo o tempo do mundo, e relaxamos o couro da alma naquelas palavras que aos borbotões falamos do amado. Quem ama transforma meia hora num dia, quem ama transforma minutos em horas, só para estar com o amado.
Aí, o telefone dela toca na sessão.
Ela pede licença, o atende, e ao desligar me diz que era a filha, precisando dela.
E que vai passar em casa, pegar um balde, uma vassoura, um rodo, pano de chão e produtos de limpeza e vai ajudá-la.
Eu caio na gargalhada e digo-lhe, como assim?
Ela me conta que a filha se mudou ontem, e que o combinado com o inquilino do imóvel anterior, era o de entregá-lo limpo. Mas que, por ser a última semana do ano, a filha não encontrou diaristas disponíveis.
Então, apelou para a mãe, na esperança que a mãe achasse alguma.
Minha coache não pensou duas vezes, despediu-se de mim, e foi assumir a limpeza, ajudando a filha.
De tarde, eu mandei um zap para ela, tirando onda, perguntando-lhe se podia vim limpar minha sala, se sobrasse tempo.
Ela caiu na gargalhada e disse que deixou o ex-apartamento da filha um brinco, tudo limpo e cheiroso, e que tinha conseguido resolver as outras pendências, ao optar por facilitar a vida, e simplificar a agenda, deixando para depois, o que pode ficar para depois.
Não dormi naquela noite, véspera de natal, com aqueles dois gestos daquela filha. o primeiro de adiar os sonhos, caso o pai piorasse. O segundo, de esquecer dela mesma, pegar um rodo e uma vassoura, e ajudar os filhos.

Você deve estar me perguntando: Por que tu lembrou disso Ricardim? Quase dois meses depois.
É que hoje ela teve sessão comigo, e me mostrou um WhatsApp que recebeu da filha, acessando-o ao estacionar aqui na Ânimo. O texto era de quatro palavras.
"Mãe, eu te amo!"
Perguntei se tinha ocorrido algo ontem, para que a filha se expressasse daquele jeito. Ela me disse que não. Que foi algo de que ela não esperava, aquele eu te amo, pois não fizera nada de especial
Aí lembrei-lhe que ela fez sim. Ela pegou um rodo e uma vassoura e foi ajudar.
Então ela sorriu, um sorriso lua cheia, e disse que aquilo era a essência dela, como mãe, e que independente dos filhos retornarem com palavras de carinho, ela sempre estaria ali, pertinho deles, com um rodo e uma vassoura, para apoiá-los em tudo que fosse possível, sem tirar deles a capacidade deles mesmos se responsabilizarem pelas suas próprias vidas.
Uauuu!!!
Lembrei de minha mãe e pai, do quanto pegaram seus rodos e vassouras para limpar as sujeiras que eu ia deixando pela vida.
Lembrei de tantos amigos que foram solidários comigo, em momentos difíceis pelo qual eu passei (coração) e o JG (UTI Neo-Natal).
Para eles, eu queria dizer, voltando as fitas de meu viver, "eu te amo".
E, como é bom receber um "eu te amo!"
Minha paciente não sabia onde colocar tanta alegria. Olhava aquela telinha do celular como se fosse um bilhete de loteria premiado.
Esqueceu até de contar dos quinze dias que passou na Espanha, estudando, dado que o amor - expresso pela filha, literalmente trocou a agenda da sessão. O amor altera agenda e cria novas prioridades.
Receber um "eu te amo" deve ser o que mais em nós produz endorfinas. Não temos mais como ser os mesmos, após alguém nos dizer: eu te amo.
O impacto dessa frase em nós nos eleva à condição de eternos demais, para sermos mortais.
Aprendi muito nesta sessão. Aprendi que um coração disponível para ajudar, com o que tem, um rodo e uma vassoura, pode galvanizar nas paredes do coração uma marca de cuidado e atenção, para om o outro, cuja lembrança nunca será esquecida.
Aquela jovem, também aprendeu, com o exemplo da mãe, que mesmo assoberbada com suas próprias tarefas, esqueceu tudo para ajudá-la, uma lição linda. Trocou prioridades pela força do amor.
De um amor que se expressa, de um amor que se converte em práticas, saindo das piedosas intenções que não se mexem em ações.
Se só o que temos para ajudar é a nossa disponibilidade generosa, talvez seja isto mesmo o que mais a pessoa esteja precisando.
Será que eu faria aquilo? Será que deixaria minhas pendências que me alucinam numa frenética ansiedade, para ir socorrer alguém com algum serviço que sei fazer, e que posso fazer?
Quantos rodos e vassouras estão guardados em meu coração, esperando que eu dê a eles uma oportunidade de servi-los aos outros?
O que de fato, ao ingressar o amor com sua agenda própria, em nosso viver, vale a pena ser adiado, cancelado, ou simplesmente deixado pra lá, para que aquele momento seja vivido em sua completude maior.
O amor nos completa. E, só ele tem o dom de elastecer o tempo, ecoando no infinito os instantes vividos no hoje, e alterando toda a ordem e natureza das coisas.
Quando ele se faz presente, e em nós se manifesta, ele dá um novo significado às nossas vidas, e ao próprio tempo, nos tornando lendários ao ler uma frase assim: "mamãe, eu te amo!"
Agora vou ali comprar mais rodos e vassouras, para ter maior disponibilidade de apoiar pessoas, na área de serviço de meu coração!

Em tempos digitais, entre quatro paredes habitam milhares (Autor Ricardo de Faria Barros)

Abro os jornais matutinos, das páginas de portais digitais, e flagro uma notícia de que dois trabalhadores da área da saúde foram demitidos.
O motivo da demissão foi a postagem de um vídeo, nas suas redes sociais, de uma dança performática que fizeram nos embalos da música “Que Tiro Foi Esse?”
Seria pura arte, se eles não estivessem trabalhando num hospital, chamando para contracenar, inclusive, uma cadeira de rodas do local.
Corta a cena, e recordo que recentemente uma das festas corporativas de final de ano no Brasil, escolheu como tema um Baile à Fantasia.
Contudo, um funcionário trocou o À pelo De, e apareceu no pedaço provocando a todos e todas com sua fantasia erótica.
Ele foi “vestido” de "Negão do WhatsApp", personagem erótico que circula pelas redes sociais, de dotes avantajados, qual uma bengala.
O cara se empolgou e passou a noite roçando aquilo ali em todo mundo, correndo atrás das pessoas e colocando-as em situações constrangedoras, para algumas, e reveladoras para outras, mais alcoolizadas e danadinhas.
Fiquem certos de uma coisa, nessa sociedade midiática, alguém está sempre com o gatilho da câmera apontado para nós. E foi o caso. Fizeram o vídeo do funcionário-bengala e ele viralizou. Chegando à sede da empresa, num outro país. O Presidente teve acesso ao material, não me perguntem como, e não gostou do enfoque da fantasia.
E pimba!
Tacou-lhe uma outra bengala no crachá do sem noção, e o demitiu sumariamente, por dano à imagem da empresa.
Demitiu também o chefe dele que defendeu a brincadeira como uma arte peniana, e também o chefe do chefe que disse que no Brasil isto era permitido.
É preciso desenvolver uma nova competência em nossos trabalhadores, nesse contexto de verdadeiras redes neurais de interações virtuais: fruto da simplificação, disponibilidade, massificação e democratização do acesso às tecnologias de comunicação e informação.
Seria ela a do “Se Mancol Digital.”
Colocando em termos mais nobres, a competência seria a do Discernimento Digital.
Coisa que antes fazíamos e que ficavam restritas a sala do trabalho, ou às quatro paredes do salão de festas, com pouca ou nenhuma repercussão, agora são propagadas beirando a velocidade da luz. E sem levar com elas o contexto do que realmente ocorria. Elas só levam a cena editada, os melhores momentos. Ou os piores.
Pare um pouco o que ler. Conte quantos grupos você tem no WhatsApp.
Imagine se você reproduz uma imagem, texto ou vídeo de algo nesse grupo. Quantas pessoas são atingidas? E se elas fizerem o mesmo, com o material que de você recebeu?
Valho-me de um texto de Cicília M. K. Peruzzo (2003), de seu artigo: Mídia Local e suas interfaces com a mídia comunitária no Brasil, para continuar essa reflexão:
“A efetivação das interações mediadas pelo virtual fez com que fossem criadas e ampliadas novas formas de relações sociais e pessoais, com base na proximidade de interesses e
identidades, a partir da emergência e consolidação das novas tecnologias de comunicação e
informação”.
O que Cicília nos ensina é que a proximidade de interesses e a busca por identidades podem contribuir para elevar o nível de exposição, como se a pessoa buscasse um certo tipo de reforço positivo, de aprovação, de seus pares. Como se fossem posts pedindo um help de atenção.
Então, quanto mais obtusa seja a cena, ou impensável, a pessoa acredita que será mais admirada, ou tida como corajosa.
Lembra os militares que dançaram com fuzis no ar?
“Vídeo que circula em redes sociais mostra soldados fardados, dançando e brincando com armas, enquanto cantam funk durante o expediente em Brasília. Os militares pertenciam ao 1º Regimento de Cavalaria de Guarda, tropa responsável pela guarda presidencial e popularmente conhecida como Dragões da Independência.”
É disso que estou querendo falar. Lugar de trabalho não é lugar de fazer este tipo de vídeo, nem tampouco em suas perigosas festas corporativas, ou clubes da empresa.
Porque essa pessoa que sente necessidade de gravar tudo, e sair mostrando para seus pares, no fundo está querendo ser vista. Então, ela pula o “Corguinho” e faz da vida uma encenação, como se estivesse em permanente self de si mesma e postagem de todo tipo imagem, vídeo, e de opinião, doa a quem doer, desde que atenda aos interesses daquele grupo de identidade dela, tido como similar, e aprovador do que publica.
E a pessoa vai entrando numa onda perigosa, com limites pouco definidos entre o público e o privado. Entre o pessoal e o profissional.
Destruindo sua imagem e se expondo indevidamente.
Creio que essa educação digital se faz muito necessária nos tempos atuais. Até como forma de se fazer uma melhor gestão de carreiras, e até de protegê-las.
Cabe as áreas de pessoas das instituições, geralmente as responsáveis pela formação dos quadros organizacionais, prover um espaço de reflexão sobre este tema, sempre balizado pela ética, respeito às diferenças e expressões de cada individualidade.

E, deixo um alerta final. Essa mesma reflexão vale para nós, nossos filhos e amigos, nos educar para um maior discernimento e melhor postura no mundo digital.

Cartas ao JG - Não era apenas um lençol. (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel)


Sabe filho, dias atrás eu senti tua maozinha me cobrindo com um lençol, durante a noite.
Eu tinha vindo para cama mais cedo, e tu ficou vendo uma novela infantil, com Dona Celina.
Estávamos de férias, em João Pessoa, e dividíamos uma cama de casal, num dos quartos de um apartamento que aluguei.
A sensação era tão boa, de ver teu jeito em me cobrir, certificando-se que nada ficara de fora, que eu queria acordar e te abraçar, agradecido pelo gesto, mas não podia invadir aquele teu momento de carinho para com teu pai.
Foi um dos meus melhores sonos daquelas férias.
No outro dia, antes de irmos para a praia, vi que tuas unhas estavam grandes, e pela primeira vez as cortei - tarefa que antes era essencialmente de tua mãe.
Confesso-lhe que fiquei um tanto desajeitado, e com medo de te ferir, pois sou esquerdo.
Tesouras e abridores de latas não combinam conosco.
Mas, entre tentativas e aperreios, creio que consegui apará-las.
E tu sorria, vendo minha agonia.
Teu gesto de cuidado, na noite anterior, precisaria ser retribuído. Era o que eu fazia.

Aliás, acordei cantando e assobiando, como faz quem acorda após uma noite em que recebeu doses de amor gratuito.

Como o amor nos transforma!

E, se houvesse um aparelho de medir amor, um dos itens aferidos por ele seria, sem dúvida alguma, a intensidade das práticas de cuidado para com essa pessoa amada.  Como tu fez com teu pai, ao me cobrir durante a noite. protegendo-me daquele ar-condicionado muito doido.

Filho, não negue dar amor a quem habita teu meio.Seja serviço, seja doação. Mesmo que todos estejam embrutecidos, e alguns envaidecidos de tanto culto a eles mesmos, nos meios em que viverá, não negue o amor que tem para os outros. Nem por não receber em igual dose do que se dá.

O amor é um mistério paradoxal, pois só se acumula, só se renova, ao ser doado.
Quem guarda amor, diminui o amor em si mesmo.
Amor é algo que precisa de um tu, de um eles, de até um nós, para poder vingar num eu.
O amor é como uma musculatura que precisa de exercícios para manter seu vigor.

E, têm dois exercícios muito bacanas que abastecem o amor em nós mesmos. Ambos, não acontecem conosco. Sempre com o outro, por isso são mistério e paradoxo, como falei acima.

O primeiro foi o que tu fez comigo É o cuidar do outro. O cuidar não precisa ser oneroso, ou complicado. Aliás, creio que os melhores cuidados são os mais simples, como o que tu fez comigo.
Ou por exemplo, avisar que hoje é o último dia da Nota Legal, que o seguro DPVAT não vem mais no IPVA, ou fazer um cafezinho para ela (e), ou saber como foi o dia dele(a), interessar-se sobre a saúde dela (e).

Grave bem este verbo: Interessar.

Só cuida quem se interessa. Se tu não tem interesse pelo outro, como perceber as necessidades e expectativas dele, para tentar responder a elas, e até atender - no que puder, antes mesmo que ele lhe peça?

Quem se interessa pelo outro cria pontes, cria vínculos, cria sentido de coletividade.

O outro exercício da renovação do amor é da admiração do mundo do outro.

Exercitei isso muitas vezes contigo. Ao admirar tuas histórias e personagens infantis. Fiquei até craque sobre o Naruto e um certo tipo de game que jogamos no Shopis, várias vezes.  Já sabia até os macetes, que tu me passou. "Atira no cristal verde, pai! Ganha uma vida".

E tu me admirava contando histórias. E, quando boto pra falar...
Teve uma hora que te ensinei sobre a arte de fotografar, dizendo pra ti: "olha ali que belo, olhe aquela flor, olha aquela falésia, olhe aquele pássaro...'"
E tu prestava atenção como um hominho, até passando a me mostrar também os teus olhares sobre as coisas belas que via: "olha aquela nuvem em forma de cachorro".

Mas, filho meu, andamos pobres nessa competência de se interessar pelo o outro. Muita coisa nessa sociedade competitiva e consumista, ensina a fazer o mundo girar em torno de nós mesmos.

E só vamos desenvolver esta competência, fundamental à fonte do amor em nós, estando disponível e 100% presente ao outro, esforçando-nos para apreciar o mundo de valores dele, é que em nós o amor crescerá. Admirar  o outro é uma forma de participar de sua história, cultura e dele mesmo.

Portanto filho meu, quando estiver lendo esta carta, continue estando atento a quem está passando frio perto de ti. Pegue um lençol e altere o destino destas pessoas, o que em muitos casos não exigirá muita coisa de ti, apenas que preste atenção a elas, e tome a iniciativa de servi-las, ao se doar.


Obs: Quando da publicação deste texto, o JG estava com 8 anos.


No amor, deixe cheirar o cuscuz

Cyca Revoluta 
Quase nunca lembro de meu sonho. Mas, pela madrugada sonhei abraçando minha naninha e sentindo seu cheirinho bom. É impressionante como o gesto de aspergir um perfume, numa naninha, pode transformar uma boneca de pano num memorial ao amor.
As Naninhas do Bem são bonequinhas de pano, doadas a crianças hospitalizadas.
Ganhei uma Naninha de uma aluna da Pós em RH UNIP-DF.

No sonho, eu agradecia pela companhia da Naninha em meu viver, um refresco perfumado, para dias de deserto. Era como se com ela eu dividisse sonhos de amanhecer dias encantados. Aquele perfume refrescava minha alma, tal qual aroma de terra molhada, de brisa Aracati, de relva orvalhada em flores que se oferecem a rasantes vôos de borboletas azuis.
Então, meu sonho foi sobre o aroma, aroma afetivos, aroma cotidianos que vão marcando nossa história.

Se é uma coisa que nos torna profundamente humanos é a memória afetiva de aromas.

No bairro de Jaguaribe, aqui em João Pessoa, sempre que visitava meus avós maternos eu caminhava por alamedas de jambeiros e mangueiras centenárias, nas proximidades de sua casa, e sentia vindo no ar um gostoso cheiro de terra molhada. Aquilo era algo que me fazia elevar o coração. Sempre que sentia aquele cheiro, em qualquer outra parte do Brasil, eu lembrava de meus avós. Hoje sei o que era aquele cheiro de terra molhada vem da Palmeira Cyca Revoluta (Sagu), da espécie macho. E se dá quando o espécie macho entra na inflorescência e libera esse aroma, atraindo pássaros, borboletas e abelhas para ajudá-lo a levar vida até sua amada, em forma de pólen.

Ainda aromatizando o sonho, aspirei o cheiro do café da Celina vindo da cozinha. Uauu. A vida também amanhece com cheirinhos de café.
Tomei um golinho com ela, e saí caminhando pela avenida que margeia a praia, à caça de padaria aberta.
Àquela hora, no haal do elevador sentia o cheiro do café da Celina, agora era o de queijo na chapa, que provocava os vizinhos.
Ao sair, Celina perguntou-me se eu continuaria o curso de fazer cuscuz.
Abri um sorrisão e disse-lhe que seria melhor amanhã. Hoje é domingo, temos visitas, e não é dia de arriscar na cozinha. rsrs
Continuei dizendo-lhe: ainda estou processando uma parte da receita que me ensinou, quando me disse que só desliga o fogo “uns oito minutos, após cheirar”.
Caminhei matutando sobre o tempo dos cheiramentos.
Para cujo desfrutar precisamos apurar o olfato. Aspirando as essências do bem viver.
Gostei da forma como Celina me ensinou qual o tempo do fogo aceso, “após o do cuscuz cheirar”.
Creio que o amor é esse fogo que faz cheirar. Mas, ele pede tempo, paciência, investimento, renuncia, flexibilidade e adaptabilidade ao outro. Ele pede um espaço do conhecer e reconhecer o outro.

É o tempo da espera do cheirar do cuscuz.

Após o que, a massa do amor estará pronta para ser servida e desgustada.
Nos relacionamentos, andamos querendo antecipar o tempo do cuscuz. E falo de todas as espécies de relacionamento. Pais e filhos. De namoro. Entre líderes e liderados. Pastores e suas ovelhas.
Queremos comer o bom cuscuz do relacionar-se, mas não queremos esperar que ele fique pronto, investindo nosso maior tesouro nisso, nosso tempo para o outro. Nossa disponibilidade em acolhê-lo em nossas vidas.
Sem mais querer esperar a maturidade do amor, sua evolução, acabamos queimando etapas, ou matando o outro com expectativas e cobranças que não cabem ainda, antes do cuscuz cheirar.
E, o que era antes algo bonito, torna-se asfixiante, pobre, sem sabor. Matamos a relação por excesso de tempo no fogo, ou por falta de tempo no fogo. Por ter desaprendido a “cheirar” o seu cozimento.
E tudo vai ficando muito rápido, frenético, como se o amor fosse um se alimentar num self-service. E não em restaurante do tipo slow food. Não se ama nada profundamente sem os oito minutos da Celina, após o cheirar do cuscuz.
Sem tempo para esperar o cheiro do cuscuz, acabamos tirando-lhe do fogo antes da hora, e ele estará cru, ou deixando mais tempo do que devia, por não reconhecer seu aroma, tornando-lhe seco, sem aquela elasticidade da massa, que derrete corações amanteigados.

Voltando dos mil pensamentos, e já avistando a esquina da padaria, escuto um som vindo de uma rua paralela à praia.
Aproximando-me do local, uma cena comove meu coração.
Um jovem faz uma serenata improvisada para sua amada. No rádio do seu carro ele bota pra tocar Chiclete, tira a camisa, a gira no ar, abre os braços sob a janela dela, e grita aos plenos pulmões:
“Então diga que valeu
O nosso amor valeu demais
Foi lindo, ficou pra trás.
Um beijo em você eu quero dar
Saudade presa no meu coração
Eu ando louco alucinado
Muito doido e apaixonado por você”

Sabe o que ele faz? Ele exala para ela o perfume da Cica Revoluta. Ele cultiva o tempo do cozimento do amor, os oito minutos.
Ela sai à janela, sorri, e pede que ele não acorde todos. Ele a obedece. E ficam se olhando, e eu a eles, sem poder continuar a caminhar. De tão linda a cena.
Recuperado de tanta beleza, volto sentido cheiro de pão quentinho, e o aroma da praia em desabrochar me elevar o ser, levando-me para casa novamente.
Um aroma de naninha que me fez deixar de se sentir migrante, forasteiro ou órfão de mim mesmo. Um perfume que diz: “Vou te trazer aqui...”
É isto que os aromas afetivos fazem conosco, nos trazem a algum lugar bom de viver.

Sobre banhos de cuia. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Foto:http://www.sobreviveremsinop.com.br/2011/02/quem-toma-banho-ganha-mimos.html
Da varanda do apartamento que aluguei em João Pessoa-PB, para merecidas férias da aposentadoria, coleciono cenas cotidianas de fazer vibrar corações.
Dela, vejo o nascer do sol, e não me canso de me emocionar com ele.
Ali fico um tempão contemplando a beleza do humano, em movimento em direção à praia, com seus encantos mil, após estacionarem seus carros no terreno vazio de meu prédio. De onde observo-lhes, do quarto andar.
Uns carregam seus bebês no colo, carrinhos, ou “cacundas”, numa animação só. Como quem diz: “chegamos”!
Outros seus isopores com cerveja. Uns outros levam baldinhos, boias e assemelhados.
Em comum a todos a aventura de chegar no mar, trazendo a família, amigos, farofa e tralhas.
Profundamente humano esse comportamento social em direção ao prazer.
E, alguns prazeres pedem cabine dupla para melhor serem degustados.
Pedem a presença do outro. A praia pede isso. Assim como a feira livre, a praia é lugar de vinculação, de ajuntamento de gente bacana e ali constrói sua felicidade possível, e com o que tem, e como pode.

A cena que vi hoje, cegou meus olhos de tanta beleza. Voltavam da praia, pelas 11hrs, presumo que uma avó, sua filha e o neto, de uns 13 anos, já um rapazinho.

A mãe abriu os vidros de seu Fiat Uno, para esfriar o calor.

A vovó então, com uma garrafa de água que tinha deixado dentro do carro, lavou os pés da filha, para que ela não sujasse mais ainda o tapete.
E, economizando água, molhou os cabelos de seu neto, a face dele, suas costas e peito, tirando-lhe um pouco do sal.
Depois, repetiu o procedimento do lava pés, agora com o neto.
Aí olhou para o que sobrara de água, não muito, e passou sua própria saída de mar nos pés, já que não sobrara nada para ela.
Uauuuu!!!!
Aquele rapazinho, guardará nas memórias afetivas, e para o resto de sua vida, tanto amor que recebeu de sua vovó, naquele banho que talvez seja o que de melhor tomará na vida.
O banho do cuidado, do amor, do reconhecimento e da importância do outro. Um banho com gotas de água contadas, integralmente doadas ao outro. Na contabilidade do amor, acumula-se saldo positivo o amor que se doa. E, nesta manhã, a vovozinha faturou uma nota para seu saldo de bons momentos vividos, na expressão de ternura ao outro.

Eu queria ter tomado aquele banho hoje. Acho que tu também. Quem não quer, após sair do mar, e sob um sol daqueles de rachar taquara, receber água doce para tirar o sal e sol do couro. Bom e refrescante demais.

Mas, caros amigos (as), o que mais me chamou a atenção foi a expressão de felicidade do garoto, ao receber um banho de cuia. Ele soube ser grato e expressar gratidão com o que recebia.
Não foram gotas de água perdidas. Elas multiplicaram-se no coração da vovó, que logo resolveu seu pé sujo, com sua própria roupa, sem ficar triste ou receosa. Em casa lava.
Nesta manhã ela ensinou muito à própria filha e ao neto, a mim que observava, e a você que me ler agora.
Ensinou que quem ama não conta as gotas, não faz amor conta-gotas. Faz amor banho de cuia. Despudoradamente, bobamente, intensamente e sem medo de parecer ridículo. Quem ama se lambuza com momentos, tornando-os instantes mágicos, ao tocar-lhe com as mãos do infinito.
Enquanto recupero-me da cena, recebo no meu celular uma mensagem do Thiago Bispo, um amigo que fiz coaching de carreira no BB.
Ele me diz que antes de ir dormir, na noite de ontem, sentiu necessidade de entregar umas palavras para mim. Então, ao enviar o texto diz que agora cumpria o seu desejo. E me deu um verdadeiro banho de cuia emocional, com as palavras que me destinou.

Então, senti o quanto pequenas ações no cotidiano podem gerar um enorme frescor na alma, tal aquele que o rapazinho sentiu, tirando de seu corpo o sal que lhe queimava a pele.

Um gerente que reconhece seus liderados, está dando banho de cuia neles.

Um vizinho que coloca água nas plantas do vizinho, dá banho de cuia na vida dele.

Alguém que dá uma carona, ajuda num trabalho, visita um doente, um apenado, protege uma criança de olhos bovinos, defende os direitos de cidadania e ética, dá banho de cuias.
 
Todas as manhãs recebo meu banho de cuia, e em forma de bom dia, lindo dia, e olho para vida com o olhar de um menino que se diverte com sua vó dando-lhe banho, com a água de uma garrafa de 1,5 litros de água mineral. É tudo de que precisamos, um litro e meio de água, para banhos de esperança, e a cada dia.
E você pode ser esta água para alguém. Eu posso. E nós podemos.
É só não achar que o que temos é tão pouco para dar. Muitas das vezes, os melhores banhos, virão do tempo que destinamos para ouvir o outro, ou de abraços quentinhos, ou de uma pessoa que nos diga o que nem sempre é doce de ouvir, por nos amar e querer o nosso melhor.

Viva aos banhos de cuia!

Temperando a Vida (autor Ricardo de Faria Barros)

Recentemente, aprendi a fazer moqueca. Aquilo que eu fazia antes era peixada. No dia de meu treino, olhando-a fazer aquele prato, e com tanto amor envolvido, descobri que um dos segredos era a fricção dos dedos, ao temperá-lo, deixando passar por entre eles o cheiro verde bem picadinho. Fiquei num canto do balcão, local de cozinheiros aprendizes, contemplando-a naquele estado de intensa entrega, de “flow”, mergulhada no que fazia.
É claro que o segredo de uma boa moqueca não é este. Isto que presenciei é amor.
Só quem ama o instante que em vive aprende a envolver-se tanto com ele, a ponto de antecipar sabores de futuro.
Prevendo o efeito, daquilo em que coloca a energia, nos ecos do infinito.
Bons cozinheiros sabem o que ocorrerá com a comida, após sobre ela lançar os temperos.
Ao lançá-los, sobre suas obras de arte gastronômicas, eles meio que sorriem interiormente, degustando-a antecipadamente em mil pensamentos.
Gosto dos temperos, da história deles, e do quanto contribuem para acentuar, fixar e realçar sabores
Você sabia que em algumas regiões é comum colocar folhas de alfavaca na água de cozimento dos caranguejos? Dando um sabor especial às caldeiradas de casa de praia, lugar de ajuntamento de pessoas legais.
Nós temos este dom de temperar a realidade, com nossa influência sobre ela, alterando-lhe o sabor, ao dar-lhe um significado e gostinho especial. E temperar pessoas, pela força de nosso amor para com elas.
Somos assim, tão único e belos, que podemos criar rituais, transformando momentos cotidianos em verdadeiros instantes mágicos, daqueles que não se repetirão.
Outro dia, contemplei de minha barraca de praia uma menininha que corria em direção ao mar, carregando sua boneca, toda escabelada, numa das mãos. Aquilo tornou-se um instante mágico para mim.
Vi que na pequena barraca de praia do Laércio, uma família se abriga do sol causticante, por não haver mais sombreiros disponíveis.
Laércio vem me trazer uma caipirinha, e pergunto-lhe como foi que eles ali se amoitaram.
Aí ele me falou que lhes ofereceu a sombra de onde trabalhava, por ter sentido dó da criancinha.
Laércio friccionou os dedos e colocou tempero na vida daquelas pessoas. Tornando-a um pouco melhor.
A vida nos pede, e em várias situações, aquele friccionar de dedos, colocando no que fazemos muito mais do que o que ele pode representar.
Colocando nosso amor, nossa energia espiritual e toque especial. Colocando nossa personalidade.
Por melhor que seja a receita que siga, sempre haverá algo que nela não está explicitado. Algo que só se aprende vendo. Como por exemplo, a colocação do cheiro verde na área central da panela, e não nas beiradas. Para que quem o cozinhe seja o caldo, e não as extremidades da panela que irá queimá-lo.
Perto de onde estou, um casal constrói uma piscina de areia para seu filhote. Instante mágico.
Uma namorada, do tipo rara borboleta azul, faz o namorado voltar para perto dela, quando ele dirigia-se ao mar, para passar nele um filtro solar, Loreal 50, eu vi.
Instantes mágicos. São eles que realçam, fixam e ampliam a percepção de sentido da vida.
Podemos ser mais cozinheiros de instantes mágicos. É só ficar atento ao que ocorre ao nosso redor, é só colocar o amor naquilo que fazemos.

Hoje meu irmão faz 55 anos. Logo cedo, fizemos uma foto todos juntos, conversamos animadamente em família, e criamos um instante mágico de confraternização pela data. Sua esposa, a Patrícia, juntou a todos num almoço de restaurante de beira-mar, coisa bacana.
E agora, à noite, levou o mano para dançar. Mesmo que o corpo dele pedisse cama, após uma tarde de sol, praia, cerva e festejos. Ela criou mais um instante para ele, não deixando ele ir dormir, sem antes dançar bem muito e celebrar com tudo que tem direito a este dia.
Instantes mágicos são como compotas, compotas emocionais, para um dia num futuro qualquer, serem novamente consumidos, ao sabor de doces lembranças.
Eu guardei, como compota emocional, aquele amor de minha mestre-cuca na arte de moquecar a vida.
Quem anda precisando de nosso tempero para que a vida fique mais saborosa?
Quem fricciona cheiro verde sobre você, todos os dias, tornando-o melhor?
Quem realça, fixa e amplia o sentido de teu viver?
Eu queria agradecer a estas pessoas, Borboletas Azuis, Brisas Aracatis, pessoas plenas de entrega de si mesmas, no mistério de amar.
Ser-lhes grato por tornarem-me menos insosso, mais saboroso e fazendo-me sentir importante para elas.
Seu toque especial em meu viver deu a ele uma nova dimensão, que só quem nos toca com amor consegue produzir. Só pessoas que têm o dom de temperar vidas saberá do que falo. E, depois que elas atuam na moqueca de nosso viver, ficamos muito mais suculentos e saborosos.

Planetizando a Vida (Autor Ricardo de Faria Barros)

Naquela manhã, acordei mais nervoso do que vendo uma disputa por pênaltis, numa final de Copa do Mundo, com Brasil jogando contra Argentina.  Afinal, seria o dia de meu desligamento oficial do Banco do Brasil, após um bom tempo de trabalho. Ansioso, chequei os documentos, botei gravata pela última vez, ufa!, e parti para o local combinado, no qual seria anotado a baixa na carteira profissional.
Quando de lá saí, eu não tinha o chão nos pés. Não devemos fazer esse tipo de coisa sozinho, pensei comigo. Senti como se estivesse sem a gravidade. Um misto de leveza e estranheza me invadiam o coração.  Agora eu não era mais um satélite que orbitava um planeta chamado BB. 
É estranho, mas fundamental, em algum dia de nossas vidas deixar de ser satélite.
De qualquer coisa que nos prenda a ela.
Pergunta-me como estou, um ano após aquele dia, e respondo a todos com um enigma:

Estou me planetizando. Num processo lento, mas permanente de redescoberta de mim mesmo. 

Muitos arregalam os olhos, sem entender. Outros fingem que entendem e engatam uma outra pergunta, sobre o clima, por exemplo. desviando o assunto.

Para alguns explico, o que farei para agora para vocês. 

Existem inúmeras relações que temos ao longo da vida que nos satelizam. 

Ficamos excessivamente dependente delas. Perdemos nossa própria órbita, luz e autonomia, ao girar tudo em torno daquilo a que nos fixamos, quase com uma obsessão fatal.

Têm relações a dois, assim, do tipo Satélite.  Na qual, nossa vida só tem valor se a do outro tiver. Nosso dia só terá luz, se o dia do outro se iluminar. Nosso riso só se abrirá, se o outro também sorrir.

Aí satelizamos nosso existir, em torno de uma pessoa. E morremos um pouquinho, a cada dia, por excesso de dependência dessa pessoa. 
A pessoa perde seus próprios interesses, gostos, prazeres e sua liberdade de ser, tornando-se refém da força gravitacional que o outro exerce sobre ela.  Esse excesso de apego reduz a relação a uma relação de dependência, do tipo mórbida. E terceirizamos nosso bem-estar ao outro, sob o qual damos voltas, tal qual a Lua sobre a Terra. 


Têm relações com o mundo do trabalho assim também. A pessoa passa a girar toda a sua vida em torno da empresa, e até o clube que frequenta é vinculado a ela. Amigos, diálogos, lazer, eventos, noitadas, tudo vai acontecendo em torno do ambiente cultural e negocial daquela empresa.  Até as camisas que usa na caminhada tem a marca da empresa. E a família, ou outros interesses profissionais, culturais, sociais e espirituais vão ficando para um dia qualquer... "quando tiver tempo, ou me aposentar".
O trabalho é idolatrado e a pessoa vira um satélite em torno do planeta CNPJ.  E é como se todos participassem quase de um igreja, com seus dogmas, ritos, mitos, heróis e vilões.  Tudo gira em torno dela. O que poderia ser chamado de comprometimento, de vestir a camisa, se for feito de forma exagerada vira uma doença, que exclui outras possibilidades de sentido. E, na aposentadoria, perde-se o planeta, sob o qual orbitava, e aí já viu, né?  


Têm relações de pais com filhos do tipo Satélite, também.  Enche-se as crias de cuidado, de proteção, de zelo, tudo ao excesso. Tirando delas mesmas a possibilidade de experimentarem a vida, com tudo que vem no pacote de viver. É como se os pais quisesse viver pelos filhos, ou afastar deles todas as barreiras que a vida lhes impõe. Pais assim são crueis para o casamento de seus filhos. Quando sentem-se que perderam seus planetas, nos quais orbitavam, para outras pessoas que "roubaram o coração dos filhos". Aí passam a exigir visitas periódicas, atenção e cuidado, como se entregassem a fatura pelos "anos que lhes dediquei a vida". E fazem chantagem emocional com os filhos, na vã tentativa de mantê-los por perto, afinal toda a vida desses pais passou a ser vivida em função deles, no desempenho do papel extremado de pais. Até o namoro, de um para com o outro, foi esquecido nas gavetas do coração, visto que eles tornaram-se satélites da vida dos filhos. 

Aprendi, neste um ano a me planetizar. Não quero mais ser satélite de nada. Nem de trabalho, nem de filhos, nem de vida afetiva, nem do próprio tempo, com suas marcações de coisas a fazer.

Aprender a ter luz própria, a voar para outras paisagens, a redescobrir interesses, a aventurar pelos limites e fronteiras dos sete mares, sem medo dos dragões que foram plotados nos mapas de oceanos desconhecidos. 

Toda relação Satélite x Planeta  anula um dos dois. Ninguém quer isso. Nenhum planeta quer isso de seu Satélite, falando do ponto de vista comportamental, emocional, e não astronômico.

Pergunte a uma mulher, que tem um satélite babão ao lado dela, e louco de paixão, se ela pediu isso. Aquele dedicação doentia e excessiva, a ponto de seu amado perder-se dele mesmo, dos gostos, interesses e outras vocações, para "cultuá-la e servi-la".  Ela não pediu.  Relações boas são entre planetas, pois juntos formam uma constelação. E, ambos estão inteiros, luminosos e com órbita própria, mesmo que combinada. Para que possam oscilar pertinho, um do outro, a um abraço de distancia.

Pergunte aos filhos de pais excessivamente cuidadosos se eles querem isso. Se eles querem que os pais devotem a própria vida a eles. Esquecendo-se do papel de marido e mulher, por exemplo. Ou de tantos outros papeis que a paternidade e maternidade vividas de forma dependente exclui de sentido.  Eles não querem suas vidas invadidas pelos seus pais. E até seus casamentos. 

E por aí vai. 

Então, um ano após minha aposentadoria, e num ano no qual vivi outros desligamentos, ou acoplagens, descobri que o principal aprendizado é o de planetizar a existência.

Ninguém, nada, ou nenhuma coisa, merece que você, ou eu, passe o dia gravitando em torno dela, excluindo qualquer outra possibilidade de sentido.

Precisamos reaprender  a ser Planeta nas mais diversas relações que travamos com a vida. Ser Planeta é ousar cultivar autonomias e luz própria, mesmo que em alguns momentos gere medo do desconhecido, da ausência daquela força que nos plugava a ela e nos dava uma falsa sensação de segurança. 

Ser Planeta é perder o medo de abandonar-se no vazio de si mesmo, enfrentando seus próprios monstros, crenças e hábitos limitantes.

Ser planeta é entender que toda a força que nos prende, de forma doentia, a algo um dia cessará. E, não poderemos, na ausência dela, ficar ricocheteando na atmosfera, ou incendiando, como Satélites quando caem em Planetas.  

Então, caros amigos, aprendi que é urgente planetizar tudo em meu viver. E é o que venho fazendo nestes doze meses. Com dias melhores, dias piores. Com idas e vindas. Mas, num crescendo em busca do que gosto, sou e quero.  Às vezes da medo, o medo da liberdade de quem sempre viveu e aprendeu a comportar-se nas gaiolas que orbitam planetaas. Mas, é medo fraquim, sem sustança, embora metido a besta, e logo passa, é só continuar desafiando os limites na busca por si mesmo, reais ou imaginários. 
E isto é uma coisa que tem me mobilizado a redesenhar outros esboços de mim mesmo, que estão sempre inacabados.  Desenhos de planetas possíveis. 

Então, por que não fazer aquela tatuagem um dia querida, aprender a dançar, velejar, ou um hobbie do tipo cervejeiro, curtir abestagens e estranhices, nadificar o tempo, aprender novos conhecimentos, permitir-se novas aventuras, se levar para passear, namorar bastante, festar a vida, participar de um outros grupos sociais, conhecer novas culturas, lugares, pessoas?  Deixando de orbitar sob algo, ou alguma coisa, e criando sua própria trajetória, sem a força danosa da gravidade existencial, por melhor que seja exercida pelo outro, ou algo, em nosso viver? 

A isto chamo de planetizar a existência, tu vem comigo? 

A Semana das Emoções Amplificadas (Autor Ricardo de Faria Barros)



Na manhã do dia 25, minha filha insistiu para eu ficar na casa dela, e comer o famoso "restôdeonti".
Acordei com noite mal dormida. Perdi contato com pessoas amadas, na noite de 24, e quando isto acontece, vive-se um caos emocional.
Então, mais cansado que sozinho, disse pra minha filha que eu precisava deixar o pequeno JG em casa, e seguir remando na vida. 
Dirigi matutando sobre a importância das pessoas Brisa-Aracati em nossa vida, aquelas que sentimos a falta delas, "naquela mesa", como diz a canção.
Esta época do ano é a época das matutenças.
Quem já foi voluntario do CVV, ou assemelhados serviços de escuta, sabe que do dia 24 ao dia 1/1 o bicho pega.
Crises existenciais domesticadas, podem sair do canil dos pensamentos e virarem verdadeiras feras indomáveis, nessa semana de celebrações. 
Naquela manhã, a cidade estava deserta. Tive a sensação de ser o único acordado, pois JG dormia no banco traseiro.  Tempo fechado, coração nublado. Até que recebo notícias alvissareiras, e o sol volta a brilhar. Todos estão bem, foi só uma pane na Embratel.  E fotografo as nuvens. Quando faço fotos, a retina de minha alma volta a funcionar bem.
Pensei então em fazer um churrasco para mim, lá na Ânimo, e piscinear um pouco, o dia voltou a ficar quente e bonito.
Em paz, dirijo mais um pouco, à cata de lugar que venda coisa pra churrasquear, mas tudo tá fechado. E é justo, todos foram dormir tarde na ceia do dia anterior.  E quem sairia para comprar comida, com um tanto de farofa de passas, chester, perus rejeitados e guloseimas esquecidas que sobraram?

Zanzei mais um pouco, zuretinha e contemplativo, decidindo então voltar para meu cafofo. 

Lembrei que há 31 anos atrás, eu também estava só, lá em Poções-BA, naquele 25.12.1986.  E naquele dia acordei com o coração grato, por ter sido resgatado para passar o dia 24 em Jaguaquara-BA, na casa da mãe do Messias, comendo sua famosa Fatada.

Não o Messias da Bíblia, mas o Messias dono de uma pequena loja de material de construção, que com sua esposa, a Inês, resgataram-me de um natal que passaria sozinho. Assim como minha filhota fez, neste 2017.

Natal é uma festa cruel para quem por algum motivo está naquela noite sozinho. Mesmo que acompanhado.  Natal pede resgates. 

Dia 24 e 25.12, assim como seus irmãos pagãos, o dia 31 e 1, os da virada de ano, são críticos para quem passou por fortes mudanças, ou luto, no ano. 

Perdido em meus pensamentos, lembrei que em casa não tinha "restôdiontem" algum e que precisava comer algo.
Acessei o Ifood, e nenhum estabelecimento estava aberto. Putz, e já era 13hrs.
Inventariando a geladeira descobri que tinha umas iscas de tilápia, sobra de um almoço com o JG. Ele ama isca de peixe. E tinha um pote de palmito, e vinho verde bem geladinho um Azulejo.
Uauu. 
Pronto, meu almoço seria um manjar: peixe, palmito e vinho, e boa música no youtube, samba com Joyce Cândido.

Do prazeroso sofá, contemplo meu pequeno jardim, e vi que ele pedia água. Então, uma a uma vou regando as plantinhas. Posso falar sobre cada uma delas, de tão especiais que foram ficando para mim. Gosto de plantas e cachorros. No meu jardim têm as mais oferecidas, têm as tímidas, têm as sisudas e tem a da árvore da felicidade, que com seus tenros brotinhos verdes, demostra que está gostando do lugar em que a coloquei.   Essa é a mais especial de todas.  Essa plantinha foi presente de meus alunos, quando conduziram uma aula na Pós de RH da UNIP, com base no texto Seja Jequitibá, um dos mais acessados de meu blog, em (Clique aqui (Seja Jequitibá)

Ela era bem uma muda bem pequena, e eu cuidei dela com paciência e zelo.  Creio que é uma boa metáfora da felicidade. Precisamos construí-la, folhinha à folhinha, acreditando na força de suas raízes, e no Compositor do tempo que sobre ela agirá, tornando-a fecunda esperança. 

O celular toca e é uma amiga que está numa crise existencial e pede um help. A escuto por bons minutos, e solidarizo-me com sua dor.

Ambos ficamos melhor, após este telefonema. É assim que funciona. Pensamos que estamos dando, mas na verdade estamos recebendo. É o paradoxo do amor. 

E o dia 26 amanhece tão lindo. Sobrevivi ao Natal, penso eu. Agora que venha o Ano Novo. 

Faço costumeira saudação para minhas plantinhas, e vejo que um delas está se abrindo em flor, num botão de poesia. Venho acompanhando esse desabrochar a alguns dias. E é belo.

A cigarra toca, e é o porteiro Adalfran, meu amigo, com seu costumeiro café matinal.  Trocamos bons dedos de prosa. E ele me conta que não recebeu nada de lembrança do condomínio: "nem um vinhozinho, nem um panetone, nem um obrigado..."
Sinto sua dor. De mim ele recebeu um capacete para a motinha que comprou. Mas, ele queria receber um afago do local em que trabalha.
E olhe que é o único único funcionário do prédio. Conta que não era pela coisa em si, mas pela estima consideração. Sinto sua tristeza e a ela me conecto, para retirá-lo de lá.

Lembro-lhe que têm dores do tipo "salvar afogado". Ele olha pra mim com olhos arregalados, sem entender. 

Explico-lhe que têm coisas chatas que nos acontecem, ou que sobre elas ficamos matutando, que são como pessoas que por não saberem salvar que está se afogando, o abordam de frente.
E, o afogado, desesperado para respirar que está, acaba se agarrando à pessoa, desesperado, e a leva para o fundo também.
Então, quem foi salvar, acaba morrendo também. Fato muito comum em quem se lança nas águas para salvar alguém. O certo é abordar a pessoa pelas costas, para que ela não consiga com as mãos em desespero, puxar a pessoa solidária para o fundo. 

Têm pais que esquecem os outros filhos, que estão "funcionando bem", preocupando-se excessivamente com um que "se desviou". E, aquele preocupar, acaba por sugar toda energia do pai condenando os outros filhos a verem seu pai morrendo de tristeza, pelo tanto que se envolveu com o filho que está dando trabalho, ou com problemas, esquecendo-se dos outros.

Aquele pai está se afogando, por não ter encontrado o tom da empatia e ajuda fraterna ao outro.  
Um monte de dores da alma em nosso viver são assim. Se não tivermos cuidado, ao delas nos aproximarmos, ela vai contaminar toda a nossa vida. Tirando dela a essência e a luz. 
Esse luto, dor, decepção, obsessão, ou quebra de expectativa, podem ser fatais à saúde emocional.
São como pessoas se afogando, que se abordadas pela frente, nos levarão junto a elas. Muitas de nossas dores precisam ser abordadas pelas beiradas, pelos lados.  Nunca bater de frente com elas.

Precisamos ajudar a sarar nossa dor, encontrando a melhor posição para enfrentá-las, acolhê-las ou lidar com elas. Pela minha experiência no tema, e na vida, ir de frente a elas é pedir para morrer junto.  Tem que ser pelos lados. 

Ensinei-lhe um truque. Cada vez que o pensamento ruim chegar na cabeça dele, em relação a não ter recebido "nenhum um panetone", ele deverá desligá-lo com um outro pensamento do tipo:
"Não recebi nada da síndica, mas recebi dos moradores, que demonstraram que gostam de mim e de meu trabalho".

Pronto, a isto chamo de pensamento alternativo, ou compensatório, do sofrer. É como nos aproximássemos de um afogado, pelo lado certo. Sem deixar que o objeto do afogamento,a cabe também por nos afogar.

E têm dores afogantes, que precisamos ter muito cuidado ao delas nos aproximarmos, alimentá-las, ou criá-las como bichinhos de estimação, pois elas poderão roubar nossa esperança.

Ele sorri, e lembra-se que ganhou uma galinha caipira de um sitiante amigo, onde cavalga com seu cavalo, o Paul.  Sua face resplandece, e o natal se faz presença!  Ao nos despedirmos, disse-lhe um mantra, para ele falar 50 vezes no dia de hoje:  "Amanhã será melhor." E, "isso também passa".

Então é Natal (Autor Ricardo de Faria Barros)

Presépio do JG, meu IV filho (8 anos)
Era véspera de natal, logo mais iria pegar o JG na igreja e levá-lo para ceiar com minha filha e genro. Iríamos dormir com eles, e seria o primeiro vale-night do JG, e uma noite especial para mim, pois que eu iria celebrar com minha filha, e também dormir no lar dela.
Pelas 17hrs, tomo um belo banho, faço a barba e coloco o desodorante. Para que ele fique bem sequinho, dirijo-me até a sacada para arejar as axilas.
Então, escuto um choro de dor, pelo tom de voz era de uma criança, aprumo os ouvidos e vejo que vem de um barraco de fundo de lote.
É um lugar que funciona como se fosse uma "associação" de vigias, jardineiros e zeladores das mansões do Lago Sul, aqui em Brasília. Um trecho do final da quadra interna (QI) 9, Conjunto 1, no qual fica a casa onde aluguei um pedacinho de metro quadrado para alocar minha empresa, a Ânimo Desenvolvimento Humano, em Site da Ânimo.
Miro por entre as árvores e vejo, sentado no chão, um menininho de uns 12 anos, que chora segurando um dos pés, com uma das mãos, e com a outra uma bola.
Imagino que neste dia 24.12 ele ganhou de presente aquela bola de seu pai, que deve ser um dos zeladores das casas do pedaço.
Contudo, ele continua chorando - e alto, e ninguém sai de nenhuma das casas que margeiam o barraco para acudi-lo. Todos devem estar muito ocupados com os preparativos da ceia, para ouvirem uma criança chorando e pedindo socorro, na porta de suas casas, inclusive seu pai.
Decido ir ajudar o menininho, indo até ele sem camisa social mesmo.
Na saída, lembro que colhi uma lichias para minha filha, mas que talvez fizessem melhor ao menininho, pois minha filha já comeu muitas delas.
Chego até ele, e ele olha-me aliviado.
Pergunto-lhe onde dói.
Ele me conta que chutou a pedra, no lugar da bola, e o dedão entortou.
Ofereço-lhe as lichias, pitombas de gente bacana, e ele gosta do sabor delas. Acho que nunca tinha comido.
E vai parando de chorar.
Mexo no dedão, com calma, e digo-lhe que não quebrou.
Ele sorri aliviado, com uma lichia na boca.
Oriento-lhe que deve botar o dedão dentro de um copo com gelo. Garanto-lhe que logo ele estará melhor para continuar jogando bola, pelo menos até o ano novo. rsrs
Ele entende a brincadeira e sorri. Um sorriso de anjo, como só as crianças sabem fazer.
A bola que ele ganhou é bonita, daquelas todas transadas, de times estilosos.
Deixo-lhe com as lichias, que estão dentro de uma bolsa na qual as acondicionei.
Mas, ele insiste em querer devolver a bolsa, ameaçando jogar as frutinhas na calçada. Digo-lhe que a bolsa é pra ele, e que já tenho muitas.
Ele aceita, sorri mais uma vez, e nos despedimos.
Creio que o Natal é isto mesmo. É alguém que se entregou por nós, e a si mesmo, como uma Lichia saborosa, ao ser degustada.
Ele desceu à varanda para nos socorrer. Ele nos ouviu, no lugar em que ninguém nos via, ou nos reconhecia como únicos, ou amparava nossa dor, de nós cuidando.
Ao assim fazer, nos ensinou o caminho do amor, da paz, misericórdia e do perdão.
E, com aquele gesto, tomou sobre si nossas dores, e enxugou nossas lágrimas.
Ele nos escutou chorando, cansados, aflitos, e veio ao nosso encontro. E nos amou primeiro.
Ele é Jesus, aquele que nos ensinou um novo mandamento: "amai ao próximo, como a si mesmo".
Esta é a essência do natal.  O resto são mensagens bonitas, mesmo que muitas vezes carentes de práticas afins, farofas de passas, presentes, ausentes, rabanadas, Chester, e luzinhas!
Portanto, se você estiver se sentindo sozinho, choroso, saudoso, cansando e aflito e achando que ninguém virá em teu socorro, neste Natal, mire para o alto e veja Ele vindo ao teu encontro, trazendo conforto e lichias para te animar e consolar.

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