O dia em que meu dedo virou antena. (Autor Ricardo de Faria Barros)


Passei uns dias encafifado com um rádio que não pega bem aqui em casa.
E gosto muito da 97.5 - Nova Brasil, aqui em Brasília, a Nova FM, só MPB e das boas.
E comecei a fuçar no aparelho, e descobri que ele tem uma conexão para antena FM.
E, quando eu colocava o dedo nessa conexão, o som da FM era límpido e cristalino, quando tirava ficava ruim novamente.
Aí pensei comigo: "ué???"
Fiz uma busca presencial nas eletrônicas, e acabei achando a bendita da antena, e funcionou - "mar-or-meno".
Confesso-lhes que colocando meu dedo no local do receptor da antena o som fica melhor ainda.
Melhor do que essa estilosa antena de rádio FM que acho que só eu ainda procura para comprar.
Mas, gosto desse tipo de atitude minha. Temos que ter uma certa cota de esquisitice para preservar nossa saúde mental.

Tomando uma Proibida, com resto das iscas de peixes, temperadas por mim e JG, nesse domingo tão frio em Sobradinho-DF, lembrei que temos esse tipo de pessoa em nossas vidas.
Você deve querer me perguntar: "Que tipo de pessoa, Ricardim?"
Oxente, a resposta é fácil: é aquela que quando nos toca nós ficamos pegando melhor.

Tu já acordou todo embrulhado do estômago emocional e quando viu determinada pessoa ela te fez abrir um sorriso Lua Cheia? E tu melhorou das dores de humor do fígado emocional? (o nome humor vem do fígado)
Têm pessoas em nosso viver que nos ajudam a melhorar nossa recepção e sintonia, daquilo que a vida tem de melhor.
Tu tá sem esperança, desanimado. Aí chega essa pessoa e te diz: "tenha calma, continue lançando as sementinhas, algumas vingarão..."
Tu tá doente, febril, garganta ruim, rouquidão, coriza, febre alta, aí essa pessoa chega do teu lado e te diz, "bora, vamos ao hospital, não pode continuar assim, eu guio o carro e te levo".
Tu tá enfrentando um problema sério no trabalho. Aí essa pessoa chega perto de ti e diz: "Ele passará, tu passarinho..."
Aquela pessoa que tira um sorriso teu, mesmo nos dias mais sombrios.
Aquela pessoa que acredita em ti, mesmo quando tu mesmo virou um descrente.
Aquela pessoa que quando chega o sol aparece.
Sim, meus amigos leitores, são as pessoas que amamos aquelas que funcionam como nossas antenas existenciais. Elas amplificam nosso poder de existir, nos tornam potentes, nos impulsionam para além de nossos problemas de conexão.
Então, já imaginou nosso poder na vida dos outros?
Nós podemos "fazer o terra", expressão que os eletrotécnicos usaram para dizer o que ocorria com meu radio, que quando eu tocava nele o sinal da FM era perfeito, e quando tirava a mão ficava chiando novamente.
Muita gente boa em nosso viver pode nos ajudar a fazer o terra. Tenha gratidão pro elas. Diga isso pra elas. O quanto elas são importantes em teu viver. Não espere virar o ano para dizer-lhes isso.

Fazer o terra é voltar a caminhar esperançoso, em busca de dias melhores.
Fazer o terra é entender que nosso viver tem ciclos, fechamentos, tem fases, tem coisas pelas quais teremos que passar e que são frutos de nossas escolhas, ou não escolhas, mas que todas elas vão contribuir para nossa iluminação espiritual, pela forma como nos posicionamos diante das mesmas, e com elas aprendemos a ser +.
Quando Tiago, Priscila, Rodrigo e JG olham para mim, e dizem: "Pai..." Acaba sintonia ruim. Acaba rádio FM que num pega.
Um céu se descortina em meu viver, e me sinto o mais forte dos pais. Esqueço tudo, e digo: "Filho..."
E me conecto só a coisas boas para passar para eles: força, disciplina, determinação, dedicação, coragem, esperança...
Nós podemos mudar um instante na vida das pessoas.
A cada quinze dias eu mudo na vida da Lady. Ela termina de fazer a faxina no cafofo, e geralmente estou fora. Quando chego, tá tudo limpinho, cheiroso, no lugar, aí zapeio para ela: "Lady, obrigado pela dedicação ao meu ninho, ficou tudo muito bacana".
Pronto, acabei de tocar no coração dela, e ao fazer isso, ela não sairá da mesma forma, melhorará a sintonia com as coisas boas da vida.
Quem recebe um elogio verdadeiro e continua o mesmo?
Têm muitas pessoas com dificuldade de conexão com a vida, com antenas existenciais de pouco alcance, ou danificadas pelas pancadas que ela levou da vida.
Eu e você podemos ajudá-las. Podemos "fazer o terra" com elas, tocando-lhes no mais profundo da alma e coração.
Dizendo-lhes, tenha calma, eu confio em ti, continue tentando, respirando, amanhã será melhor!
E aí, uma mágica acontece. Aquela pessoa que antes estava "mofumbática", fica mais animada, disposta, e cheia de novas energias, que teu toque nela produziram. e ela se conecta a outras estações da vida, aquelas que transmitem coisas boas.
Tem muita gente que fica com coração apertado, mesmo mantendo a pose, e que perdeu parte da conexão com a vida.
E que está como meu rádio, quando sem antena, e que precisa de seu toque de esperança e otimismo na vida delas.
Pense nisso! Tu e eu podemos ser antena para o outro. Ajudando-lhe a sintonizar-se nas estações da vida, e não nas da morte!

Libertem as pipocas (Por Ricardo de Faria Barros)

A tarde do sábado era de festa na Centro Cultural da CEF, em Brasília.  Era o início da programação natalina, com mil atividades para a criançada, e até adultos, como o belíssimo grupo musical que se apresenta a cada 2 horas.
João Gabriel (8), meu quarto filho, estava ansioso para participar de tudo. E entramos numa das quilométricas filas, a do caminho suspenso e tirolesa.
A criançada ama aquilo lá, e acho que eu gostaria também, mas tem limite de idade. rsrs
Depois daquela aventura, fomos nos deliciar com o grupo musical, um sexteto que canta divinamente, e não tem como conter as lágrimas, a cada música executada, cada uma mais bela que a outra.
Perto das 17hrs, resolvemos partir. A missão seria levar o JG para comer um crepe que ele ama.
Mas, a chuva nos impediu.
Era chuva forte e com vento. E resolvemos ficar próximo da entrada, esperando que passasse.
Aí, notei uma cena que muito me entristeceu.
Todos que chegavam ao local, bem ensopados pela chuvarada, eram "vistoriados" pelos olhos inclementes do povo que ficava na recepção.
Então, entendi o objetivo daqueles olhares intimidadores (SIC!). Era o de barrar o acesso ao local comendo pipoca.
Pasmem!
Não meus amigos(as), o assoalho não era acarpetado, nem tinha um tapete felpudo. Era um piso de madeira, e dos já bem estragados. Piso de tráfego, não era de tablado. Também, não havia pipocas ofertadas no interior do local, que pudessem "concorrer" com as que vinham de fora.
Passei a observar as carinhas de decepção dos pais e das crianças, que chegando com pipocas tinham que comê-las apressadamente, todos encharcados, ou jogá-las no lixo, sob protesto da criançada.
Que regra burra e infeliz!
Naquela recepção, parte da magia do natal do local se esvanecia. E as crianças ficavam frustradas, por não entendem nossas leis, nem nossos rostos taciturnos, daqueles de poucos amigos, na missão de barrar prosaicas pipocas.
Alguns pais protestaram, ao que ouviam a célebre frase: "ordens são ordens".
Meu pequeno perguntou o porquê de não poder comer pipoca, não soube responder.

Gosto de pipoca, algodão doce e balões.
Duvido você achar isso em enterro.
Pipoca, algodão doce e balões combinam com a celebração da vida. E o que é o Natal senão isso?

A CEF gasta uma nota com o espaço e programação e alguém cria uma lei que desconhece a experiência do cliente. E determina, do alto de seu poder, qualquer que seja ele: "proibido entrar com pipocas!".  Sem dúvida, para aquelas família barradas na entrada, o que pode ficar de registro é esse desconforto, perante seus pequenos. Uma pena!

Isso foi ontem, sábado. Hoje fui para a Feira do Padre, aqui em Sobradinho-DF, e de longe ouvi o som de berimbau e pandeiro. Pensei: oba, hoje tem apresentação de capoeira.
Liguei o GPS do ouvido e parti em busca dele.s Os encontrei se preparando para começarem, no acesso direito da Feira.  Concentrados, faziam seus aquecimentos e ensaiavam.
Procurando local bom, para fazer os registros fotográficos, testemunhei mais uma cena do tipo: "ordens são ordens".
Um irado funcionário do local veio tomar satisfações com o grupo por terem tirado uma corrente, posta na rua de entrada do estacionamento. Essa corrente é colocada na madrugada, para liberar a área para os feirantes instalarem suas barracas. Após o que não faz mais sentido, não há como carros entrarem no local.
Mesmo assim, agora era uma corrente humana que fazia a roda e cantava, e que seria impossível um carro ali adentrar.
Mas, o funcionário da administração precisava mostrar que tinha poder, e exalava braveza. Não perguntou como, porque, onde ou com quem? Foi logo dizendo, "quem mandou tirar as correntes?". Isso tudo num espaço que desde a sua criação prevê apresentações culturais no seu interior. Ideia do Pe. Jonas, fundador da feira, visando  integrar a comunidade pela arte, e que tem dado certo há 30 anos.
O povo da paz, que são os amantes da capoeira, argumentava mansamente que eles foram autorizados a fazerem o show ali, e que era o único espaço disponível que não prejudicava o acesso às barracas. O homem da ordem, todo espevitado, disse então algo assim: "Se autorizaram tudo bem, mas só até o horário, passou disso virei aqui botar as correntes.".  Com as correntes não haveria área disponível para a roda da capoeira, lembro aos meus leitores.
Ou seja, o que ele fez foi usar o poder de uma ordem que tem e que não analisa as variáveis de contexto, para dizer cheio de razões: "Se atrasarem virei tirar vocês"!
Após dizer isto, saiu com peito inflado, batendo os pés no chão, como se estivesse numa missão militar.  O salvador das correntes e os barradores de pipocas são pessoas que me dão asco.
Eles podem estar com a lei ao seu favor.
Mas, continuam me dando asco.
Eles e quem fez essas leis.
E, pela minha experiência com organizações, nem sempre há essa lei. Na maioria das vezes, é o poder que sobe à cabeça e a pessoa que o detém acaba por extrapolar uma orientação, moldando-a ao seu bel-prazer. Tornando-a mais radical do que o lei que a concebera.
Esse é o risco de todas as leis.
Nunca esqueci de um idoso, que aparentemente pela primeira vez embarcava de avião, saindo de Brasília para Recife.
A moça da companhia disse que ele precisa abrir a caixa de papelão que estava despachando. Para ela ver o que continha.
Ele falou que tava bem fechadinha, com barbante. Mas, ela disse que eram ordens. E abriu a caixa.
Para desgosto dele, que resmungou que a tinha lacrado tão bem.
No dia, eu estava despachando minha bagagem ao lado dele, e fiquei pensando: e se ele botasse aquilo tudo numa daquelas bolsas enormes, daquelas que fecham com um zíper, passaria? Sim, passaria, foi o que constatei. A implicação são com caixas de papelão, daquelas que os mais humildes usam. Se as coisas estiverem dentro de malas, ninguém te aborrecerá.
Então, pipocas, correntes e caixas de papelão são a expressão de uma cultura que despreza a experiência do cliente. De normas que ou não se atualizam, ou não são sopesadas diante de mudanças no contexto em que se aplicam.
Umas 20 famílias poderiam não ter visto a programação natalina, dependendo do estresse com o qual reagissem àquela norma. Uma centena de clientes de feira livre poderiam não ter apreciado um show lindo, e de grátis, por causa de uma corrente. E um cidadão brasileiro que paga um preço bem salgado pelo transporte aéreo, poderia ter tido o desprazer de ao receber seus pertences verificar que a caixa abriu na viagem e que tudo estava fora do lugar, ou faltando.

Mas, reclamar para quem?  Ordens são ordens...

Pense nisso sempre que for criar uma regra. A tendência e que ela seja extrapolada, pelo uso indevido do poder, indo muito além do que queria regular.   Então, para cada regra que venha a criar, deixe claro as não-regras, para diminuir o risco de que as pessoas possam entender que a regra de: "É proibido a emissão de gases poluentes nesse recinto", se dê também quanto ao expirar dos pulmões, pelas narinas, ou coisa fétida similar.

Perceba o bom, o belo e virtuoso entre nós. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Acordei cedinho, após uma madrugada de muita chuva, daquelas com raios e trovões. Uma tempestade caiu aqui em Sobradinho-DF, e aquela manhã de domingo acordou encharcada.
O nome da cidade foi originário de duas casinhas de João de Barro erguidas sobre um  cruzeiro, erguido às margens de um ribeirão. O lugar então ficou conhecido como Sobradinho do Mirante, e com a fundação do DF, na década de sessenta, passou a se chamar Sobradinho.

Mesmo com tempo úmido e chuvoso resolvi ir na Feira do Padre. O nome foi originário do Pe. Jonas, administrador de Sobradinho-DF, que em 1979 mobilizou pequenos produtores para criarem a feira livre deles, retirando-os das mãos dos atravessadores, ou grandes lojas de varejo, que geralmente determinam  o preço e exploram os pequenos produtores da agricultura familiar.

Considero as feiras livres um lugar terapêutico.  Uma pesquisa (1) do CDS e UFPE, confirma minha intuição:  40% dos frequentadores afirmam que uma das razões pelas quais visitam a feira é pela amizade que fazem com os agricultores que ali comercializam seus produtos, em rústicas instalações.

Bem, então me espreguicei e, mesmo com o tempo molhado, resolvi sair em busca de amizades. Era dia de cultivar vínculos sociais, afetivos, cordiais e de respeito mútuo.

Começo a zanzar pelos corredores curtindo aquele burburinho típico de feira livre e vendo a variedade de produtos. Numa das banquinhas num anúncio o vendedor diz que tem um motor de opala, e em bom estado, para vender. rsrs

Gosto disso. Àquela hora da manhã as bancas de pastel, tapioca, caldo e café estão apinhadas de gente. E aquele aroma de café, passado na hora, inebria a todos, como se fosse um aroma de casa da vovó, aquele cheirinho misturado ao de terra molhada faz de tudo renovação.

Vejo uma fruta estranha, rosácea, e logo puxo assunto com seu produtor, o Sr. André. Ele me diz que ela se chama Pitaya, e dá num cacto, como se fosse a flor do cacto que se transforma em fruto. Sr. André fica todo orgulhoso de meu interesse na fruta, e me diz que trouxe uma mudinhas dos cactos, e aponta para local onde as deixou. Vou lá, fotografo, volto e ele fica feliz em falar de seu roçado de Pitaya. Com suas mais de cem mudas. Ele é o único que as têm, e é frutinha metida à besta de cara, sendo vendida em Brasília de 15 a 20 reais, uma fruta apenas. Ele vende por 8, e faz 2 por 15. Pechinchei três frutas e ele deixou por R$ 20,00. Feira livre sem pechincha é supermercado. Num presta.
Quando as Pitayas estavam posando para uma foto, junto ao seu dono, um grito e um som seco de um tombo na banca ao lado.

E é uma correira só, para acudir um feirante que desmaiou. Seu corpo estava rígido, muitos faziam-lhe massagem no peito, outro abanavam o rosto, outros ainda opinavam em puxar-lhe a língua para fora. Ele não reagia.

A sua mãe, cabelinhos brancos (80), gritava pelo filho (55) para que ele acordasse. Uma rede de solidariedade se fez presente. O filho do produtor da Pitaya correu até uma viatura da polícia para acionar o SAMU. Uma outra feirante, socorria aquela mãe desesperada, dando-lhe água, abraço, palavras de esperança e cuidados. Ela dizia que ele não tinha bebido nada, que estava bonzinho e que viera dirigindo o velho carro deles, do sítio até a feira. E que aquilo nunca tinha ocorrido antes. O clima de tensão no ar era enorme. Mas, lentamente, o feirante foi recobrando a consciência, se mexendo, e abrindo os olhos. E o povo aplaudiu. Muitos choravam. Ele não estava morto. As pessoas não deixavam que ele se levantasse, visto que bateu a cabeça no chão, ao cair,e conversavam com ele para que se acalmasse, pois os médicos estavam chegando. Acho que foi uma convulsão. A sua mãe dizia pra todos que ele nunca tivera nada parecido. Para alívio de todos, as enfermeiras do Samu chegaram, fizeram os primeiros socorros, e levaram-nos: mãe e filho, ao hospital mais próximo.

Um enorme silêncio se fez, quando ele saiu na maca, acompanhando por sua mãe a segurá-lo às mãos. Quanto amor!

Por uns 20 minutos, da queda até o socorro, eu testemunhei o melhor que existe na raça Homo Sapiens. Não havia curiosos fazendo self, fotografando ou só buscando uma notícia para suas redes sociais. Todos ali estavam querendo ajudar de alguma forma. Um deles abanava com a mãos o rosto do senhor caído no chão, para que moscas não pousassem nele. Um amigo deles, um cliente, assumiu o cuidado com a banca, mesmo sem saber os preços, ele garantia a segurança dos poucos itens expostos numa tosca tábua: umas dúzias de cocadas, de todas as cores, uns 4 litros de leite em garrafas, duas pencas de bananas e um bolo. Eram os produtos da senhorinha e seu filho.

Após o Samu levá-los, e ainda em choque, fui agradecer à feirante do lado pelo que ela fez à senhorinha, dando-lhe colo e afago. Ela me disse que poderia ser a mãe dela, e que precisava apoiá-la, mesmo fechando sua barraca ao possíveis atendimentos que poderia ter, e por um bom tempo.
Nossa Senhora!, quanta doação ao outro. O cliente que assumiu a barraca perguntou ao da Pitaya se ele cuidaria das coisas da vizinha, ao que ele afirmou com um "Sim, é claro!", do tamanho do infinito, e o cliente seguiu caminho.

Saí zanzando à caça de café e tapioca, para recobrar-me do susto e de tanta emoção que vivera. Na barraca da cearense, a melhor tapioqueira do pedaço, sentei-me num banquinho e, mastigando aquela iguaria, pensei em como a vida é finita. De como somos breves demais para sermos mesquinhos em nossas jornadas.

Continuei caçando amizades e achei o Sr. Beto, produtor de castanha de Baru. Uma figura de pessoa. Sabe tudo sobre o Baru e em sua propriedade rural, em Minas, tem muitos pés. Ele vai na roça a cada quinze dias, pois é longe, e traz de la de um tudo. Ao seu lado, fiel escudeiro, o Sr. José, seu caseiro. Sr. José é um daqueles velhinhos retirados dos contos de Monteiro Lobato, tipo uma Dona Benta.

Logo fiz amizade com ele, pois o Sr. André estava muito ocupado com a fila de gente querendo as cobiçadas castanhas de Baru, boas pra tudo, segundo ele e um jornal que fez cópia e distribuia.
      
Sr. José contou-me que trabalha para ele há muitos anos, e que são amigos. Que tem sua rocinha também, ao lado da do Sr. André. E que nela preserva os bichos do cerrado. Conversa com eles e educa os sitiantes vizinhos para não o matarem. "Pois temos nossa própria comida, pra quer matar esses bichinhos de Deus, tão raros e sofridos para comê-los?".

E me mostra um artefato de madeira que usa par pescar. Disse-me que fe aquele para um cliente que vem buscá-lo. José me contou que atrás de sua casa, aqui em Sobradinho, corre um pequeno ribeirão.
E que ele todos os dias pesca uns peixinhos, embora não goste de peixe e não coma. Ele me contou que na sua casa sempre tem um peixe fresco para um pedinte necessitado. E que é comum que pessoas batam á sua porta perguntando se tem algum lambari para doar.

Uauu!!!

Então ele pegou no bolso umas sementes e me contou que fará mudas para o Sr. André. "Foi uma frutinha que um cliente me deu, que achei doce e gostosa, e que guardei as sementes para fazermos mudas e levarmos para Minas. Plantarei uma na minha roça e outra na do patrão. Meu maior gosto é fazer mudas, fiz mais de 50 de ipês, e plantei em nossas propriedades. Quando eu morrer, as pessoas vão ver os ipês e se lembrarão de mim. Eu quero deixar algo meu naquela terra. Deixarei frutas e flores... "

Disfarcei uma tossida e escondi uma lágrima vadia que teimava em cair. Pedi licença da prosa, peguei meu Baru, e segui pra comprar pastel.

Resolvi comprar dois, um para mim e outro para o José. Enquanto era preparado, uma menininha me aborda, vendendo numa caixinha uns quinze chocolates tipo Baton. Perguntei-lhe quanto era o estoque, e o arremetei. Disse-lhe que poderia ficar com a mercadoria vendida, e que agora ela fosse para casa brincar. Ela deveria ter uns 12 anos. Não fiz nada. Quem fez algo foi Sr. José, o cliente da vovozinha que acudiu a banca, o filho de Sr. André que correu na polícia, e a feirante do lado que socorreu uma mãe desesperada. Eu estava retribuindo a generosidade que testemunhara, apenas isso.

Voltei e dei o pastel ao Sr. José, e ele fez uma festa com aquilo. Fiquei pensando, há quanto tempo Sr. José não come um pastel!

Após uma hora de zanzar pela feira, voltei para barraca do acidente de cedo, para colher notícias, e a vovozinha está lá, no seu posto, assumindo as vendas.

Que força! Quem de nós voltaria às vendas após um turbilhão emocional destes?  ela voltou. Ela precisava vender aquelas cocadas, bananas e leites. Era o apurado da semana, e com o filho sob observação de 24 horas, ela poderia precisar de dinheiro.

Fiquei um pedaço conversando com ela. Na saída, deixei-lhe uma quantia para ajudar a fazer o lucro das vendas que ela não realizou. Ela não queria receber. Eu insisti, e disse-lhe que poderia ser útil ao para medicação do filho. Aí ela abriu um sorriso e disse: "aí tá certo, assim eu aceito."  Não sabe ela que eu só estava remunerando a overdose de amor que ela me deu, naquela manhã.

Saí da feira com o coração cheio de emoções positivas. E segui caminho em busca de uma loja para colocar uma película no meu celular, que insiste em cair no chão e quebrar.  No balcão da loja um bolod e chocolate e uma coca-cola. Perguntei ao Alisson, atendente prestativo, quem aniversariava. Ele falou: "vocês, nossos clientes. O refri e bolo é para vocês, pdoe servir.". Aproveitei e tomei um copod e coca-cola. Alisson avaliou os estragos do quebrado, como a perícia de um cirurgião. Perguntou-me se queria investir um pouco mais do que os R$ 10,00 e colocar uma de película de resina, de R$ 25,00, que ele iria cortá-la até ficar boa. E, por uns bons 15 minutos, ele foi moldando a película, como um artesão Depois, colocou-lhe no aparelho e eu vi que ficou excelente. Não mais precisaria trocar o visor, que custa uma fortuna. Qualquer outro atendente diria que não havia maneira, visto os estragos do vidro. Alisson não!
Ele não era qualquer um, ele faz a diferença com o seu trabalho.

Bateu vontade de tomar uma cerveja e petiscar e fui no Restaurante Diamante Negro, próximo a Igreja dos Migrantes, um lugar com comida e bebidas a preço justo e de excelente qualidade. Na chegada os garçons me saúdam, pois já nos conhecemos, e soltam um: "Paraíba, adivinha o que temos hoje?". Nem acreditei no que via, eram costelinhas de bode, um manjar.

Fiz um pratinho, peguei uma cerva gelada, e sentei-me na varanda, degustando tudo que vivera naquela manhã. E olhando feliz para meu celular renovado. Aí o cozinheiro me aborda com pedaços de pernil de carneiro, que acabara de tirar do forno. E me diz: "É para o senhor, não precisa pesar..."

Mais uma vez, aquela lagriminha rebelde insiste em se fazer presente. Voltei para casa pensando em como existem pessoas boas, safrejando no roçado da humanidade.  Nessa imensa feira livre em que vivemos, que é só se especializar em catar gente que presta que as acharemos,e  aos montes, e todas elas podem ser nossas mestras na arte da vida e do bem viver.

Escrevo nessa segunda bonita, deliciando-me com um cafezinho passado na hora, presente de pessoa amada que meu lar e vida mudar de fase: Sim, agora temos café. 

O whatsapp apita, mensagem nova, é de mamãe. Dando-me instruções para comprar uma plantinha para ela, e levá-la para Campina Grande-PB, no final do ano. "Rico, é uma bougainvíllea branca e dobrada, mande foto quando achar para eu ver se é ela mesma." rsrs

Agora vou ali, comprar uma plantinha para mamãe. Chegará um tempo em que desejarei ardentemente que uma mensagem como essa apite em meu celular novamente.


(1) O Papel Econômico e Social da Feira do Padre

O show não pode parar (Por Ricardo de Faria Barros)

Era manhã de sexta e fazia frio. No horizonte, a neblina da manhã chuvosa teimava em desafiar o sol que sobre ela se deitava. Olhei-me no espelho e os cabelos espevitados, de uma pré-careca ao centro, pediam para serem aparados. Lembrei-me que era dia da Feira da Lua, e que precisava comprar pimenta de cheiro, para uma moqueca domingueira. Embora se chame de Feira da Lua, ela abre pelas 6hrs da manhã, da sexta, e só fecha na madrugada do sábado.

Na noite da sexta, o espaço é disputado por muitas barracas de comilança e shows. Durante o dia, é um sortimento só, daqueles de encher os olhos. É peixe fresco, pescado na hora, dentro de enormes caixas de água, é honesta linguiça de porco defumada, e é todo tipo de hortifrutigranjeiro. A feira funciona ao lado do Estádio de Sobradinho-DF.
Parei no estacionamento dela, olhei-me no espelho e estava estragado, com os cabelos centrais bem rebeldes. Então, perguntei a um guardador de carro se tinha barbeiro próximo. Ele apontou para um, por trás da rodoviária, e segui para lá, "de pés" mesmo.

Cortei o pelo e voltei à caça da tal pimenta de cheiro. E eis que me deparo com uma cena de tirar o fôlego, daquelas que ao vermos não conseguimos mais fazer nada de nada, para o tempo!
Perfilados estavam uns 20 velhinhos, embaixo de um toldo, cada um deles com um instrumento musical de percussão na mão.
Pensei, vai ter show!
E teve, e daqueles de ganhar um óscar.
Eles são asilados do Lar dos Velhinhos Bezerra de Menezes, aqui de Sobradinho-DF, e era o dia da apresentação do seu grupo musical.
No meio deles circulavam voluntários, que não deixavam a música sair do ritmo, e estimulavam o mais sem jeito tocador a fazer seu próprio som, sem se preocupar se estava correto.
O importante era participar da atividade.
E que atividade!
Tirar aquelas senhorinhas e senhorinhos do asilo em que vivem, num dia tão frio, mas proporcionar-lhes aqueles momentos de tanto calor, pela inclusão cidadã e vacina contra a morte social, era algo de emocionar a mais pedra dos corações.

Pena que os clientes da feira livre estavam ocupados demais, para pararem um pouco ali e prestigiarem o espetáculo.

Cada um deles, à sua maneira, estava desafiando o destino das coisas, ao tocar seu instrumento e continuar sentindo-se ativo.

Cada um deles estava criando algo para além de suas vidas esquecidas, num canto qualquer. Agora eram artistas de rua, disputando a atenção dos clientes, com o melhor que eles tinham, a força da sua idade que desafia a vontade de parar.

Tinha o que batia o bombo, que ralhou com o monitor-voluntário: "Deixe eu fazer do meu jeito, não reclame comigo". Que lindo.
Tinha a vovozinha do pandeiro, que não parava nunca de agitá-lo, era a mais animada do grupo.
Tinha o vovozinho que precisou de uma ajuda com seu instrumento de percussão, ao que uma jovem voluntária pegou em sua mão e deu a ela a maestria de um músico profissional.
E ele agradeceu com um sorriso escancarado. Como quem dizia: "nossa, era só fazer assim!"

Acho que uma boa ideia era botar cadeiras e improvisar um tipo de palco. E trazer um monte de gente, inclusive eu, para sentir tanta vida saindo de pessoas que foram deixadas para trás naquele asilo, e que mesmo assim, nãos e deixaram ficar para trás.

Escrevo emocionado imaginando o que deve estarem comentando nessa noite, após o jantar, sobre o show que deram.
Alguns deles devem estar ensaiando para a próxima sexta. Será que tem toda sexta?
Outros, devem estar perguntando como faz para aprender determinado instrumento, como o pandeiro da vovozinha, que só ela usava.
O monitor-voluntário, o cantor e tocador de violão, deve estar com eles, comemorando o feito. E ouvindo de alguns que estava muito frio, mas que conseguiram. De fato.
Aquele grupo, de octogenários para cima, teria mil razões para não fazer o show nessa manhã. Mas, ele não se deixou abater pelo desânimo, até pela falta de quem lhes aplaudissem.
Eles estavam juntos se divertindo, e não deixando que o fantástico show da vida parasse de acontecer nas suas jornadas peregrinas.

Bem cedo, eles tomaram uma decisão, não ficariam em seus quartos esperando o dia de amanhã raiar. Eles raiariam o dia de hoje, com sua presença no mundo, levando música a um lugar que se eles ali não estivessem, ela não teria acontecido.

Após umas quatro músicas, dei pequena gratificação muito menor do que a que deles recebi, e parti em busca da pimenta dedo de moça.

Não achei, mas eu ia reclamar de que mesmo?

Cartas ao JG. Na dor, vá para a margem (Parte 2). A Disparada da Despedida (Autor Ricardo de Faria Barros)

Sabe filho, uma coisa que tenho aprendido é a ler os sinais do que a vida que me falar, nem sempre de forma tão clara.
É preciso ir juntando uma peça ali, outra acolá, é preciso estar sintonizado na frequência dos sentimentos e pensamentos mais nobres e perceber a fala da vida, sobre determinada situação que enfrenta.
A condição para essa escuta é desacelerar o ritmo, permitindo-se navegar lentamente, beirando a margem, para que a dor do momento, o luto, ou uma forte decepção não lhe turve as vistas, e faça com que você se perca de si mesmo.

Na margem, ficamos com a percepção seletiva aguçada, para nos ler, nos autoconhecer melhor, mapear o que nos ocorre e juntar evidências para tomar decisões.

Ontem foi um dia assim. Tudo começou quando dirigia para me despedir de Duquesa, e no caminho conversei com o veterinário. E ele me disse que Duquesa não poderia ser sacrificada, na manhã de ontem, pois que tua mãe decidira enterrá-la no jardim. Confesso-lhe que fiquei puto de raiva, uma vez que a minha decisão - após muito estudo e sofrimento, eu já tomara. E era para que o próprio veterinário desse fim a ao corpo dela. Então, para esclarecer melhor a situação, eu liguei para tua mãe que confirmou a informação dizendo que o jardineiro Jackson iria hoje (18.11.2017), abrir uma cova no jardim. (Evidência 1)

Então, retornei o telefonema para o veterinário, reprogramando o procedimento para a esta amanhã.
Continuei dirigindo para tua casa, com o firme propósito de me despedir da Duquesa. E o trânsito estava infernal, naquela sexta de tempestade aqui no DF, e eu levei 90 minutos de Sobradinho e até próximo à São Sebastião, onde mora.
No trajeto, tua mãe ligou dizendo que pessoas amigas do trabalho dela falaram que já existe tratamento par essa doença. Eu disse-lhe que conhecia e que o preço era exorbitante, e que não recuperaria as lesões que ela já sofrera, nos rins e fígado. (Evidência 2)

Cheguei na tua casa e marquei o lugar da cova, perto do meu pé de umbu. Desci ao pomar e passe um bom tempo acariciando Duquesa, num processo de despedida bem doloroso, mas necessário para fechamento de ciclos. Em determinado momento me distraí, ao ver o quão bonito está a Lichia, carregada de frutos, e ao olhar para o gramado novamente, só vejo o Balu, o nosso velho e gordo labrador.
Chamo por Duquesa e nada dela. Subo a escada externa, em direção ao pavimento superior, e ela também não está a garagem. Ergo a vista e a vejo na garagem da casa da frente, e de lá ela balança o rabo para mim. Chamo-lhe e ela vem correndo, toda alegre, como quem sabe que fez uma peraltice. Ralho com ela e ela volta para o pomar e canil, descendo as escadas qual foguete. Duquesa nunc fez isso. O portão fica sempre aberto. Subir para a plataforma superior é algo impensável para ela que foi condicionada a ficar sempre no pomar. Ela nunca fez aquilo. (Evidência 3). Era como se ela dissesse para mim: “ei, eu estou bem, olha como corro, sei fazer até a disparada da despedida”.

Saio de tua casa, com a cabeça a mil, visto que aquela cena fora muito forte para mim. E sigo para meu lugar predileto de esfriamento de cabeça, qualquer um dos parques do DF. Opto pelo Parque Nacional de Brasília, chamado de água mineral. Ao começar a caminhar pelas suas trilhas, olho para o céu, e um coração de amor se faz presente, olhando das nuvens para mim. (Evidência 4).

À tardinha, voltando para casa após pegá-lo na escola, Mariana, amiga de papai e filha de Ari e Sylvia, meus compadres, manda uma das tantas mensagens de apoio que papai recebeu, após publicar tua Carta, de ontem. Aí eu gravo um áudio para ela, relatando como foi a despedida, inclusive a fugida para rua da Duquesa, ao que ela me responde assim: “Poderia ser triste a história, mas o amor como você fala dela é lindo! Foi a disparada da despedida. Que ela continue feliz e lindona...” Ela usou o verbo no presente, percebe? (Evidência 5)

À noite, meu filho diz que um grupo de criadores e veterinários, ao saberem de minha história, aceitaram tratar de Duquesa e adotá-la. (Evidência 6).

Aí, entro em sites relacionados ao tema e descubro que há 3 anos chegou no Brasil o único medicamento que elimina a doença do animal, chamado de Milteforan. Descubro também que o cão infectado não transmite pela saliva, pelos ou pele, ou em mordidas, lambidas ou contato físico essa doença, o que livrará você de pegá-la (Evidência 7). Continuo a fuçar em sites de criadores, ONGS de proteção aos animais, e até em clínicas veterinárias, e vejo que a opção da eutanásia é uma questão de saúde pública, não pela doença em si, mas pelo alto custo do tratamento. Coisa que afasta a população mais pobre dessa opção, o que é uma pena. O tratamento custa algo em torno de R$ 5.000,00 considerando as duas aplicações do remédio, as colheitas e rações especiais.

Após essas sete evidências sinto que a vida está me falando algo. Saio da margem, volto ao leito do rio, e decido tratar a Duquesa. Bancar o custo e não carregar a culpa de não ter tentado. Quem ama admira, cuida e protege. E eu a amo.
Abro a janela do apartamento e sinto vindo em minha direção uma aromatizada brisa Aracati que me diz: “não temas voltar ao curso do rio de teu viver, eu segurarei em tuas mãos, pode sair de minha margem e voltar a navegar: corajoso e em paz.”.

Um sentimento bom invade meu ser. Envio mensagem para o veterinário cancelando o procedimento da eutanásia de Duquesa. Entro no Mercado Livre atrás de remédio mais barato, e sinto que estou fazendo a coisa certa, mesmo abrindo mão de uma quantia razoável, que poderia a outas coisas ser destinada. Tem nada não, o que gastarei é muito mais barato do que o peso em minha consciência.

O que quero te ensinar com isso? Na margem, quando estiver vivendo processo de luto, ou de angústia, pelo que te ocorre, aprenda a ler os sinais da vida.
No deserto da navegação pela margem de eu viver, aprenda a ser compreender melhor, a se conhecer, a interpretar os pequenos toques, e nada diretos, que a vida via te dando. Pois, você precisará tomar decisões, até para voltar a navegar pelo leito do rio de teu viver. Pois que ninguém é feliz andando só pela margem da vida. Por melhor que seja a tua margem, como as minhas são, elas não poderão devolver o sentido da vida a ti. Só você poderá fazer isso, pagando o preço pelas suas escolhas e decisões.

E estando pronto para voar novamente, abrindo as asas de si mesmo, despindo-se de todo medo, culpa e sentimentos ruins que em ti foram se fixando.

Ao retornar para o curso do rio de teu viver, veja que ao teu lado voa uma borboleta azul, aquela mesma que quando tu estava na margem insistia em lhe dizer que o que o amanhã será melhor, e que aquilo que vivia também passaria. Agradeça a ela. E aprenda com ela. 

Borboletas azuis quando estão pousadas nos troncos, não são azuis. Elas são marrons, da cor dos troncos. Fazem isso para sobreviver, criando um mimetismo com o ambiente. O tronco é a margem delas. Mas, quando saem para polinizar esperanças, abrindo as suas asas, um azul cintilante irrompe de seu interior, clareando os mais nublados dos dias teus. Quem tem uma na vida, tem bênção e graça, e em abundância.

E, geralmente elas são nossas margens. Aprenda a valorizar e a ser grato a quem de ti cuidou quando esteve sofrendo. E, um dia retribua, e cem por um. Devolvendo aos outros, quando for margem para eles, em dobro, o que a vida lhe deu, em forma de proteção, amor e respeito. “Tudo que tu quiser tentar é o mais importante. Amanhã o sol vai brilhar.” Mensagem de minha margem, que serve para tu, e em todos os momentos nos quais decidirá retornar ao centro do leito do rio de teu viver, voltando a ser o próprio protagonista de tua jornada.

Aprenda a ler os sinais do que a vida está querendo lhe falar. Algumas vezes, até gritando-lhe para que tome consciência e mude algo que está lhe fazendo infeliz.

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JG = João Gabriel, meu quarto filho, hoje com 8 anos.

Cartas ao JG. Na dor, vá para a margem! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Sabe filho, quando você estiver passando por um processo difícil, vá para as margens do rio de tua vida.

Eu aprendi isso com os comandantes das embarcações que chegam, ou partem, de Iquitos que é  considerada a capital da Amazônia Peruana.

Iquitos é a maior cidade do mundo, com seus quase 500.000 habitantes, que não se pode chegar nela por terra: só por ar e água.

Então, o Rio Amazônia vira a BR principal para chegar à Iquitos, que fica à sua margem.  Dependendo de onde os barcos saem, eles subirão o Amazonas, ou descerão.

E, o maior cuidado dos marinheiros é não bater em troncos flutuantes, ou errar o caminho, entrando nos enormes afluentes de Nanay e Itaya, que desaguam no Amazonas.

A viagem leva em média 8 dias, tempo suficiente para se pensar muito na vida.

Pois bem, quando as condições do clima pioram, com chuvas torrenciais e neblina, dificultando a navegação, pela pouca visibilidade à frente, os comandantes tomam uma drástica decisão.

Eles reduzem ao máximo a potência, e dirigem suas embarcações para bem próximo das margens do Amazonas, e seguem mirando nela, que funcionará como uma guia.

Quando você tiver sofrendo muito, passando por um aperreio grande, vá para as margens de tua vida.

Diminua a potência, e siga sua jornada, apoiando-se na na margem.

Hoje eu fui para a margem. Tomei a decisão de sacrificar Duquesa, que contrariou Leishmaniose. A orientação sanitária é para sacrificar, pois o mosquito pode picar nela e infectar humanos.

Duquesa é minha amiga, aquela que me muita companhia no Recanto do Guerreiro. Eu estou sentindo muito.  E fui para a margem.

Na margem eu me fortaleço, para encarar a realidade de não mais acariciá-la, quando ia te pegar.

Na minha margem existe a espiritualidade, existe um amor de cuidado e admiração, existe meus filhos, irmãos e pais, ou seja, minha família.

Na minha margem, existem amigos fieis.  Daqueles que falamos a mesma coisa, como disco repetido, e eles ouvem como se fosse a primeira vez.

Na margem eu acolho minha dor, compreendo-me no sofrer e não me apresso para voltar ao centro do rio de minha vida.

Na dor, procure suas margens. Eu posso ser uma delas, conte comigo.

Ser margem é exercitar o dom de acolher o outro. De apenas abraçá-lo e deixá-lo aninhar-se no seu peito.

Ser margem é não parar de acreditar que aquele barco, da pessoa amada que em ti se conectou, logo voltará a navegar, e em melhores condições, assim que o mau tempo passar.

Ser margem é não apressar o rio. É ter paciência com o lento desabrochar para a vida, novamente, da pessoa amada. Estando 100% presente, mas evitando fazer a travessia por ele, pois não funcionará.

Ser margem é reduzir a ansiedade de ver a pessoa amada melhor, pois isso só a fará sentir-se pior ainda.

Ser margem é semear esperanças que dias melhores virão, e que "isso também passará". E para isso não precisa dizer nada àquele que em tua margem procurar uma guia, seja apenas amor. E o amor nem sempre pede palavras. 

Filho meu, quando tudo estiver difícil à sua frente. Quando as coisas estiverem sem um horizonte, cobertas pela neblina ou temporal, vá para a margem.

Ali, reduza a potência de seus motores existenciais, mas não ancore. Siga devagarinho, em direção à Iquitos.

Devagarinho, um dia de cada vez, sem querer apressar a libertação da dor e luto.
E se aceitando, não tão mais disposto como antes do temporal existencial que fechou caminhos em teu viver.

E chore!  Não banque o forte. O luto precisa de angústia. E a angústia precisa de tempo de maturação.

Cuidado para não se perder, entrando nos afluentes do Amazônia. Quando estamos tristes e vivendo processo de luto é bom não tomar decisões precipitadas, nem procurar falsas ajudas. Esses atalhos só farão você se perder de si mesmo, e será mais difícil retornar ao curso do rio de tua vida.

Na dor, cuidado com os falsos oráculos, as receitas mágicas, as coisas que aparentemente te farão esquecê-la, mas que ao passar o efeito delas, a dor virá mais forte ainda.

Portanto, não anestesie tua dor.  E, cresça na dor. É filho meu, a dor nos aquebranta, nos faz mais humildes, humanos, mais gente.  Ninguém supera um momento de dor, sofrimento ou luto, saindo da mesma forma.

Quando essa pessoa volta a leito do rio, de seu viver, está bem mais forte. Quem já sofreu e superou sabe do que falo.

Serei tua margem, mas tu terá muitas outras. Talvez uma namorada do tipo brisa aracati, ou a rara borboleta azul, para te dar forças. Caso tua margem não seja pessoa amada, ainda assim tu poderá botar os joelhos no chão e pedir a paz, Ele não te faltará!

Agora, papai vai se recolher um pouco, pois estou sentindo a falta da Duquesa, sempre tão alegre e amiga. Papai foi para a margem, desliguei os motores e desço para Iquitos devagarinho. Sem drogas de qualquer espécie, nem outras fugas de minha dor. Que é só minha, e de mais ninguém, e que preciso passar por ela.

E passarei, pois que no amanhã dias melhores virão

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JG = João Gabriel, meu quarto filho, hoje com 8 anos.

Obs: Na foto Duquesa, uma Golden Retriever fazendo o que amava, tomar banho de mangueira.

A Arte de Fazer Vinha D´alhos na Vida (autor Ricardo de Faria Barros)

Arrumei a casa ontem, após tua saída.  Nela, tinha restos teus espalhados por toda parte, e com eles me deliciei, propagando os bons momentos que juntos vivemos.

No sofá, o cobertor que te aninhara permanecia do jeito que tu deixou. Quase te vejo nele.

Numa das fotos que tiramos, percebo tua expressão faceira, de surpresa e humor. Acho que estava querendo falar algo, sobre o prato que juntos cozinhamos, como que a pedir para ir comê-lo no sofá da sala de TV, algo para ti mais proibido do que namorar com prima.

Durante nossa experiência gastronômica, ensinei-lhe a fazer isca de peixe. E tu ficou surpreso com o vinho que botei no peixe para marinar.

Falei que o vinho fixa e realça o sabor, e que sempre foi usado na culinária, desde a idade medieval, no que se chama de vinha de alhos.

Teus olhinhos brilhavam de curiosidade, e tu me ajudou a deitar o vinho sobre o peixe, sentido-se um máster chefinho.

Sabe filho meu, hoje tu tem 8 anos, e não sei quando lerá essa carta.  Nela, preste atenção a duas palavras: fixar e realçar.

Aquele peixe não teria nem a metade do sabor que ficou, e fez tu comer tudinho, sem o vinho. O vinho pegou o sabor da cebola, do alho, do tomate, da salsa, pimenta e sal e fixou nos poros do peixe. Depois disso, ele catalisou uma reação química realçando o sabor desses temperos, e dando ela próprio, com sua acidez, um sabor mais que especial ao peixe.

Só deixe se fixarem coisa boas em teu coração. Elas vão realçar o sabor da tua vida.

Exstem dez bons tipos de vinho, para as vinhas de alho de nosso viver, são eles: gratidão, solidariedade, esperança, perdão, doação, bondade, otimismo, paz, amor e a coragem, de se reinventar após momentos difíceis.

Cada um dos vinhos acima, isolado ou atuando em conjunto, fixará e realçará o sabor de teu viver.

Acredite em teu pai.  Não adianta querer saborear aquela Moqueca Capixaba da tua vida, se teu coração for cheio de mágoas e rancor. Não sentirá o gosto dela.

Não adianta querer degustar aquela costela de tambaqui, com o coração cheio de ingratidão e desesperança. Ela vai descer entalado.

Teu pai é colecionador de pessoas comuns, com atitudes incomuns diante da vida. Se eu pudesse definir o que as caracterizam, eu diria que são duas coisas.

A primeira, elas não querem ser as melhores da humanidade, mas as melhores para a humanidade.

A segunda, elas não perdem tempo cultivando emoções ruins, criando-as como bichinhos de estimação, em seus corações e mentes.

As melhores experiências da vida, os maiores amores, as viagens inesquecíveis, ou situações no mundo do trabalho dignas de louvor, sem a vinha de alhos feita com algum dos dez vinhos, acima descritos, expressos naqueles comportamentos ou atitudes (paz, amor, perdão, esperança...,) não se fixarão nas memórias afetivas, e não terão o seu sabor realçado e melhor valorizado por quem as viverá.

Tenha muito cuidado com isso.  Já convivi com um monte de gente que vive experiências maravilhosas, contudo as degusta como quem come coisa ruim. Desaprenderam a sentir, com as emoções e pensamento positivo, o valor do que tem, fazem, recebem ou testemunham nos outros.

São promovidas e não se alegram mais. Acham que mereciam e pronto.  Lutam para entrar numa empresa, estudando anos a fio, e não mais renovam o tesão por ela. Envelhecem-na dentro deles.
Têm filhos maravilhosos, como você, Tiago, Priscila e Rodrigo, mas por estarem com o coração tão cheio e pesado de coisas ruins, não mais acolhem a presença deles, de forma inteira, não ansiosa, agitada ou cheia de outras preocupações.

E o sabor da vida não se fixa ou se realça em nada de bom que eles vivem. 

Pois, falta-lhes algum dos dez vinhos. Talvez um pouco mais de perdão. Para outros, paz. E em determinado momento, pode faltar-lhes a coragem de se reinventar, após os baques inevitáveis que levaram da vida.

Por isso, aprenda a guardar esses vinhos. Nunca vi alguém infeliz com eles na adega do coração.

O Gerânio da Mamãe (Por Ricardo de Faria Barros)

Tomando um delicioso cappuccino, curtindo o friozinho do DF, mito esperado em sua chegada neste ano, contemplo nuvens brincantes no horizonte.

Deito a vista sobre a estante e me delicio com os brotos de uma tenra muda de gerânio que vêm nascendo.

Sempre fui apaixonado pelo mistério do germinar, da casca que se abre em brotos. De brotos que desafiam espaços impossíveis de ser. E, mesmo assim, tornam-se.

Não é um gerânio qualquer. É de pingente e vermelho, comprado seguindo recomendações expressas de minha mãe, numa saga hilária.

Vê-lo nascendo lembra minha mãe e seu amor pelas flores e plantas. 

Quando chego perto da sacada, e acompanho broto a broto sua evolução, é como se ela estivesse ali comigo, torcendo, apoiando, me amando.

As coisas só são coisas até serem tocadas pelo toque do amor. Como na mitologia quando Midas 
fazia ouro com seu toque, o amor nos torna mais que preciosos, nos torna eternos. 

Nesse momento, após serem abraçadas pelo amor, as coisas deixam de ser coisas. E esse filhote de gerânio não é mais um gerânio, é o Gerânio. Os substantivos viram nomes próprios, adquirem personalidade.  Aquele Gerânio, plantando de um pequeno galho caído no chão, quando eu preparava sua mãe, para levá-la até a minha, é presença de mamãe na minha varanda.  Minha mãe é aquela que além de me amar, reza por mim. Então, é amor em dobro. 

Não sei com vocês, mas comigo têm umas coisas que deixaram de ser coisas. O cobertor que o João Gabriel gosta de ver filmes, todo empacotado nele, não é mais um cobertor, é o Cobertor do JG.

Se eu soubesse dessa natureza das coisas, de tornarem-se evocação de pessoas e bons momentos, eu teria guardado mais algumas delas, em baús do pirata. 

Mas, quando somos jovens, achamos que isso de bom que vivemos vai se repetir e que nada precisa ser guardado, para com aquilo fazer comportas emocionais, tal qual fazemos com as frutas da estação, inclusive as jabuticabas. Para serem degustadas noutros momentos, quando a vida ficar menos agitada, ou quando a preocupação se avizinhar.

Somos seres simbólicos, de mistérios, místicas e cheios de subjetividades. Creio que é isso o que nos torna humanos.

Lady vem fazer faxina na quarta, ela pode esbarrar em qualquer um de meus vasos de plantas, e até quebrá-los, eu vou substituí-los numa boa, sem estresse, faz parte. 

Mas, mas se for o do Gerânio da mamãe eu irei sentir muito. Logo procurarei nos sacos de lixo, para ver se acho o lixo aqui de casa, e salvarei a tenra muda. 

Essa parte "Demiens", do "Homo Sapiens", é o que torna transcendental o viver.  Afinal, de perto ninguém é normal, como disse Caetano. 

Quem de vocês reviraria um lixo atrás de um galho de gerânio?

Quem de vocês compraria uma radiola usada, só para ao olhar para ela se lembrar de onde veio e o quanto cresceu, quando em 1985 - com quase 21 anos, recebi o  meu primeiro salário como adulto sério e grávido? E, hoje, há exatos 32 anos, fucei no Mercado Livre até achá-la, mesmo com um pequeno defeito no descanso do braço, segundo vendedor, e sem as caixas de som, mas funcionando. (Oremos. rsrs)  É bom olhar para nossa história e saber o que passamos, de onde viemos, e o quanto já crescemos e sobrevivemos, e estamos mais fortes e preciosos do que éramos. 

Não é mágico viver?  Não é bacana percebermos o quanto das pessoas entram nas coisas de nosso viver, dando a elas um novo significado?  E o quanto carregamos conosco, e deixamos nelas, do nosso perfume de existir?  Aliás, se há uma conserva emocional poderosa são os aromas.

Aromas afetivos que nos fazem rememorar o amor. Que renova e refresca nossa esperança, tal qual o orvalho das manhãs faz com os tenros brotinhos, saídos de cascas e galhos, dando-lhes mais uma oportunidade de despertarem o  seu melhor potencial.

Casas que não são lar e quartos de hotel nem sempre possuem isso. Não há aromas de referência e a história das coisas é frugal. Não há o cheiro de gente nelas.

Gente cheira. As pessoas são aromatizadas. Eu sei que tu está sorrindo, imaginando que algumas fedem, de ruins que são. Engano seu.  Elas apenas pisaram em cocô de pato, e carregam esse cheiro. Mas, não é delas. Foram coisas fedorentas que nelas foram se afixando. Se tirar essas coisas delas, elas voltam a cheirar.

Somos almas perfumadas. Todos nós. E, mesmo que alguns de nós tenham se transformado em coisas, em algum momento de sua história de vida, quando são tocados pelo toque do amor, tornam-se Nome Próprio, deixam de ser pessoas-substantivos. 

Até nós, coisificados que ficamos, não resistimos ao toque do outro em nosso ser, quando ele é de amor, e nova criatura nos tornamos. 

Nossa muda de gerânio interior, tão comum às demais, e sem graça alguma, quando nela se deposita o amor, deixa de ser uma muda, e passa a ser a muda. Transforma-se de objeto em sujeito, de substantivo em nome próprio.

Levanto-me e vou avaliar meu Gerânio. Agora são cinco folhas e três novos brotos. Antes era apenas um galhinho, sem folha e brotos. 

Quanto progresso!  Um desavisado que chega e olha para meu Gerânio, não vê nada de especial. Eu, que conheço sua história, sei de seu progresso pela vida, e o quanto significa para mim.

Assim é conosco. Para saber de nossos avanços têm que nos conhecer, e nos amar.
Muito de nós, visto de longe, somos apenas uma pequena muda de uma plantinha, sem flor e formosura alguma. Mas, se conhecermos a história dela, veremos o quão longe já chegou e o quão significativo é cada broto que dela nasce.  

Somos eternos demais para nos acostumarmos com o ruim e o pequeno, até de nós mesmos. 

Quantas pessoas pegaram o galhinho de nossa vida, que estava jogado lá no chão, desprezado, sofrendo e esquecido,  e com cuidado o plantaram no jardim de seus corações? Que vingaram em  rosas laranjas cheias de bênçãos e de beleza. 

Agora deu fome e vou comer uma feijoada, que também não é uma feijoada.  É a Feijoada, aquela que evoca em mim a renovação de meu espírito de luta, tal qual a brisa aracati faz nos sertanejos do Vale do Jaguaribe-CE, ou borboletas azuis fazem para caminhantes exaustos em trilhas do Cerrado.

Sim, quando o Gerânio der suas flores vermelhas, e em pencas, lá pelos idos de 2018, será mais mais uma razão para celebrar a graça de viver. E, nesse dia, você está convidado(a) para juntar-se à mesa e comigo celebrar à vida. Temos que aprender a festar a vida, e nas suas pequenas coisas, que ao serem objeto de nossa gratidão deixam também de ser coisas, tornam-se marcos. 

E, deixar marcos nos outros é muito melhor do que deixar marcas. Então, aguardem o marco das flores do Gerânio da mamãe. 

Quem procura acha. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Cheguei de exame periódico, feito no Hospital do Coração de Brasília, tomei coragem e fui avaliar os estragos da chuva na minha vinilcoteca, que fica na estante da sala.

A estante foi bem afetada por um temporal que por aqui caiu, ontem à tarde, pois as janelas estavam abertas e eu estava fora de casa. Nela, ficam meus vinis, livros de gastronomia e álbuns de fotos. Ontem, avaliei os estragos nas fotos. E, para minha grata surpresa, elas não foram atingidas.

Para mim, um verdadeiro milagre pela disposição dos álbuns e pelo volume de água que entrou.

Hoje, comecei retirando um dos lotes de discos, uns 50, dos 1.000 que possuo.
E, como diz a canção:  "meu mundo caiu". Eles foram atingidos em suas capas, e estavam molhados ainda, denunciando a chuva em suas faces.  Ficarão com as extremidades das enrugadas, danificando a composição artística das mesmas. Eu até botei para secar, contudo não serão mais as mesmas.

Os livros também escaparam ilesos, que bom.

Quando uma ponta de tristeza quis irromper meu coração, eu lembrei-me da senhorinha que fez exame comigo, hoje bem cedo, e da forma com a qual lidou com uma pane de seu carro, quando estacionava no hospital.  Deixa eu contar pra vocês.

Bem cedo saí para fazer exame de Cintilografia, marcado para 7hrs. Cheguei no local pelas 6h30min. Logo após, uma outra cliente chega. Percebo que é bem idosa, cabelinhos branquinhos, e de longe ela me vê e me saúda com um sonoro bom dia. E eu abri um sorrisão para ela.

Nossos atendimentos estavam marcados para 7hrs, e ela também iria fazer a Cinti.

Aí, chegou outro cliente para o mesmo exame, e da porta já esbravejou com a maquina de senha que ainda estava desligada. Ao que a senhorinha disse-lhe: "não se preocupe, o Sr. é o terceiro da fila".
O cliente sentou à minha direita, e ela estava à esquerda. E ele continuou resmungando sobre o horário dos atendentes (x) o horário do atendimento.

A senhorinha mudou de assunto, cotando que o carro dela "morreu" ao estacionar, e que deve ter "afogado". E que foi salva pelos rapazes que "guardam carro", que lhe ajudaram empurrando o carro por mais um metro, até ele entrar complementamente na vaga.

Ela falava com uma mansidão e paz, daquelas de ninar criança no colo. Nenhum atitude de desgosto, de maldição de raiva ou ranzince. Pelo contrário, ela disse estar muito grata aos rapazes que ajudaram-na, e que se o carro não pegasse, na sua saída, ela chamaria o seguro.

Às 7hrs,  as atendentes chegam e nos chamam. Eu fico na estação de atendimento do meio, e os outros clientes nas do meu lado.

A senhorinha, ao começar a ser atendida, deseja á jovem um excelente dia de trabalho. O outro cliente, bem agitado e nervoso, pergunta à moça: "Vem cá, qual é o seu horário mesmo?"

Eu baixo a cabeça de envergonhado.

Para que essa pressa, se vamos passar quatro horas nas salas de exame? O que são uns minutos a mais ou menos?  Pensei com meus botões.

Depois de atendidos, seguimos para a sala de pinçamento da veia. O enfermeiro nos dá mais formulários para preenchermos, e ele solta mais um rabujo: "Cadê a minha prancheta?" 

O enfermeiro se desculpa e diz que são dois preenchimentos por vez, no caso o meu e o da senhorinha, e que logo dará a prancheta para ele.

O enfermeiro pede então que caminhemos pelos corredores por 30 minutos, "para circular" a medicação.  Aí começamos a andar. Ela, uma gracinha: toda falante vai contando de como era Brasília quando aqui chegou em 1966. E que ama essa cidade. Que foi atleta de vôlei e gosta de fazer caminhadas. Para se manter jovem nos seus 83 anos. Como não amar uma pessoa assim?

Ele, nos acompanha reclamando do curto espaço da "pista", ou de uma cadeira que alguém deixou no circuito, diminuindo-a mais ainda. Ou de apenas um tomógrafo está funcionando pela manhã, o que atrasará mais ainda o atendimento. Como ele foi caçar essa informação, pensei?

Nós, damos de ombro, e seguimos falando de coisas boas, e até brincamos dizendo que estamos caminhando na praia, e que só falta a cerveja. O enfermeiro que nos atendeu ouve-nos, e entra na brincadeira, convidando-nos para ver a decoração da sala do ergométrico. Ele abre a porta e nos diz, aí está a praia de vocês. Tratava-se de uma parede pintada com uma bela praia. E todos caímos na gargalhada.

Após a caminhada, é hora de comer algo gorduroso para melhorar as imagens: água, pão, queijo e iogurte. Imaginem quem reclamou do lanche?  Acertou...

O cliente cismou com a água mineral com gás. 

A senhorinha sorri, deliciando-se com o lanchinho. E dizia,  "se eu soubesse que tinha direito a lanche tinha feito esse exame mais nova". cacacaca

O que os diferencia?

Ela, extraí elementos da realidade para ser mais feliz.

Ele, extraí elementos da realidade para ser mais triste.

Cultivar o bem-estar emocional positivo nos pensamentos é uma escolha.

Volto o olhar para a vinilcoteca. E faço uma intervenção em meus pensamentos negativos, quanto ao que me sucedeu.

Digo para mim mesmo: pelo menos salvaram-se as fotos, essas sim, únicas em meu viver.  Eu trocaria todos os meus 1.000 vinis por um álbum, com 500 fotos, das mais de 5.000 que tenho impressas, de um tempo que não havia máquina digital, caso ele tivesse sido estragado pelas águas. 

Muitas coisas em nosso viver podem ser assim, quando as perdemos. Poderemos até ficar tristes por um momento, frustrados e etecetera e tal. Mas, se olharmos por outra perspectiva, se olharmos para o que ainda temos, para o que nos sobrou, e não para o que nos falta, encontraremos forças para superar o luto da perda, de qualquer perda.

E, no meu caso, sobraram os livros e a fotos. E está excelente. É lucro, diante do que ocorreu na sala com aquela chuvarada.

Quem passa o dia procurando razoes para ser infeliz, acha. Nosso cérebro entende que é esse nosso modelo mental, de pesquisa dos dados da realidade ou dos outros, e se encarregará de apresentar cenas e atitudes, desse teor de emoção negativa, e vindas de bandeja e aos montes.  Como o cliente fazia com tudo que via, num excesso de crítica pessimista da realidade. 

Assim como o Google faz quando você pesquisa qualquer coisa, por alguns dias, passando a enviar para você um monte de coisas relacionado àquela pesquisa, até no seu  Gmail e Facebook,  Ele saca o que tua percepção seletiva está atrás, e te oferece mil possibilidades de encontrar o que precisa.

Nosso sistema de emoções e pensamentos é igualzinho, ou melhor, é muito, muito, muito mais potente que o Google.  Nosso cérebro saca o tipo de energia que estamos cultivando dentro dele, e faz com que ela encontre pontos de conexão, na realidade ou no outro, para se abastecer dela.

Ter consciência sobre o que estamos pensando, e do impacto desse pensamento em nossos comportamentos e emoções, e até nos relacionamentos com os outros, já é um primeiro passo para deter o rio dos pensamentos negativos - substituindo-lhes por outros, bem mais expansores e edificadores da consciência, e das possibilidades de ação. "Se não pegar o carro, eu chamo o seguro..." Que sabedoria!

Bem me quer, e eu te quero. (Por Ricardo de Faria Barros)

Era dia do Halloween, no condomínio. As ruas estavam repletas de fadinhas, monstrinhos e pessoinhas que mais pareciam saídas de filmes de terror.  As família entraram na brincadeira e as casas estavam com seus jardins decorados, e à caráter com muitas abóboras assombradas, teias de aranha, facões, caveiras e bruxas.
E a criançada se divertia, já sabendo pela decoração externa as casas que poderiam parar, pois ali tinha coisa boa para comer. E, então gritavam, quase se esgoelando: "doces ou travessuras?". E aí era uma felicidade só.  De uma delas, saiu um pai babão, todo enfaixado - tal qual um múmia, e com sangue escorrendo pela cabeça, artificial é claro, e as crianças correram com medo dele. E tudo era festa naquela tarde de sábado. Eu e o JG formamos um grupo de coleta e saímos também à caça de doces. Resolvemos visitar a varanda da Catarina, que pela decoração prometia. Ali, nos juntamos ao grupo deles, e agora éramos 6: Eu, JG, Sônia, Catarina, Pergentino e a pequena Lis.  Um reforço considerável na missão de amealhar doces.  

A Lis estava chorosa, e o JG estava com resto de sono do dia anterior, e reclamando que não tinha fantasia de monstrinho. O que foi logo sanado pela Catarina, que improvisou um turbante de cérebro, uma capa e uma maquiagem de cortes. Pronto, havemos monstro!

A Lis não queria caminhar. Seus dois anos e três meses pedia braço. E, em algumas casas, ela empacava e não queria ir pegar os docinhos.  Catarina falou que iria chegar um amiguinho dela, do jardim da infância, de um ano e onze meses e que ela melhoraria de humor.  Mães entendem os filhos. Sabem tudo deles. 

Seguimos pelas ruas, ali e acolá parando para consolar Lis, que estava naqueles dias. Se tivesse TPM, aos dois anos de idade, diria que ela estava enfezada por ela.

Mas, eis que o Vítor e seus pais chegam e juntam-se ao nossos grupo.

Lis abre um sorrisão, dá a mão ao Vítor e torna-se outra pessoa - nova criatura é!

Agora ela corre na frente, para pegar os doces, sempre puxando o Vítor pelas maozinhas. Agora ela faz pose para as fotos, junto aos jardins decorados. Agora ela balbucia palavras que só os pais entendem. Esforço-me para compreendê-la, e com a alma, entendo o que ela diz, que está feliz com a chegada do Vítor.

Ela não tomou chá, não tomou calmante, não tomou uns cocorotes pedagógicos, não tomou carão, não tomou nem mamadeira para mudar radicalmente de humor.

Apenas acolheu o Vítor em seu coração.  Imaginar que a soma das tenras idades deles não dá nem cinco anos. 

Numa esquina, miro no casal e flagro o olhar deles, um para o outro. Um olhar que sorri, que abraça, que cuida e admira. É olhar de amor, e dos bons.  Lógico, entendam-me por favor, falo de um amor maior que sexualidade, maior do que aquilo a que costumeiramente associamos quando falamos do enlace entre pessoas graúdas. 

Numa casa, a proprietária pede para tirar uma foto do casalzinho, ele vestindo com uma capa do Drácula, e ela de chifrezinhos rosa.

Até JG comenta o milagre da mudança de humor e disposição da Lis. É isso que o amor faz em nossa vida, nos torna lendários. 

Melhora nossa disposição, ânimo, nos motiva a fazer coisas impensáveis, como roubar docinhos de crianças para levar à pessoa amada que ficou em casa.

Em que esquina ficou aquela Lis chateada, birrenta, chorosa e cheia de manha, que só queria braço?

Acho que no fundo todos nós, quando estamos naqueles dias da pá virada, precisamos de um Vítor adentrando nosso viver. Vítor pode ser um amigo, um familiar, uma pessoa que quando a nós se chega traz consigo o sol das manhãs vindouras, traz a paz de um entardecer, traz a segurança de  adormecer no calor de corpos que se completam. Vítor faz Lis sorrir, precisamos de quem nos faça sorrir. 

E como se expressou o amor de Lis para com o Vítor?  Primeiro pela mudança radical do estado de ânimo e de energia quando em sua presença.  Depois, pelo cuidado com ele, mais novo 4 meses que ela. Ao não largar sua mãozinha, e até diminuir o ritmo de suas correrias, para que ele a acompanhasse. Depois, pelo admirar. Lis admira Vítor, pude comprovar em vários olhares languidos que a vi fazendo,  admirando sua fantasia. Por último, no se doar. Lis pegava os docinhos, mas sempre tinha um para o Vítor. Ela partilhava os seus próprios docinhos com ele, sem egoismo, num gesto de pura entrega e doação. Daqueles que enchemos os olhos de lágrimas ao vê-los. 

Sim, meus amigos e amigas, o amor muda nossa própria essência, que sempre esteve ali, mas que precisa dessa força para se expressar no seu melhor, para despertar e crescer, desenvolvendo potenciais que nem a pessoa, antes de amar, sabia que tinha.   Bem me quer e eu te quero e a vida se descortina numa explosão de aromas, texturas, cores e sabores, e viramos imortais, eternos demais para sermos menos.

Volto pra casa com o coração cheio de paz e alegria, influenciado pelo que testemunhei. Esse é o melhor dos efeitos colaterais do amor, ele irradia vida para todos que perto deles estão. No rádio toca um Roberto, abro o vidro do carro e deixo sentir a brisa aracati de final de tarde, miro à frente e vejo uma mor, ele contagia. Volto sentindo a presença da brisa aracati em meu viver, de uma borboleta azul guiando meus destinos e de uma canção de Roberto que teima em aquecer corações.  

Você já parou para pensar que tu presença pode mudar uma vida, um dia, um instante, tornando-o mágico, único, místico e transcendental?    

Você já parou para valorizar, mais ainda, aquele que quando perto de ti chega muda a força de teu viver, e te faz produzir serotoninas, endorfinas, dopaminas e oxitocinas, o quarteto fantástico do bem-estar?

Como diz a canção do Jonh Denver, Perhaps Love, talvez o amor seja isso mesmo: uma pessoa que possa nos levar para casa. Lis e Vítor, e todos que amam uma pessoa, ou uma causa, se encontram nesse poema, e sabem mesmo o que é mudar de humor ao verem o amado, seja ele pessoa ou uma causa que militem, um propósito de vida. Vejam que belo:

"Talvez o amor seja como um lugar de descanso, um abrigo da tempestade. le existe para te dar conforto, ele está lá para te manter aquecido

E nas horas de turbulência, quando mais você está sozinho
A lembrança de um amor te levará para casa

Talvez o amor seja como uma janela, talvez uma porta aberta
Ele te convida a chegar mais perto, ele quer te mostrar mais
E mesmo que você se perca, e não saiba o que fazer
A lembrança de um amor fará você superar tudo

Oh, o amor para alguns é como uma nuvem, para outros, tão forte quanto o aço
Para alguns um modo de vida, para outros uma forma de sentir
E alguns dizem que o amor é se agarrar, e outros dizem que é deixar ir
E alguns dizem que o amor é tudo, outros dizem que não sabem

Talvez o amor seja como o oceano, cheio de conflitos, cheio de dor
Como uma lareira quando faz frio lá fora, como o trovão quando chove
E se eu vivesse para sempre, e todos os meus sonhos fossem realizados
Minhas lembranças de amor seriam de você

E alguns dizem que o amor é se agarrar
E outros dizem que é deixar ir
E alguns dizem que o amor é tudo
E outros dizem que não sabem

Talvez o amor seja como o oceano, cheio de conflitos, cheio de mudança
Como uma lareira quando faz frio lá fora, como o trovão quando chove
E se eu vivesse para sempre, e todos os meus sonhos fossem realizados
Minhas lembranças de amor seriam de você.

Em tempo: Depois dos doces Lis e Vítor brincaram até tarde da noite. Talvez o amor também isso,  ter com quem brincar.

Não eram camarões, eram bênçãos! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era sábado de feira livre no Mercado Central de Campina Grande-PB, e adentrei nela pela rua das flores. Eram flores de todos os tipos, formatos e para as mais diversas ocasiões. Procurei as de cor laranja. Minhas prediletas. E não me pergunte o porquê. Amo flores laranjas. De todos os tipos. O tom laranja me acalma. Entrar na feira por aquela rua rejuvenesce a alma e restaura esperanças. E ao atravessá-lo, mesmo que não se compre nenhuma delas, não tem como a alma não seguir caminho sem sair dali mais perfumada.
E, almas perfumadas são presentes de Deus em nossa vida. São como quem avista uma borboleta azul, ou recebe nas faces a brisa Aracati, que sopram sobre o Vale do Jaguaribe-CE.
Segui caminho e parei nas lojas de mangai. Cheias de "pra que isso?" nordestinos. Verdadeiras têm de tudo. De cangaia, cabresto, amolador, pote, fumo de corda, lampião, enfeites, bolsas, enxada, arataca, alpercata e boneca de sisal, que se olhar de uma vez, como diz o poeta Jessier Quirino, dá até uma doidiça.
Saindo de lá, carregado de mimos para pessoas amadas, segui para a ala dos pescados e frutos do mar. Um deleite só de ver e sentir o aroma, por ali passar.
Tem peixe fresco, peixe salgado, caranguejo, tem bacalhau popular, sardinha, têm tranças de piabas, fazendo cortinas nos balcões, uma belezura, e os montinhos de camarão de todos os tamanhos, para caldo, pizza e moqueca. E tem a gritaria dos vendedores, que anunciam: "olha o peixe fresco!" Feira livre sem gritaria num é feira, é supermercado. Extasiado, parei numa banca para fazer as fotos dessa crônica, de montinhos de camarão, salgados e secos, devidamente perfilados. Notei que enquanto eu tirava as fotos, o senhor que atendi me fitava com surpresa. Orgulhosos com os seus camarõeszinhos que posavam para a foto.
Ele se aproximou e perguntou-me se eu queria levar algo. Disse-lhe que estava de passagem, logo viajaria para Brasília e que vim matar as saudades do Mercado. Aí, ele me disse que aqueles montinhos de camarão tinham história. Meus olhos brilharam, amo acolher histórias.
Ele se apresentou, me chamo França. Qual é sua graça? Me chamo Ricardo.
França contou-me que na década de 70 ganhava muito dinheiro com confecções.
Era caixeiro viajante e fazia todo o interior da Paraíba, levando peças de roupa de importante estabelecimento: Tecidos Cardoso, acho que era esse nome. Aí, após 20 anos de muita labuta, e de segunda à sexta fora de casa e percorrendo estradas de barro, comendo e dormindo mal, ele acordou num sábado muito cansado e querendo largar daquela vida. E, para desparecer, veio com o filho de oito anos no Mercado Central.
Aí, enquanto ele comprava peixe numa banca, seu filho soltou-se de sua mão e foi “curiar” noutra banca, assombrado que estava com os motinhos de camarão ali expostos, sobre o balcão. E, do alto de seus 8 anos e santa inocência, pegou alguns para comer, como se fossem pipocas. Aí, o dono da peixaria, na qual o menino "amealhara" um pouco de camarão gritou com ele e o ameaçou com um porrete. Sr. França, ouvindo a gritaria, virou-se e viu que era com seu filho. E saiu em seu socorro. Pagou o que o filho pegou, pediu desculpas, comprou ainda mais um pouco, de camarões secos e salgados. E ainda ouviu do dono que o filho dele agiu como meninos de rua, sem educação.
Ele olhou para o filho e disse: vãos para casa andando, e comendo camarão. “Tu come um, eu como outro. Eu preciso pensar, e andar faz bem".

E seguiram os dois por uns 6 km, até o bairro do Catolé, onde França morava. Chegando em casa, França disse assim a mulher: "Hoje nosso filho se sentiu numa arapuca e teve medo, pegar indevidamente uns camarões de banca de feira. Assim como ele se sentiu, eu estou me sentindo no meu trabalho, em relação à minha família, que não vi crescer por tanto que me ausentei. Eu não aguento mais essa vida mulher, longe dos meus, e por vinte anos, e vou pedir as contas". Aí, ele de fato pediu as contas e com o.... [Chegou um cliente, e o França ficou irritado de ter que parar a história. Fiz sinal para ele que tinha todo o tempo do mundo. Ele atendeu rapidamente o cliente.] E com o dinheiro da indenização e suas economias, disse a mulher que iria vender camarão na feira. 

Então, passou a procurar um box vazio, para comprar ou alugar, e por muitos sábados à frente. Sempre indo com seu filho de 8 anos. Um dia, meses depois, ele achou um à venda, e bem pequenininho, ao lado do vendedor que foi rude com seu filho.
Ele comprou o box, e no outro sábado madrugou no fornecedor de camarão. Comprou todo o estoque que ele tinha trazido. Naquele sábado, só França tinha camarão seco.
Logo pegou um saco deles, e os retalhou em montinhos sobre o balcão. Como os da foto.

E, alguns meninos de rua passavam pelo balcão dele e "roubavam" um pouco de camarão. Ele via, e fingia que não via, e sorria pelo canto dos olhos, sem nada fazer.
Aí, umas seis horas depois, já no final de feira, o concorrente do lado, que não o reconheceu, disse que daquele jeito ele iria quebrar. Pois a molecada e os pedintes estavam comendo tudo que era dele. E que o negócio dele iria falir.
França, então olhou para o concorrente e soltou em voz bem alta um: “Amém!”
O concorrente disse: - como tu diz amém?
França respondeu-lhe: "Se o que disse for de Deus, amém, ele dará em dobro." Se o que disse foi do Diabo, nada como um amém para afugentar uma praga.".
E então, França passou a trabalhar no seu pequeno box de feira, do nascer ao pôr do sol, e muito! E, passou a fazer promoções, orçava os produtos num preço justo, sem usura, e nunca negou um “choro” no peso, e pra mais.

Dois anos depois, comprou o box da esquerda, em 10 prestações e deu ao seu filho de 18 anos pra cuidar,a gora com peixe salgado também. E, sempre deixava nos dois boxs os montinhos de camarão, sem olhar muito para eles, que era para pessoas que queriam "roubar".
França me disse, que eles têm fome, e que sabia o que era fome. Disse ainda que aqueles montinhos de camarões eram um pequeno pedaço do lucro que tinha tido, ou seja, já estavam pagos.
E que era sua forma de agradecer a Deus. Um tempo depois, seu filho tinha agora 13 anos, e chegou no seus boxs, após circular pela feira, dizendo-lhe: : "Pai, por onde eu passo na feira, os meninos de rua me reconhecem e dizem: "Ele é o filho do Sr. Bonzinho""

E o França ficou todo orgulhoso. Um belo dia o vendedor do lado, o que jogou-lhe uma praga, e era tido como rabugento e infeliz, o abordou com proposta de venda do box dele. França juntou todas as economias e comprou. “Raspei o tacho”, comprei o box de meu principal concorrente e dei de presente ao meu filho, agora que fazia 5 anos para ele cuidar, inovando com a venda de peixe fresco, pela primeira vez: tilápia, curimatã, traíra e cioba. E foi um sucesso. E, nos 3 boxes de feira dele, nunca faltou um montinho de camarão, disposto estrategicamente de bobeira, para matar a fome de quem precisa.
Então, contei-lhe que já sabia que eles eram especiais, pois que me sorriram na foto. Aí foi ele quem sorriu, um sorriso de quem faz a coisa certa e deixa seu legado no mundo.

Então, todo orgulhoso, chamou-me para aferir com ele o estoque, freezer a freezer. Senti-me como se adentrasse na tesouraria do Banco do Brasil. Ele mostrava os pintados, jaús, pirarucus que vinham de longe, e que só ele tinha, como se fossem seus tesouros.

Eu, bem emocionado, sabia que o amor tesouro não estava naqueles freezers, mas no coração daquele 
tão simples feirante de feira livre.
Que achou seu jeito de fazer a diferença nesse mundo, tornando-o melhor do que encontrou.
Todos temos esses montinhos de camarão para doar, de nossa própria vida, e que não nos farão falta.
Pode ser tanto em bens materiais, como no valor do nosso trabalho e serviço para os clientes, como em capital emocional que doamos aos outros, na forma de escuta, abraços, apoio e de um ombro amigo.
Seguindo para João Pessoa, percebi que a foto que fiz com ele não prestou, talvez por gordura de peixe na lente.
Mas, o aroma daquela alma perfumada invadiu meu ser, e se galvanizou nas meninas dos olhos de minha alma.
Obrigado França por existir!
Sim, antes que me esqueça:
França, eu também roubei alguns camarões, e estavam uma delícia, mesmo tendo sujado a lente com o que deles ficou em minhas mãos, não resisti, carne é fraca e tem fome de poesia.
Depois te pago França! Fica com Deus, aliás, Deus já está contigo.

Cartas ao JG - Declare seu Amor (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João Gabriel, 8 anos)

Sabe meu filho, desde que aos três anos tu começou a estudar no turno integral esta foi a primeira vez em que almoçamos juntos. Aproveitei a ocasião, para gravar uma declaração tua, para tua irmã, que hoje faz 30 anos. Já que não poderá estar conosco, mais tarde, num encontro às 21hrs que teremos, com ela, seus outros irmãos, meu genro e noras.

E foi um almoço especial.

Primeiro, pela corrida em disparada que tu deu, ao me avistar no teu colégio, resgatando-lhe de teu tradicional bandeijão.

Depois, pelas belas declarações que gravou para tua irmã: 

- Priscila, hoje eu vou comemorar com meu pai o teu aniversário, a gente vai comer fora. Um beijo, tchau!
- Priscila, eu te amo!

Filho, declarações de amor são muito importantes em tua vida. Não as tema. Publique-as, deixe que elas saiam de teu coração, sem medo de parecer bobo. Fale, se expresse, bote pra fora o que sente.

Diga ao outro o que pensa dele, sobre o amor que sente, antes que perca essa oportunidade, nas rodas vivas da vida que podem girar e depois ser tarde demais.

O amor pede palavras que eternizem os gestos. 

Se até Jesus sentiu essa necessidade, quando antevia sua crucificação iminente, ele declarou em alto e bom som aos seus discípulos:

Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.
João 15,15

Veja que declaração bacana de Jesus, ao afirmar que seus apóstolos tinham mudado de fase, indo para além de servos, agora amigos.

Você acha que Ele precisava fazer aquele gesto? Essa declaração?

Digo-lhe, precisava!

Ontem meus alunos compartilharam uma atividade que passei para eles. A atividade consistia em fazer uma Declaração de Gratidão a uma pessoa importante na vida deles, e não só escrevê-la, como proferi-la para a pessoa, via telefone, ou face a face.

E a aula foi estrondosa de depoimentos de amor . Que eles, ao darem, receberam.

"Esposa, eu te agradeço por ser essa mãe tão dedicada ao nosso bebê.".
"Filha, eu te agradeço por ter me tornado mãe, ao te parir"
"Amiga, eu te agradeço por ter aberto seu lar para que nele eu estudasse e fosse alguém na vida".
"Namorada, eu te agradeço por não ter desistido de mim".
"Irmão, eu te agradeço por ter sido meu pai e mãe."

A cada depoimento, a turma se emocionava, e com justa razão.

E, muitos disseram que embora aquilo já fizesse parte da vida deles, eles nunca tinham parado para escrever o que o outro para eles representava, por pensarem que o outro já sabia, e que ao assim fazê-lo, motivados pela tarefa, o outro e eles mesmos, foram agraciados com o dom do amor que se manifestava.

Sua irmã agora tem um áudio com tua declaração de amor. Algo que ela guardará para a vida.  Poderíamos apenas ter almoçado. Mesmo significativo, nosso primeiro almoço, poderia ter sido apenas um almoço, entre pai e filho. 

Mas, a partir de teus áudios, esse almoço marcou declarações tuas: simples, comoventes e verdadeiras, que tornaram os 30 anos da Pri muito mais felizes do que já estão sendo.

Pensamos que o outro já sabe o que sentimos por ele e não nos importamos em para ele atestar, deixar registrado, declarar.

Talvez por medo, de que isso venha a passar e a letra ficar escrita. Digo-lhe, besteira. 

Se expresse, sem temor. Declare seu amor sem querer com isso receber algo em troca. Apenas para atestar para a pessoa amada o quanto ela lhe é importante.

Não deixe ninguém que ama sem registros escritos, gravados, filmados, desenhados ou fotografados de teu amor por ela. E, não vale aqueles emojis do tipo carinha com amor, amor piscando, etc.

Tem que botar a cabeça pra funcionar e declarar o que o outro, aquele tu ama, representa para ti. Faça com tuas próprias palavras, não tema se tem erro de ortografia, ou se pode ser mal compreendido. Nem espere que ele faça para que tu retribua.
Amor não é comércio de afetos.

O mundo vai te ensinar o contrário do que te falo nessa carta. Vai te dizer que as pessoas são más, que não podemos confiar nelas, que não vale a pensa se dar no amor, pois vão nos ferir, que quem se expõe amando deixa o outro confortável, e ele desiste de nós, pois nos tem como garantido, e coisas do tipo. Tudo besteira!

Ame e dê vexame! Ame bobamente, intensamente e sem medo de ser tu mesmo e se expressar para a amada. Só não faça tatuagem com o nome dela, não recomendo. 

Mas, digo-lhe e repito, não perca nenhuma oportunidade, nem que seja num parágrafo, para dizer a quem ama o quanto essa pessoa é importante em teu viver, e o porque disso. E não falo apenas em teus relacionamentos afetivos. Falo em toda forma de amor que valha a pena, e que tu sinta o poder dela em tua vida. 

Eu declaro que fazia muto tempo que não tinha um almoço tão bacana como o que tivemos neste dia. E que, vê-lo correndo em minha direção, fez-me abrir meus braços num oceano azul de imensidão,  para nele te acolher e te amar.  Eu declaro que doravante sempre criarei oportunidades de,pelo menos, semanalmente almoçar contigo.  Te amo.

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